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Buscando voos altos

Com escolas de base e formação de equipes competitivas o projeto Pato Basquete quer colocar Pato Branco e o Sudoeste no mapa do basquetebol nacional
(Foto: Helmuth Kühl)

Eric Aparecido Soares é um homenzarrão de 31 anos de idade e mais de dois metros de altura. Natural de Santo André, São Paulo, ele é mais uma das várias pessoas que chegam a Pato Branco por conta de oportunidades de trabalho.

Sua área de atuação é relativamente nova na região. Eric é um atleta profissional de basquetebol, e foi contratado por um projeto que pretende colocar a cidade no mapa da modalidade, o Pato Basquete.

Há alguns anos Pato Branco já vem sendo reconhecida a nível nacional pelos bons índices de desenvolvimento humano, econômico, tecnológico e social. Mais recentemente, a cidade também passou a chamar atenção também pelo esporte por conta do Pato Futsal, equipe que disputa os principais torneios estaduais e nacionais do futebol de salão, e já conta com títulos expressivos.

Para isso foi preciso investir em contratações, estrutura, criar um projeto e executá-lo. É esta a receita que os idealizadores do Pato Basquete devem seguir, e é por isso que o experiente Eric está por aqui. “Pato Branco interessou muito, pelo projeto sério e pela estrutura fornecida, comparável ao suporte que se encontra nos times da NBB”, comenta, citando a principal liga de basquete do Brasil.

O atleta começou a jogar por volta dos 11 anos de idade, nas categorias de base do Santo André, depois de ser notado pelo seu treinador e padrinho no esporte. Com a equipe foi campeão paulista de base, além de ter conquistado o título Sul Americano pela seleção brasileira sub-16.

Com o desempenho no time nacional lhe rendeu um convite para jogar na Espanha, onde ficou por cerca de quatro anos. Voltou ao Brasil, jogou na Ulbra, do Rio Grande do Sul, voltou a Espanha, onde disputou a terceira divisão nacional, e novamente no Brasil defendeu o Vila Velha por dois anos na NBB e Liga Ouro, a divisão de acesso à NBB. Antes de desembarcar em Pato Branco jogou a Liga Ouro pelo Brasília.

E ele não é único membro da equipe com bagagem, o que denota a ambição do projeto. Ralph Cassemiro da Silva, 30 anos de idade, e também com mais de dois metros de altura, é da zona leste de São Paulo. Ele conheceu o basquete aos 12 anos, mas foi aos 14 que a modalidade começaria a se transformar em profissão, por meio de teste para o time de São Bernardo do Campo.

Seis meses depois foi convidado para jogar no São Caetano, onde ficou por cerca de cinco anos e onde já jogava com os adultos, apesar dos cerca de 17 anos de idade na época. Na carreira, o atleta também soma uma passagem pelo Uruguai, onde diz ter convivido com uma cultura de bem-estar fora da quadra, o que na sua opinião é fundamental para o rendimento.

Perceber que teria algo parecido pesou na sua decisão de ingressar no projeto Pato Basquete. “Não é todo lugar que oferece isso, que te tratam como igual, em suporte até em nível pessoal”, comenta. Além de atleta, Ralph é também farmacêutico de formação, e já chegou a exercer as duas profissões simultaneamente. Em Pato Branco, porém, sua dedicação será exclusiva à equipe.

Parte do time masculino principal. Eric é o primeiro, em pé, da direita para a esquerda. Ralph é o terceiro. Ao centro, Carlos Magno, o técnico

 

Ralph afirma que deve muito de sua formação ao basquete. Por conta de sua origem, ele comenta que muito provavelmente não teria as mesmas oportunidades caso não tivesse decidido se tornar um atleta.

Formação. Esse é um dos objetivos que motivaram a criação do projeto. Em resumo, o Pato Basquete surgiu da articulação da Associação Basquetebol Arte de Pato Branco (Abap), e da Associação Pato-branquense Amigos do Basquete (Apab), além de empresários e outros apoiadores.

A intenção é promover a modalidade na região, por meio da criação de equipes masculinas e femininas, juvenis e adultas, além de promover iniciativas de formação em escolas da cidade. “A gente acredita muito no esporte, como formação do cidadão, do caráter, principalmente da criança e do adolescente”, comenta Robson Machado, um dos membros da diretoria. 

Assim como Robson, que jogou por equipes locais nos anos 90, praticamente todos os envolvidos no projeto já tiveram ou ainda tem ligação direta ou indireta com a modalidade. “Nós praticamos esporte lá atrás, são várias gerações envolvidas, professores, atletas que jogaram lá nos anos 80, 90, 2000. Então chegou um momento de maturidade nossa, pessoal, profissional, em que decidimos que chegou a hora de devolvermos um pouco do que o esporte nos deu”, completou Marcelo Pastorello, presidente do Pato Basquete, entusiasta que também já integrou equipes locais.

Para tirar o projeto do papel, Marcelo explica que o primeiro passo foi reunir as associações e os envolvidos em torno da ideia, organizar uma diretoria, determinar atribuições e agregar competências, como direção, coordenação, marketing, entre outros.

"Chegou a hora de devolvermos um pouco do que o esporte nos deu". Marcelo Pastorello, presidente do Pato Basquete

 

Na equipe está Belmar Ramos Junior, um dos nomes mais representativos do basquete em Pato Branco, tendo sido inclusive, técnico de Marcelo e Robson, hoje dirigentes.

Belmar atua no projeto Pato Basquete como fisiologista. Ele vem de uma temporada de dois anos trabalhando no futebol japonês, além de prestar consultoria a outras equipes profissionais pelo Brasil, por meio da representação de um equipamento ligado ao alto rendimento, que também está sendo aplicado no time de basquete de Pato Branco.

O profissional analisa que manter uma equipe competitiva vai além de contratar atletas de qualidade. Segundo ele, é preciso contar com um staff completo de profissionais, que inclui técnico, preparador físico, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, entre outros.

Diretoria estruturada, a sequência foram as escolas de base, e a busca por um técnico para a equipe principal. O selecionado foi Carlos Magno Lettrari dos Santos. Magno, como é mais conhecido, vem de uma família de futebolistas de Goioerê, Paraná: o pai era técnico, e o irmão jogador. Foi um vizinho que o convidou para jogar Basquete, esporte onde ficou por estímulo de seu treinador que também era professor de Educação Física na escola onde estudava.

Seu sonho era ser um jogador relevante no cenário nacional, objetivo adiado por questões pessoais. Em 2005, surgiu a oportunidade de comandar o time masculino de sua cidade, equipe com a qual conquistou títulos regionais e estaduais.

Ele também foi auxiliar técnico da seleção paranaense de menores, e depois técnico da seleção estadual, com a qual foi três vezes campeão sul brasileiro e vice-campeão da Copa Mercosul. Magno trabalhou ainda como auxiliar no Campo Mourão, atualmente a única equipe do Paraná disputando a NBB, principal liga nacional da modalidade. “Profissionalmente foi uma escola muito grande. Nós jogamos três ligas Ouro e fomos vice-campeões em 2016, quando subimos para o NBB”, conta sobre o período.

Por cerca de três anos, magno conciliou o trabalho no Campo Mourão com o comando da equipe de Goioerê, além de atuar como professor. Magno conta ter se convencido da seriedade do projeto Pato Basquete, que também estaria alinhado com seus valores enquanto profissional.

“A construção de uma equipe começa pela sinceridade. Ter coragem de ouvir, coragem de falar. É entender, na relação interpessoal, que você pode ter as suas convicções, mas que também pode colher informações, inclusive dos atletas, que tomam as decisões na quadra”, explica o técnico, sobre seu método.

Ele completa: “É preciso jogar com alegria. A equipe precisa estar bem de coração e de cabeça. O projeto quer isso, quer os jogadores estejam bem, com uma estrutura boa exatamente para facilitar as coisas dentro da quadra”.

Técnico fechado, era hora de montar a equipe. Aqui entraram Eric, Ralph e outros atletas, que chegaram para morar em Pato Branco. Até o fechamento desta edição, eram sete os “forasteiros”, que compõem a equipe com jogadores nativos de Pato Branco. Entre os contratados há ainda um estrangeiro, o norte-americano Kevin Phillips, de 25 anos, que já jogou em equipes do seu país, do Canadá e da Espanha.

Até meados de junho, o time já havia disputado e vencido o segundo circuito da Taça Paraná e a fase regional dos Jogos Abertos do Paraná, que garantiu vaga para a disputa geral da divisão B da competição. Caso vença, o time disputará ainda este ano a divisão A. Além das competições oficiais, o time deve promover ainda amistosos e a Copa Farmácia Sudoeste/GP Combustíveis, realizado no fim de julho, envolvendo equipes convidadas.

Em 2018, a equipe deve participar ainda do Campeonato Estadual, e de outras competições. E a diretoria já tem seus objetivos definidos: a médio e longo prazo, a intenção é trilhar o caminho até a NBB, passando pela Liga Ouro.

Mas para isso é preciso mais do que um time competitivo, é necessário criar um ecossistema favorável ao desenvolvimento do esporte, conquistar torcedores, buscar viabilidade, e fechar um ciclo de desenvolvimento. “É importante ressaltar que o Pato Basquete não é um time, é um projeto”, reforça Robson Machado.

"O Pato Basquete não é um time, é um projeto", Robson Machado, vice-presidente

 

O ciclo começa, por assim dizer, nas escolas de base. Pelo menos cinco escolas e espaços já contam com aulas de basquete, ministradas por professores contratados pelo projeto. A intenção é criar dez até o fim do ano.

Para Márcio Kloss, muito mais conhecido como Urso, supervisor do Pato Basquete, o trabalho de base tem duas funções. “A importância principal é a social. De tirarmos as nossas crianças do sedentarismo, dos grupos de risco dos bairros”, comenta. A segunda função é formar atletas. “É uma escada para que a gente traga novos talentos para participar das equipes”, completa Urso. O projeto possui ainda os times juvenis e adultos, femininos e masculinos.

Para formar público, o projeto aposta no reforço do entretenimento, uma das características do esporte. As partidas deverão contar com dinâmicas envolvendo o público, alimentação, promoções e sorteios, de modo semelhante ao que acontece na NBB e na própria NBA, o principal torneio de basquete dos Estados Unidos.

Também deve ser criado um plano de sócio torcedor, que mediante o pagamento de um valor garantirá desconto em vários estabelecimentos comerciais de Pato Branco.

Equipe dos projetos de base do Pato Basquete disputando um amistoso


Potência no Paraná

A iniciativa Pato Basquete tem um caráter mais de retomada do que de novidade. O basquete em Pato Branco é levado a sério por pelo menos três gerações de entusiastas, praticantes e profissionais, uma linhagem que remonta ao fim dos anos 1980.

Belmar Ramos Junior chegou ao sudoeste por conta do esporte. Em 1989 ele e atletas curitibanos disputaram os Jogos Abertos por Pato Branco, em um grupo que contava com apenas um atleta nativo. Foram vice-campeões.

Natural do interior de São Paulo, mas morando em Curitiba, Belmar foi convidado a se tornar técnico da equipe pato-branquense em 1991, por intermédio da extinta Fespato.

Os próximos anos seriam os mais promissores da história do basquete local. Apesar de nunca ter conquistado um campeonato a nível estadual, o time de Pato Branco ficou em segundo ou terceiro lugar em várias das competições que participou, tropeçando em equipes como Londrina e Ponta Grossa, mais estruturadas na época. “Foi nessa época que havia alguém sendo remunerado para jogar basquete (em Pato Branco), um tempo em que fomos a segunda ou terceira força do estado”, comenta o hoje fisiologista, sobre o time desarticulado com o fim da Fespato.

Equipe de basquete de Pato Branco, no início dos anos 90. Urso é o primeiro, em pé da esquerda para a direita. Belmar é o sétimo

Apesar disso, a modalidade perdurou, seja por meio da atuação da Abap - que já existe a cerca de 20 anos - e mais recentemente da Apab, seja de modo informal, pela prática dos remanescentes de gerações anteriores e novos entusiastas.

Urso, hoje supervisor do projeto, é outro veterano envolvido no Pato Basquete. Ele classifica a iniciativa como um sonho. “É uma felicidade ver que isso está tomando uma proporção muito grande. Cabe mais uma modalidade de nível em Pato Branco, o projeto está andando muito rápido, os empresários, o poder público e a comunidade estão abraçando”, diz.

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