Especial

A força das mulheres na Revolta dos Posseiros

["V\u00e1rias mulheres pegaram em armas e lutaram juntos com os homens durante a Revolta",""] (Foto: Acervo histórico)

Para acontecer, a Revolta dos Posseiros do Sudoeste do Paraná precisou da iniciativa e da coragem de muitos homens que pegaram em armas e lutaram por um mesmo ideal, que acabou por livrar os colonos da tirania das companhias colonizadoras e de seus jagunços sanguinários. Porém, na retaguarda desses heróis, assim como em todas as guerras e conflitos armados, havia mulheres fortes que fizeram a diferença.

No livro de Luiz Marini, “1957 – Revolta dos Colonos, Lembranças de um Idealista”, que será lançado nesta segunda-feira (9), data em que a Revolta completará 60 anos, há um capítulo dedicado exclusivamente a elas.

No livro Marini conta que a revolução sertaneja que resultou na Guerra do Contestado, entre os anos de 1912 e 1916, por exemplo, teve em Maria Rosa a heroína que guerreou sobre o cavalo com fuzil na mão, destemida e intrépida na luta por seu povo. Comandou mais de 6 mil homens no reduto de Caraguatá e mostrou sua força e coragem apesar de seus 16 anos. Foi chamada de a Joana D’Arc do sertão.

Assim como Maria Rosa, Anita Garibaldi expôs sua coragem ao lado de Giuseppe Garibaldi em diversas batalhas na Revolução Farroupilha e na Itália, mostrando que era valente e não se acovardava ante os inimigos.

Marini contou em sua obra que a Revolta dos Colonos não apresentou uma heroína destacada na mesma proporção, mas mostrou centenas de mulheres desconhecidas que, ao lado de seus familiares, enfrentaram os perigos de encarar jagunços armados e, ao mesmo tempo, cultivaram o campo, cuidaram dos animais, dos filhos e dos parentes.

Na época, Jácomo Trento (Porto Alegre) com sua esposa Reni e duas filhas

“Foram heroínas que não tiveram seus nomes encravados na história de uma causa da qual dependiam da vitória para ter um pedaço de terra para plantar sementes, criar vida e cultivar sonhos. Maria Daminélli Marini e sua irmã Amália Daminélli Marini, deixaram Pato Branco com suas famílias para fixar morada em Porto Santana, à beira do rio Iguaçu, quando compraram terras de herdeiros. Em pouco tempo chegaram os jagunços, transvestidos de corretores imobiliários, cobrando pelas terras que diziam ser propriedade legítima do estado do Paraná. Sofreram na carne o ditado dos jagunços: ‘ou pagam a terra, ou saem, ou morrem’. Como não conseguiram pagar uma segunda vez pela terra, e para evitar a morte, retornaram a Pato Branco”, contou.

No livro Marini conta ainda histórias de outras mulheres, como de dona Elvira de Lima, chamada de dona Vivi, que era casada com o vereador Pedro José da Silva, conhecido como Pedrinho Barbeiro, que foi assassinado em frente a sua residência em Verê. Após o fato, dona Vivi teve que viver o calvário de lidar com o medo dos jagunços e a solidão de não ter mais o marido ao seu lado e ainda ter de criar quatro filhos sozinha.

Dona Elvira de Lima (dona Vivi), esposa do vereador Pedro José da Silva (Pedrinho Barbeiro) e os quatro filhos

Outra mulher de fibra foi dona Reni Trento, esposa de Jácomo Trento, o Porto Alegre, que junto com sua mãe Olívia e a sogra Ana, que havia chegado de Sarandi (RS), rezavam para que Porto Alegre retornasse em casa são e salvo, já que foi um dos mentores da Revolta ao lado de Ivo Thomazoni. Com 25 anos e filhos pequenos, ficava vários dias sem dar notícias, envolvido com o movimento.

Conta o livro que da mesma forma sofreu dona Esthefânia, esposa de Thomazoni, que estava grávida quando ocorreram os principais episódios da revolta. “Os companheiros que seguiram Porto Alegre na caçada aos jagunços deixaram sua esposas esperando que retornassem vivos e sem ferimentos: dona Abgail, esposa do Carbonera; dona Rosa, esposa do Hilário Ribeiro; dona Catarina, esposa do Dorvalino Cantu; dona Olga, noiva do Elias Moraes. Não podemos esquecer as esposas dos comandantes e policiais que seguiram viagem ao Verê e Dois Vizinhos. Anônimas, sentiram na alma o que é sofrer por não saber o que poderia acontecer com seus esposos”, relatou Marini no livro.

Classificados