Cristiane Sabadin Tomasi
Ela só tem três anos, e acha que pode tudo! Será que não pode mesmo?

Quem já não ouviu a seguinte frase motivadora na vida: “Vai lá e faz. Nada é impossível para quem acredita. Você pode fazer tudo que quiser, basta querer”. Pois é. Eu ouvia isso dos meus pais quando era adolescente e precisava melhorar a nota vermelha em matemática para não reprovar de ano. Mas confesso que gostava da dependência “mãe e filho”. Adorava receber tudo meio pronto. Coisa de folgada? Pode até ser, mas algo me dizia que aquele tempo bom tinha prazo para terminar e eu tinha que aproveitar.

Hoje, com quase 40 anos, e mãe de dois filhos, vivencio o contrário. Minha filha Maria Alice, de três anos – boa parte dos meus leitores já a conhece de outros artigos – acredita que pode fazer tudo que quiser. E eu não estou exagerando. Ela faz tudo sozinha há algum tempo. São coisas simples como ir ao banheiro, colocar o calçado (mesmo que troque os pés), comer sem ajuda, ligar a televisão e encontrar os programas favoritos na Netflix. Sim. Mas isso a maioria das crianças da geração dela faz. Normal. Eles nascem sabendo, é verdade, e nós, temos que acompanhar o ritmo.

 

Divulgação
Legenda

 

O que quero dizer com “fazer tudo que quiser” é que a Maria não consegue admitir, mesmo com três anos, que não é capaz de algumas coisas. Ela, ao contrário de mim, prefere não ter tudo na mão só para provar que é capaz. Quando ela decide que vai colocar água no seu copinho sozinha, mesmo durante a madrugada (praticamente dormindo), vai lá e faz. E claro, ela não consegue. Aí, na segunda tentativa, você vai ajudá-la. Não pense que ela leva numa boa, e te agradece. Com a Maria não é assim que funciona: mesmo não obtendo sucesso, continua a saga de tentar abrir o copinho e colocar água lá dentro. Mas é difícil. E ela não desiste.

Maria é teimosa, tem personalidade forte e não admite que alguém faça algo que ela acredita que pode fazer. Mas é claro que ela não consegue concluir todas as tarefas: tem apenas três anos e sim, é uma criança. Só que experimenta contar pra ela? Um dia, ela insistiu tanto em querer se trocar sozinha depois do banho, que eu desisti de tentar fazer a minha parte.

Deixei-a lá, sozinha na cama um tempo. Voltei depois acreditando que passando “frio” deveria estar esperando uma mãozinha. Que nada. Com a Maria a coisa não funciona assim. Voltei lá e ela, tentando colocar a roupa (do lado avesso) e me mandando sair do quarto. Pois é. Na última tentativa sem sucesso, ela chama você com aquela cara de quem diz: “Sim, eu deixo. Pode me ajudar”.

Quase chorei, foi uma mistura de raiva e impotência, incompetência como mulher e mãe. Porque você quer fazer, quer proteger... São seus filhos e são pequenos ainda, dependem de todos esses cuidados. E sim, na prática, não há mãe em sã consciência que queira deixar o filho pelado depois do banho, se virando sozinho. Afinal, já tem três anos de idade!

É. Essa é a Maria Alice.

E como mãe, vivo dilemas. Se por um lado ela me cansa com essa história de “eu sei”, “eu posso”, “faço sozinha”, por outro, me sinto lisonjeada. Pode ser que ela mude – afinal, é um ser em construção – mas talvez não precise motivar minha filha para superar as dificuldades do dia a dia.

Mas tenho medo. E se o mundo lá fora mostrar a Maria que não somos capazes de fazer tudo na vida? Espera aí. Quem foi que disse que não? Como assim?

No fundo, é frustrante e encantador. Algumas vezes briguei feio com ela. Disse que é apenas uma criança e que precisa dos adultos, e ponto! O contraponto disso tudo é o orgulho que sinto por ela ser assim. Ela não tem medo de não conseguir. Ela tenta. Estressa todo mundo em volta tentando. Mas vai até o limite. E com a pureza de toda criança, quando não consegue, simplesmente pede: “faz pra mim, mamãe”.

Às vezes me culpo por não deixar que arrisque mais, que aflore essa personalidade. Diferente dela, eu tenho horários a cumprir e pouca paciência, e numa ânsia de preferir fazer a se estressar esperando que ela faça, acabo tirando o que Maria tem de melhor: a autoestima.

Espero filha, que continue assim. Não ouça o que a mãe diz ou faz, motivada pelo cansaço e estresse do dia a dia. Seja você. Tome suas decisões. Tente ao até o final. Se não conseguir, volte atrás e peça ajuda, seja humilde (isso você ainda terá um longo tempo para entender). É assim que funciona na vida adulta – ou deveria. Só não vale ter êxito à custa do outros, subindo na vida com maldade. No mais, use sua teima para alçar voos bem altos. Vou estar na torcida, sempre!