Entrevista

Ajuste fiscal é o caminho para a economia brasileira sair do buraco

O economista Marcelo Luiz Curado, doutor em Política Econômica pela Universidade Estadual de Campinas e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), em Curitiba, analisou, em entrevista ao Diário, o momento econômico atravessado pelo país. Para ele, para o Brasil voltar a crescer é preciso concluir o ajuste fiscal proposto pelo Ministério da Fazenda. Mas também diz que são necessárias medidas estruturantes, entre as quais a reforma na Previdência. Problema: governo tem dificuldades para aprovar medidas básicas do ajuste, que dirá intervenções mais significativas e impopulares. Por isso, ele diz que crise econômica está atrelada às dificuldades políticas enfrentadas pelo Palácio do Planalto.

Divulgação
Marcelo Curado, doutor em política econômica, é professor da UFPR , em Curitiba

Na metade do ano muitos economistas diziam que, para a economia melhorar, antes chegaria ao fundo do poço. Aí sim começaria curva de reação. Isso já aconteceu? Ou o país pode vir a ter números piores no quesito econômico antes de reagir?

Não chegamos ainda ao fundo do poço. Teríamos que imaginar que os problemas que estão gerando a crise econômica foram superados, e isso não aconteceu. Continuamos tendo uma situação bastante complicada do ponto de vista da questão fiscal, que ainda não foi solucionada. Não se tem ainda perspectiva de como o Brasil terá um equilíbrio nas suas contas públicas. E dependendo do que seja feito ainda ao longo deste ano e começo de 2016, a crise pode se agravar. Por exemplo: se o governo tomar medidas que piorem a situação, ou ficar claro para os agentes financeiros que não será feito um ajuste mais a médio e longo prazo. As expectativas para este são de queda de 3%. A expectativa para ano que vem é de -2%. Estamos num cenário muito ruim, que só mudará a hora que as causas dessa crise forem amenizadas.

Que medidas por parte do governo poderiam agravar a crise?

Se voltarmos a utilizar medidas chamadas de “nova matriz”, para tentar alavancar o crescimento com políticas fiscais, reduzir os juros na marra ou aumentando a concessão de exonerações.

O ex-presidente Lula vem defendendo exatamente medidas como essas, entre as quais maior oferta de crédito.

Se você fizer essa política agora sem resolver o ajuste fiscal é muito provável que a economia brasileira piore. Mas eu acho que não será isso que vai acontecer. O governo Dilma tem dado demonstrações que busca o ajuste, ainda que tenha dificuldades para alcançar.

O ajuste fiscal, então, tem de ser a prioridade para o país retomar o crescimento?

A prioridade é o ajuste fiscal. Mas precisa de apoio do congresso. O aumento da CPMF é uma medida que ninguém gosta. A carga tributária do Brasil é muito alta, mas não temos como superar essa situação sem algum tipo de aumento de imposto. O ajuste não vai virar crescimento. É para sair do buraco. A partir dele é possível melhorar a expectativa dos agentes financeiros e com isso retomar o investimento do setor privado.

O senhor comentou que o PIB deve ter uma queda de 3% este ano e 2% no próximo, que é uma retração bastante significativa. Essa crise tem algum paralelo na história do país? Com essa retração, quantos anos no tempo o Brasil pode voltar em termos econômicos e sociais?

Houve crise parecida no início dos anos 1980 e no início dos anos 1990, com Collor. São crises comparáveis. Na década de 1980 tinha uma agravante, que era a inflação. A persistência dessa crise começa a se tornar uma das maiores do Brasil. Passaremos a década de 2010 a 2020 quase sem crescimento econômico. Alguns economistas estão dizendo que só vamos recuperar o nível de renda per capita em 2025. Então nós vamos levar um bom tempo até conseguirmos voltar para o patamar de renda per capita de 2011.

Temos uma década perdida num país que tem o PIB per capita de 10 mil, 11 mil dólares, o equivalente a um terço comparado ao dos países desenvolvidos. Agora, com a alta do dólar, temos um pouco menos. Se você tem uma economia que não cresce e que já tem uma diferença de renda per capita que é enorme em relação aos países desenvolvidos, nosso atraso está aumentando.

 

Dá para comparar as crises que os Estados Unidos viveram em 2008 e que alguns países europeus ainda vivem com a brasileira?

A retração da economia americana, no auge da crise, foi maior que a brasileira. Mas uma economia madura como a americana ou a espanhola, mesmo que passem por períodos de baixo crescimento, têm um nível de renda muito maior do que o nosso. A qualidade de vida da população cai muito mais devagar. Claro ninguém quer passar por isso, todo mundo quer crescer, mas uma coisa é você passar por uma crise com uma renda per capita de 35 mil dólares outra é com renda per capita de 10 mil dólares.

A crise nos Estados Unidos foi mais complexa, porque pegou toda a estrutura financeira do sistema americano. Houve falência de grandes bancos. O quinto maior banco investidor do mundo quebrou. O Citibank teve que ser praticamente fechado. A crise brasileira tem um tom mais fiscal, embora tenhamos temas que são estruturais. Se não mudarmos o país, não vamos voltar a crescer.

Entre as questões estruturais, quais são os principais problemas?

Primeiro tem que fazer uma revisão previdenciária. Além disso, o Brasil tem de ser mais competitivo, produtivo, e se inserir no comércio internacional, fazer parte dos acordos oficiais que estão acontecendo. O Brasil está isolado, por uma questão mais geopolítica do que comercial que representou um atraso muito grande. Temos que melhorar o ambiente de negócios e a qualidade das restrições que regem o mercado brasileiro. Reduzir a burocracia.

Nos últimos anos, até o início da crise, houve uma nítida expansão da economia brasileira. O erro foi ter insistido muito tempo com a mesma fórmula sem buscar alternativas?

A crise começa a ser plantada a partir de 2012, quando a economia dá sinais de que não está crescendo. O governo, em vez de buscar uma fórmula diferente, insiste no modelo de crescimento via consumo. O problema é que se cresce consumo, mas não cresce oferta, isso vai acabar gerando de alguma forma uma precarização. Aí o governo, para segurar a inflação, começou a controlar preço de mercados, como na energia elétrica e combustíveis, o que também não deu certo. Uma coisa vai puxando a outra e se cria um cenário que é propício para a crise.

Essas medidas estruturantes também dependem do aspecto político, e no momento parece não haver liderança por parte do governo para promovê-las.

Sem dúvida. O governo não consegue nem estabelecer um imposto, quanto mais mexer, por exemplo, na Previdência. É uma mudança econômica que só pode ser feita com apoio político. Essa crise econômica só se soluciona se resolvermos a crise política, com o arranjo de um grupo que consiga tomar liderança desse processo.

Uma eventual saída da presidente Dilma Rousseff poderia ser benéfica ao país ou poderia prejudicar mais essa questão?

A questão não é especificamente a Dilma, mais sim a inexistência de um grupo que consiga tomar liderança política e colocar essa agenda. Se essa saída ativar um grupo que tome essa agenda, a situação poderia melhorar. Da mesma forma, não vejo incompatibilidade na permanência da presidenta Dilma, desde que ela consiga fazer com que a situação política melhore. Não é uma questão pessoal, não é uma questão da Dilma. Ela de fato tem problema de liderança, mas outros governos passaram por problemas similares e conseguiram uma recomposição de sua base. O próprio Lula, em 2005. No auge do mensalão houve problema de articulação bastante grave. A solução é chegar a um acordo em que uma nova linha seja tocada. Isso pode ser claramente mais fácil em 2018, nas eleições. Uma saída muito tumultuada, com movimentos sociais, com dúvidas, poderia gerar estresse e levar a uma piora.

O pensamento popular diz que, em crises, os pobres ficam ainda mais pobres, e os ricos, mais ricos. Esse pensamento pode ser considerado verdadeiro analisando o perfil do Brasil?

Sim. Os pobres não têm como se defender. Os ricos podem pegar seus recursos e aplicar. As taxas de juros são extremamente altas, aumentando sua riqueza. Enquanto os mais pobres têm uma redução do seu poder de compra. Isso vai tirando a base social do governo.

A inflação é um veneno para os trabalhadores, porque quem está passando por essa situação de desemprego e inflação são os mais pobres. Os mais ricos têm mecanismos de defesa, com aplicação no mercado financeiro. Os indicadores de concentração vão piorar. A questão do desemprego já tem um retrocesso importante.

Classificados