Nelson da Luz Junior
Ao palco, meu tributo

O som da sirene me acordou, era muito alto para ser uma bobagem. “O teatro está pegando fogo”, li em algum grupo de WhatsApp. Pulei da cama e vesti qualquer coisa. Não era só o ímpeto de jornalista, foi um salto de socorro, como se alguém importante estivesse precisando de ajuda. Junto veio aquele pingo de esperança e incredulidade. “Não deve ser tão sério, os bombeiros com certeza chegaram a tempo”.

A fumaça preta me deu um soco no estômago, no meio de uma madrugada fria. Demorei a notar que estava só de bermuda e camiseta, no meio da rua, e precisei de algum tempo para lembrar que estava ali para registrar, para exercer justamente a profissão que me fez deixar o palco de lado. Ao menos por um tempo, que já dura 10 anos.

Incrédulo, com o celular na mão, lembrei de um devaneio dos tempos de adolescência. Como seria bom morar ao lado do teatro, já que ali era minha segunda casa. Por um capricho do tempo é ao lado do teatro que moro hoje, um pequeno privilégio, que me deixa lembrar dos ensaios, dos encontros, dos espetáculos que assisti e protagonizei lá. O mesmo privilégio que, ironicamente, me fez ser um dos primeiros repórteres a testemunhar o Naura Rigon sucumbir ao fogo.

O teatro, enquanto arte, só não moldou mais meu caráter do que meus pais. No palco descobri desejos, vivi amores, aprendi a entender capítulos da vida, a respeitar a diversidade, o sofrimento alheio, o meu sofrimento. Firmei relações que me fizeram entender o valor do companheirismo, da colaboração, do limite e do espaço que me cabe no mundo, que não ocupo sozinho.

Aprendi que a arte é uma criação fantástica. Que personagens como Zé do Burro e Fernão Capelo Gaivota, que tive a satisfação de interpretar ali, são manifestações notáveis do intelecto humano.

A tristeza do dia de hoje foi pela memória, pelo simbolismo de um espaço que mobilizou gerações de entusiastas da cultura, e que formou outras tantas, até o último dia. Outro espaço virá, assim como outros artistas virão.

Na madrugada do dia 17 de abril de 2018, quando o repórter cumpriu o seu dever, voltou a ser artista. Me despedi do Teatro Municipal Naura Rigon, e chorei.

Na foto, cena do espetáculo "O Mistério das Três Horas", encenado pelo Grupo Atlaspatoart, muito provavelmente entre 2004 e 2006. Eu sou o guri vestido de preto.