Cristiane Sabadin Tomasi
Mais que um simples jantar

É engraçado como as melhores conversas começam do nada. Ontem, eu e meu filho estávamos sentados à mesa, durante o jantar. No fundo, a televisão ligada lembrava o lamentável assassinato de 50 pessoas em Orlando, nos EUA.

Escutei o noticiário de novo, e ao fim, comentei em voz alta: “é um absurdo que isto aconteça”. Meu filho logo perguntou: “Está falando do terrorista que matou todos na boate?”. Foi então que eu disse a ele que não. Estava me referindo ao crime de homofobia, do ódio que muitas pessoas têm dos homossexuais.

Vi que os olhos do meu filho, por um momento, realmente prestaram atenção as minhas palavras. E aí, deslanchou nossa conversa. Falei ao João Pedro que amar vai além do gênero, vai além da cor da pele, de religião, de posicionamento político. As pessoas se amam porque simplesmente se amam e pronto. Lembrei a ele que pode até achar estranho ver dois homens se beijando – ou mulheres -, mas deve acima de tudo, respeitá-los.

E no fundo, apesar da pouca idade (ele tem apenas 14 anos), João já vivenciou na escola colegas sendo chamados de “bicha”, “viado”, “menininha”, entre outros tipos de preconceito. Quando comentei com ele sobre isso, ele concordou, mas aí disse que não se pode influenciar. Que é errado. Opa, como assim meu filho? Quem te falou essa asneira de “influenciar”.

Em minha opinião, ninguém se torna homossexual, e por isso, não existem meio ambiente que possa fazer com que um homem goste de homem, e uma mulher se encante por outras mulheres. O que acontece, falei a meu filho, é que alguns se assumem, enfrentam os riscos e se tornam pessoas plenas, donas de suas próprias histórias. Já outros – talvez a grande maioria – se escondem, camuflam seus desejos. Há quem conviva com essa tristeza a vida inteira, e há os que transformam sua máscara em ódio.

Parece que o atirador da boate Pulse, é um desses enrustidos, que canalizam o amor em rancor, em revolta. Segundo o noticiário, sua ex-mulher afirmou que ele “pode ser homossexual”. Vizinhos também contaram que ele era frequentador da boate gay.

Falei sobre isso com meu filho, sobre como tudo está invertido neste mundo. Querer ser feliz com seu parceiro, seja ele homem ou mulher, não tem nada de errado – toda forma de amor vale a pena. É sim, totalmente doentio, que possa existir tanto ódio a ponto de se planejar um massacre. A que ponto chega a intolerância das pessoas?

Desde bem pequeno, o João já escuta falar sobre homossexualidade, drogas, violência e política dentro de casa. Como pais, a ideia era de que precisávamos manter uma relação de confiança e amizade, e que para isso, teríamos que abrir o jogo com ele. Para minha alegria, meu filho é uma pessoa boa. Ele tem um coração enorme e apesar do temperamento de adolescente, tem a cabeça no lugar.

Até onde eu sei – porque sim, as mães quase sempre são as últimas a saberem de algumas coisas – meu filho está se transformando num homem íntegro. Daqueles que têm seus gostos, suas escolhas, mas que respeitam as diferenças. Acredito que terá – e tenha- amigos gays, pobres, ricos, chatos, e até preconceituosos, e saberá que cada um tem direito a ser o que quiser.

Dessa história de crime de ódio, surgiu uma conversa bacana com meu filho adolescente. Foi bom ouvir seus pensamentos, e ver que sua personalidade, ainda em formação, está no caminho do bem. E a gente descobre que nem sempre um simples jantar, durante a correria da semana, é apenas um “simples jantar”.