Vanilla

Amizades via rádio

Com um rádio e uma antena é possível se comunicar com pessoas do mundo todo, e ainda ajudar a salvar vidas. É o radioamadorismo, uma técnica de comunicação que já aproximava pessoas muito antes da internet

Matéria publicada originalmente na revista Vanilla de agosto de 2017 (Fotos: Helmuth Kühl)

Sentado à mesa, em um cômodo que é meio garagem meio sala de estar, Marcos Comin manuseia um maço de cartões postais oriundos de várias cidades, algumas fora do Brasil, como Argentina, Rússia, Espanha, Guiné-Bissau, Alemanha e até da Estação Antártica Comandante Ferraz, o item mais curioso da coleção.

Apesar de estamparem fotos do endereço do remetente e os respectivos nomes de quem os enviaram, os cartões não são postais comuns. Eles possuem impressos um prefixo, algo como PY5-YT. Tecnicamente, isso é um nome.

Mais do que lembranças de lugares, cada cartão representa uma identidade. A título de comparação, a coleção de Comin equivale aos amigos que você tem no Facebook. 

A diferença é que firmar tais amizades exige mais do que um clique, e uma infraestrutura maior do que um smartphone conectado à internet. Muito antes da popularização da web, Marcos Comin já era um radioamador, ou seja, se comunicava com o mundo por meio das ondas de rádio.

Já faz uns dois anos que o servidor público municipal aposentado de 81 anos de idade pouco utiliza seu equipamento. Mas no auge de seu passatempo, foram várias as horas que passou procurando alguém para conversar.

Marcos Comin, e sua coleção de cartões


De modo geral, um radioamador precisa de um rádio de comunicação, montado costumeiramente em um cômodo específico, e de uma antena. Existem vários modelos de rádios, antenas e outros equipamentos que facilitam a comunicação, que também variam de acordo com as diferentes faixas de operação. 

Com tudo ligado e operando, Comin literalmente circula pelas ondas até encontrar alguém conversando. Ele conta que existem catálogos com prefixos de radioamadores pelo mundo, e que até é possível marcar um papo com alguém em específico. 

Mas de modo geral a brincadeira não funciona como um telefone, e as conversas começavam de modo aleatório. “Eu abro o rádio aqui e escuto alguém falando. Se ele quiser, me atende, se não ignora. Ele precisa estar ligado no rádio, na frequência específica”, conta.

A aleatoriedade do processo é justamente uma das coisas mais interessantes do radioamadorismo. Num belo dia, você poderia cruzar com alguém famoso, como Juan Carlos de Borbon, rei da Espanha até 2014, o navegador Amyr Klink ou Marcos Cesar Pontes, o primeiro astronauta brasileiro, entre vários outros nomes listados em sites sobre o assunto na internet.

Comin não teve a sorte de topar com alguma celebridade, mas fez alguns amigos desde o dia 6 de outubro de 1972, dia em que foi autorizado a operar na classe C, a categoria iniciante, digamos.

Comin e seu equipamento. O radioamador mostra o cartão que recebeu da Estação Artártica Comandante Ferraz


Autorização
Ter o equipamento não basta para ser um radioamador. É preciso uma autorização para tal, emitida e fiscalizada pela Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, em conjunto com a Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão (Labre). 

O espectro de frequências de comunicação é bastante amplo, sendo algumas restritas à utilização pelas forças armadas e aviação, por exemplo. Para obter a autorização, o candidato a radioamador precisa passar por exames de aptidão técnica, que o habilitam para as diferentes categorias.

A primeira é a C. De acordo com o site da Labre, para obter a classe C é necessário ser aprovado em testes de técnica e ética operacional e legislação de telecomunicações. Para a classe B, é necessário mais testes, como em eletrônica e eletricidade, transmissão e recepção e auditiva de sinais em código morse. O mesmo vale para a A, que exige possuir a autorização classe B por pelo menos um ano, e aprovação em testes de conhecimentos técnicos de eletrônica e eletricidade.

O verso do cartão que veio da Antártida, com dados sobre a conversa entre os radioamadores


De acordo com Celito Antonio Ponzoni, 58 anos de idade, outro radioamador experiente a residir em Pato Branco, a classe tem mais a ver com habilidades operacionais do que com permissões. “Eu tenho a B, com a qual posso operar em todas as frequências de radioamadorismo”, detalha. 

Também há o PX, que não exige testes para obter a licença de operação. Foi em um desses que Ponzoni iniciou na comunicação via rádio, por influência do sogro, Nilton Brum de Lima, proprietário de uma eletrônica e um dos pioneiros do radioamadorismo no município.

Ele conta que na segunda metade dos anos 1970, Pato Branco chegou a ter um grupo de PX. Eram cinco ou seis pessoas, que tinham o equipamento no carro. No aniversário de 27 anos de emancipação política do município, o coletivo realizou um conteste, para celebrar a data e divulgar a cidade. 

“No conteste você monta uma base de operação e faz contatos com o Brasil inteiro, durante 24 horas, dentro da área de abrangência do PX. E quem faz contato contigo passa os dados, manda um cartão postal de sua cidade, e recebe em troca um certificado. Eu passei madrugadas fazendo divulgação, na época consegui mais de 3 mil contatos”, lembra.

Celito Ponzoni conta que, durante contestes, passou madrugadas fazendo contatos 


Diferente de Comin, Ponzoni não possui mais os cartões que recebeu, pois foram perdidos ao longo do tempo. Como já dito, o tal cartão postal não é qualquer cartão, é uma espécie de certificado de identidade do radioamador.  

É normal que cada um personalize o seu e providencie várias cópias para despachar mundo afora, não apenas em contestes, mas ao fim de cada comunicado que julgar relevante, pois ele também serve como uma espécie de confirmação do contato.

Celito Ponzoni também já conversou mais pelo rádio, sobretudo entre os anos de 1978 e 1986, pico de sua atividade. “Eu falei com mais de 30 países pelo rádio”, calcula. Entre eles, porém, não está o Japão, apesar de Celito ter tentado por cerca de um mês. Uma das dificuldades estava na diferença de 12 horas de fuso horário. 

Na época, Celito morava no bairro Cristo Rei, região mais alta da cidade e tinha uma estação bem equipada, com um amplificador linear, que permite enviar o sinal mais longe e mais forte, e com uma antena com rotor direcional, que possibilita mudar sua direção sem precisar subir no telhado. Munido de um mapa, o radioamador apontava sua antena para onde seria o oriente. “Eu acordava por volta da meia-noite, e ficava até por volta das quatro da manhã procurando. Eu cheguei a escutá-los várias vezes. Eles me ouviram também”, lembra.

Vínculo
Em um meio de comunicação onde as interações são menos instantâneas, os vínculos parecem se formar de modo mais sólido. Celito Ponzoni conta ter feito várias amizades pelo rádio. “O radioamadorismo na época era muito interessante. As pessoas eram muito unidas; a partir do segundo contato você já se tornava um amigo. Eventualmente você mandava uma foto sua, e era retribuído. Eu recebi convites para visitar pessoas na Europa, que eu nunca fui”, conta. Mais tarde, Celito morou na Inglaterra a trabalho.  

Em Palmeira dos Índios, Alagoas, Celito fez uma de suas amizades mais duradouras. Foram cerca de dois anos conversando com Assis, um contato tão próximo que ambos trocavam correspondências. Das Alagoas vinha com certa frequência um pote de geleia de caju e equipamentos de rádio danificados, que Celito reparava em sua eletrônica e despachava de volta para o nordeste.

Ponzoni mostra seu equipamento. Home mais modesta, sua estação já teve antena com rotor direcional, que permitia mudar a direção sem precisar "subir no telhado"


De Cruzeiro, São Paulo, o radioamador também guarda algumas histórias. Certa vez, em uma viagem de carro com um tio até o Rio de Janeiro, Celito instalou um PX no veículo e contatou amigos da cidade que havia feito previamente. “Os caras fizeram festa lá, me deram um certificado de irmão de antena cruzeirense. Eram coisas boas, chegar em uma cidade e ser acolhido. Eu falei com cidades em todos os estados do Brasil”. 

Marcos Comin lembra de um amigo que fez na Alemanha. Pedro era brasileiro mas morava em Colônia, trabalhava na Deutsche Welle, e tinha parentes em Castro, Paraná. Em uma ocasião em que veio ao estado, o amigo visitou Pato Branco e hospedou-se na casa de Marcos. Ambos se comunicaram muito tempo pelo rádio e por cartas.

Tanto Celito quanto Marcos analisam que a prática do radioamadorismo já teve mais adeptos; eles próprios já possuem equipamentos bem mais modestos do que já chegaram a ter. A telefonia móvel, a internet e as redes sociais mudaram muito a dinâmica das comunicações, e ter equipamentos relativamente caros para conhecer pessoas e se comunicar com amigos parece não fazer o mesmo sentido.

A prática, porém, segue firme entre os maiores entusiastas, mantendo viva uma atividade que também ajuda a conectar o mundo. 

Catástrofes

Além de aproximar pessoas, também se pode dizer que o radioamadorismo pode ajudar a salvar vidas. Em várias situações de catástrofes e emergências, causadas geralmente por fenômenos naturais, os radioamadores foram responsáveis por intermediar a comunicação entre vítimas parentes e autoridades.

Situações como por exemplo a enchente que deixou a cidade de União da Vitória ilhada no ano de 1983, sem energia e sem comunicação via telefone. Celito Ponzoni participou de uma rede colaborativa de radioamadores que auxiliou o resgate transmitindo informações recebidas a partir da cidade. A articulação é feita em conjunto com a Defesa Civil.

Alguns equipamentos de radioamadorismo


Nos anos 1970, uma grande inundação causou muitos estragos e vítimas em Tubarão, Santa Catarina. Marcos Comin manteve contato com um radioamador da cidade, que repassava informações a respeito da situação no local. “Na ocasião eu fiz várias comunicações com Laranjeiras do Sul, com Cascavel, com Foz do Iguaçu. Eu era um ponto intermediário para informar as pessoas que tinham parentes e familiares por lá. Foi um caso específico, quando a cidade ficou sem comunicações e os radioamadores faziam o trabalho de repasse de informações”, relata.

Com licença?

Entrar em uma conversa via radioamadorismo não é o mesmo que tentar se enturmar em uma festa. Sem contato visual, é preciso ter uma certa ordem para que todos se entendam, e consigam perceber de quem é a vez de falar, quem está chegando no meio do assunto, quem está na vez, entre outras situações. 

Muito dessa organização é feita pelo chamado código internacional Q, uma coleção padronizada de três letras, todas iniciadas pela letra Q, com significados universais. 

Marcos Comin dá um exemplo: “Se há várias pessoas falando em uma conversa, eu pego o microfone e falo QRX. Isso é pedir uma licença para participar”. (Nota do editor: Algumas fontes atribuem QRX à “Aguarde”). Fazer um QSO é fazer um contato entre duas estações. QSL, afirmativo. Comin segue com os exemplos:

- “QRY, PY5 Yankee, Tango pede uma oportunidade”

PY5 – Yankee, Tango (PY5-YT) é o prefixo de Marcos Comin, a sua identidade. A seguir, uma virtual resposta, que seria dada por quem estivesse com a palavra.

- “OK, pode entrar PY5-Yankee, Tango. Bom dia”

E assim a conversa seguiria, mas não sobre qualquer assunto. Segundo Comin, religião, comércio e política não são temas permitidos. 

O código Q também auxilia na comunicação entre falantes de diferentes idiomas, assim como o alfabeto fonético internacional, que forma os prefixos. Como no exemplo acima, “Y” se pronuncia Yankee, e “T” se pronuncia Tango.   

O prefixo de Celito Ponzoni se pronuncia PY5-Charlie, Echo, e se escreve PY5-CE. “Em um contato com alguém no exterior eu passo o indicativo da estação: PY5-Charlie Echo. QRA, o meu nome, Celito”, explica o radioamador.

Se o interlocutor não entendesse o nome, por exemplo, Celito utiliza o código fonético internacional. Charlie (C), Echo (E), Lima (L), India (I), Tango (T), Oscar (O).

O alfabeto fonético internacional (Fonte: Gol Linhas Aéreas)

 

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