Opinião

Brasil, sua história é a nossa história

Nosso querido e amado Brasil “festejou” ontem seus 519 anos, cinco séculos de uma aventura única, colonização, escravidão, matança horrenda dos nossos índios e, por fim, a abominável corrupção que se instalou em todas as esferas do Estado, esses são alguns quadros grotescos que povoam o imaginário do povo brasileiro, hoje por todos os cantos percebe-se um quase completo desencanto para com esta terra tão bonita, tão cheia de vida, que poderia já há muito tempo ter entrado nos eixos e ser um modelo para o restante do globo. Infelizmente, o exemplo brasileiro é quase sempre às avessas, deixando assim nossa juventude e pais de família sem muitas perspectivas de futuro. Os discursos vazios e eivados de utopias enganosas querem na maioria das vezes incutir algo que ninguém mais acredita, pois seus mensageiros estão desgastados, desmoralizados e equivocados.

Nosso querido e amado Brasil merece muito mais do que aquilo que estamos habituados a ver, ouvir e falar, ele é muito mais do que as mentiras, muito mais do que os incríveis malabarismos retóricos que não dizem nada, ele é muito maior do que o sofrimento que é imposto à população todos os dias, ele é muito mais do que ser pentacampeão do mundo ou octacampeão da fórmula 1. A atualidade nua e crua deste incrível continente chamado Brasil, nos diz que precisamos urgentemente retomar uma questão crucial que foi deixada de lado, ou seja, precisamos reaprender a pensar, embora achemos que pensamos, na verdade não pensamos muito ou na maioria das vezes não pensamos nada mesmo; delegamos essa função às máquinas, aos celulares, às tais redes sociais, essas que procuram a todo instante que fiquemos longe do outro, da sua e da nossa realidade.

Nosso querido e amado Brasil ao longo de cinco séculos, foi e continua sendo um paraíso para poucos, bagatela essa que lucra descaradamente usando e abusando do outro, da natureza, criando projetos totalmente desconectados com a realidade, sem respeito algum para com as diferenças locais. As prioridades da grande maioria não são as prioridades escolhidas pelo FMI, Banco Mundial ou a Organização Mundial do Comércio; o que é vantajoso para essas entidades tem sido um desastre para o Brasil. Não por acaso, essas políticas intervencionistas no Brasil, só tem gerado uma explosão urbana, violência, inflação, fome, pobreza em seus quatro cantos, uma desestrutura nos hábitos, 15 milhões de desempregados hoje, governantes burocratizados ao extremo sem qualquer contato com o mundo real. Todo o conjunto é afetado, embrutece-se a alma, aniquila-se a vida.

Nosso amado Brasil imagina querer ser grande e moderno, bem ao estilo europeu e americano, mas os que encabeçam essa ideia colocam o carro na frente dos bois, põe a economia como o carro chefe de tudo e esquecem que esse tudo está por sua vez ligado a tudo, que o todo é mais importante do que uma parte, “os modernos brasileiros versados em economia” esquecem que “a modernidade europeia foi imaginada, internamente e teve como base os recursos do resto do mundo. Foi graças ao ouro saqueado, à apropriação do trabalho escravo, ao desprezo aos valores da cultura não europeia, ao genocídio, às atrocidades dos ditadores, à depredação da natureza e à concentração da renda nos países atrasados que o exercício da liberdade, o fim das necessidades básicas e a diminuição das desigualdades foram construídos nos países modernos”.

Nosso amado Brasil não podemos ignorar, precisa urgentemente de um cuidado integral, desenvolver novas habilidades e não olhar apenas um aspecto (economia) ou o vislumbre do novo a todo instante, esse tem sido um erro brutal para a grande maioria. Ter um comportamento atencioso para as nossas necessidades internas e só depois olhar para fora do nosso quintal, cooperação, escuta dos vulneráveis, ter uma lógica bem diferente da atual, onde a racionalidade instrumental mostra-se impiedosa, desumana e selvagem, empurrando as minorias para o precipício. Reformular este amado país poderá levar ainda muito tempo, bem como expurgar aquelas experiências nocivas que maltratam milhões de pessoas; toda essa aventura pautada em pensamentos de uma camarilha aventureira deve ser prontamente deixada de lado, nosso Brasil não pode ser refém de quimeras.

Bioeticamente, nosso amado Brasil ainda é lamentavelmente refém de muitos mitos, dentre os quais o do bandeirante, o de ser o país do futuro, um paraíso, de liberdade, do jeitinho, do otimismo, dentre outros, são mitos descompassados e que transformaram os seres humanos em lobos dos próprios seres humanos. Bioeticamente, nosso amado Brasil precisa se livrar do flagelo da fome, ter uma sociedade mais educada, saúde para todos, habitação e saneamento básico para todos, ter o nosso meio ambiente integral totalmente protegido, bem como tecnologias verdadeiramente úteis e que não causem a obnubilação do pensamento. Bioeticamente, nosso amado Brasil precisa adquirir confiança, respeitar as diferenças e ver nelas possibilidades de crescimento, libertar-se de modismos efêmeros que lá fora deram em nada e aqui se teima em aceitá-los como verdade suprema. Que a covardia, o desinteresse, a pusilanimidade, as vilanias e desídias que mancham nosso amado Brasil, sejam todas sem exceção, extirpadas do nosso meio o mais rápido possível.


Rosel Antonio Beraldo, mora em Verê-PR, mestre em Bioética e especialista em Filosofia pela PUC-PR; Anor Sganzerla, de Curitiba-PR, é doutor e mestre em Filosofia, é professor titular de Bioética na PUCPR

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