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A história da Revolta dos Posseiros por meio de livros

["Pesquisadora e presidente da Alap, Neri Bocchese"] (Foto: Paloma Stedile)

Na próxima segunda-feira (9), haverá o lançamento do livro “1957: Revolta dos Colonos – Lembranças de um Idealista”, escrito pelo pato-branquense Luiz Marini. Além desta, há outras publicações, que podem servir de embasamento para estudantes e demais interessados nesse fato, que ocorreu no Sudoeste do Paraná, em outubro de 1957.

Uma delas é o “Retorno 2”, que faz parte de uma série intitulada “Retorno”, de iniciativa de Sittilo Voltolini e Neri França Fornari Bocchese, então professores da unidade de Pato Branco do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná), que desenvolveram por meio da série um projeto denominado “Resgate histórico”.

A primeira edição da série relata sobre as origens de Pato Branco; a segunda, conta a realidade de Pato Branco na Revolta dos Posseiros de 1957; a terceira, descreve o ciclo da madeira em Pato Branco; e, por fim, a quarta edição mostra a história de Plácido Machado, primeiro prefeito de Pato Branco, e da primeira Administração Municipal.

De acordo com a professora aposentada e presidente da Alap (Academia de Letras e Artes de Pato Branco), Neri França Fornari Bocchese, para a produção da série houve uma soma de esforços. Ela ficou encarregada por pesquisar os fatos; e Voltolini escreveu as obras. Também houve a contribuição de outros profissionais, que auxiliaram com cartografias, digitação dos materiais, além dos designs das capas e impressões.

“A série de livros surgiu em 1993, porque sentimos a carência de publicações relacionadas a Pato Branco. O ‘Retorno 2’, por sua vez, publicamos em 2003. Tendo em vista que a revolta começou em Pato Branco e não havia nada sobre a Revolta dos Posseiros, sendo que o primeiro título de terra foi entregue em Pato Branco”, justificou.

Para a sua produção, segundo Neri, foram cerca de três anos de pesquisa. “Conversei com o senhor Porto Alegre (Jácomo Trento), um dos líderes da Revolta dos Posseiros, além de outras famílias envolvidas. Também com as esposas, porque elas também participaram. Sofriam a dor da revolta, porque os maridos iam trabalhar, mas não sabiam se iriam voltar”, relembrou.

Outro livro, segundo Neri, que retrata um pouco da história da Revolta dos Posseiros é “O povo de Deus, o povo do Cristo Rei”. “Escrito a pedido do então pároco Evandro de Mello, por volta de 2010, o livro também conta a história dos freis e padres que se envolveram nessa revolta. Eles viam o sofrimento do povo, e, com isso, tomaram partido do povo”, resumiu a pesquisadora, acrescentando que o livro foi publicado em 2015.

Além disso, existem outros livros acerca deste tema, escritos por vários autores. De acordo com o jornalista e estudioso da Revolta dos Posseiros, Ivo Pegoraro, “alguns deles são ‘Paraná, Sudoeste: Ocupação e Colonização’, de Ruy Cristovam Wachowicz; ‘1957: A Revolta dos Posseiros’, de Iria Zanoni Gomes’; ‘Análise histórica da posse e ocupação de terra no Sudoeste do Paraná’, de Hermógenes Lazier; ‘Os dias do demônio’, Roberto Gomes; ‘Entre jagunços e posseiros’, de Rubens da Silva Martins. Ainda, há trabalhos acadêmicos, que eventualmente são realizados”, enumerou.

Para Neri, produzir publicações dessa natureza são fundamentais. “Afinal, o que você não escreve, não guarda, se perde. E o povo que não tem o seu passado, não sabe a sua história, não pode projetar o futuro. Então é uma necessidade que cada cidade, que cada povo saiba de sua história, como tudo aconteceu”, afirmou.

Conheça um pouco sobre outras obras publicadas sobre a Revolta:

- “1957: a revolta dos posseiros”: publicada em 1986, pela Criar Edições, e escrita por Iria Zanoni Gomes, a obra relata como tudo começou, bem como os municípios que foram tomados dentro da Revolta dos Posseiros: Pato Branco, Francisco Beltrão, Barracão e Santo Antônio. “Culminava aí a luta dos colonos contra as companhias de terra, que haviam transformado a região numa terra de ninguém, dominada pela violência. Da convivência diária com a morte, estes homens retiraram forças para se organizar e resistir. No caso do Sudoeste do Paraná, a história passou uma rasteira nos poderosos. Os vencedores não foram os representantes do capital, mas os colonos”, apresenta o livro.

- “Rádio Celinauta: 50 anos”: publicado em 2004, pela Imprepel, e escrito por Cirene Vanzella Miotto, o livro-reportagem — realizado dentro do projeto experimental, apresentado como TCC do Curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na Fadep (Faculdade de Pato Branco) — conta a história da Rádio Celinauta, quando completou 50 anos. Em um de seus capítulos, inclusive relata a importância da Rádio Colmeia, na Revolta dos Posseiros de 1957.

- “Dizeres em confronto: a revolta dos posseiros de 1957 na imprensa paranaense”: publicada em 2008, pela Editora Unicentro, e escrita pela jornalista Éverly Pegoraro, a obra analisa como dois jornais construíram discursos jornalísticos sobre esse levante agrário, ocorrido no Sudoeste do Estado. Além disso, apresenta a atuação direta de duas emissoras de rádio, a favor da causa dos colonos e posseiros.

- “Sudoeste do Paraná: história de bravura, trabalho e fé”: publicado em 2004, pela Gráfica e Editora Posigraf, e escrito por Nivaldo Krüger, o livro aborda a civilização sudoestina, chamando a atenção dos jovens que desfrutam das facilidades de hoje, para as lutas e incertezas, para o sangue derramado pelos seus antepassados, que assim legaram esse imenso patrimônio. “Nesse trabalho, desejamos ressaltar o sentido desses acontecimentos, dessas lutas, para que as novas gerações saibam que as facilidades e o conforto de hoje custaram muito suor a salgar a terra, e muito sangue a tingi-la”, apresenta a publicação, que tem um capítulo sobre a Revolta dos Colonos, bem como a sua repercussão na imprensa.

Realidade do conteúdo nas escolas

O Diário do Sudoeste entrou em contato com os três NREs (Núcleos Regionais de Educação) do Sudoeste, assim como em algumas secretarias de educação da região. Eles afirmaram que a Revolta dos Posseiros é um tema que não é fixo na grade curricular.

Contudo, atividades pontuais são realizadas em salas de aula. Como é o caso das turmas 8ªC, 8ªD e 8ªE, do Colégio Estadual de Pato Branco (Premen). Nesta semana, a professora de história, Salete Sonáglio Moraes, apresentou para suas turmas, dentro do PTD (Plano de Trabalho Docente), o tema “Revolta dos Posseiros no Sudoeste do Paraná, em 1957”.

“Foi apresentado um vídeo documentário sobre o assunto, com depoimentos e relatos de todo o desenvolvimento do conflito. Os alunos não tinham conhecimento da gravidade e do envolvimento dos colonos (posseiros) com a revolta. Perceberam que os oprimidos venceram e aconteceu uma Reforma Agrária no Sudoeste. As terras foram demarcadas e documentadas para as famílias que ali estavam. Além disso, que a rádio foi o grande difusor para o chamamento e união dos posseiros”, avaliou Salete.

Para a professora Neri Bocchese, há uma preocupação quanto à implantação do assunto na grade curricular. “Já fui em várias escolas contar a Revolta dos Posseiros. Também no projeto ‘Livro ação’. Porém, o ideal é que fosse implantado na grade curricular. Porque esse movimento foi único. Foi a verdadeira reforma agrária, feita de forma correta, eficaz, com a Revolta dos Posseiros. Por isso que nossa região não tem grandes extensões de terra nas mãos de uma só pessoa. São proprietários com pequenas extensões de terra. Então a verdadeira Reforma Agrária no Brasil, aconteceu no Sudoeste do Paraná”.

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