Cristiane Sabadin Tomasi
A cultura do estupro

Quer entender sobre a cultura do estupro? Assista a um vídeo que circula pelas redes sociais e você verá do que eu estou falando. Aliás, não precisa ver o vídeo, apenas imagine os fatos. Tive acesso às imagens e é extremamente nojento e horripilante. Um homem que tem a coragem de estar na rua, com as calças arriadas e com o pênis na mão, se masturbando, pode ser considerado insano, doente mental, sem vergonha, ou todas as alternativas. Isso aconteceu em Pato Branco, na área central – chovia no momento. Fico pensando ao me deparar com a cena, quantas mulheres já não passaram por isso, e não se sentiram à mercê de um tarado que, como mostra muito bem nas imagens, quer chegar as vias de fato. A menina consegue ver o homem se aproximando e rapidamente entra no prédio. Garante assim, pelo menos, sua segurança física. Mas e se, por acaso, ela estivesse andando na rua, sozinha? Ou se não estivesse com a chave na mão ou se esquecesse da senha? Qual seria o desfecho? Nem gosto de pensar.

É lamentável. Um homem. Parece ter idade, pode até ser casado, ter filhos, e filhas. Não sei. Minha pergunta no início do texto quer dizer o seguinte a todos que acreditam que exageramos quando falamos que há sim uma cultura do estupro. Pode acontecer, mas dificilmente você verá uma mulher tomando uma atitude assim. Difícil ver uma mulher peladona na rua, manipulando as partes íntimas e tentando intimidar quem quer que seja. Infelizmente, o sexo feminino sofre com violações de todos os tipos, e muitos homens, doentes, claro (me perdoem meus amigos do sexo masculino), se acham no direito de fazer o que bem entenderem. Está de saia curta, é culpa dela. Anda sozinha na rua à noite, é culpa dela. Sensualiza na festa, é culpa dela. Bebeu na balada, pediu para ser estuprada. Frases assim ainda se ouvem ecoando por aí, e me perdoem, tudo isso só reforça essa cultura horrível do estupro.

Nunca passei por uma situação como desta menina do vídeo, mas me sinto tão violada quanto. E acho que todas as mulheres se sentem. Essa bandeira não é apenas nossa, das feministas (e nem me considero uma) ou feminazes, como queiram chamar. É de todas as pessoas de bem, de qualquer gênero, que só querem ter a liberdade de ir e vir em segurança. Em tempo: obrigada aos muitos homens que levantam também essa bandeira do respeito e dignidade pelos direitos da mulher. Vocês sim são homens com H. Todos somos o sexo forte, se nos unirmos contra tanta violência e desigualdade.

Taurina e Fitness? Difícil, mas a gente se esforça

Quem aí já chamou essa galera que faz dieta de “louca” e até gritou aos sete ventos que jamais trocaria um belo bolo de cenoura cheio de cobertura de chocolate acompanhado de uma torrada escorrendo queijo muçarela e presunto por uma panqueca com dois ovos inteiros com banana e muita canela no café da manhã?

Levanta a mão aí minha gente. E eu levanto as duas, sim! Eu já malhei muito esse povo que se dedica à chamada reeducação alimentar. Nunca imaginei que comeria um empadão feito à base de couve flor ou que pensasse duas vezes antes de furar a dieta durante a semana. Pois é. Eu mordi a língua, e ainda bem né, porque é proteína.

Brincadeiras à parte minha gente, desde que comecei a fazer musculação e me dedicar mais aos treinos (obrigada aos professores Dodi e Diego, que são a base para exercícios sem lesões e para que eu não desista no meio do caminho) percebi o quanto não adianta puxar ferro e se matar fazendo abdominais se você não fechar um pouco a boca para doces, massas, gorduras, e voltar mais os olhos para alimentos saudáveis.

Mudei um pouco os meus hábitos, contrariando os mais incrédulos – principalmente a própria família – e estou curtindo essa fase. De verdade mesmo. Desde que iniciei a reeducação, penso duas vezes antes de colocar a comida no prato. No café da manhã, faz tempo que não tem mais pão branco. Tem ovo, sim. Fruta, sim. E café, sim e sim e muito sim. E sem açúcar.

Prestes a completar 40 anos, descobri que não adianta fazer dieta de ocasião. Não serve querer emagrecer para entrar no vestido de casamento, de festa, ou para fechar aquela calça jeans dos sonhos. Muito menos para impressionar as “inimigas”. A reeducação alimentar deve fazer parte da vida, do pacote todo. Eu demorei a entender e então conseguir deixar os exageros para trás.

Lógico, não sou, nem serei neurótica, e nem tampouco a estraga prazeres da casa. Tem o dia do lixo. Tem e sempre terá. Eu amo rodízio de pizza e sempre vou amar. Adoro um doce bem doce, e sou a louca do queijo. Mas aprendi que a vida saudável pode ser bem saborosa. Basta dedicação na escolha dos ingredientes e um pouquinho de dedicação em frente às panelas.

Taurina e Fitness? Difícil, mas a gente se esforça!

Uma conversa de gente grande

Nessa semana, rolou nos grupos de Whatsapp um vídeo informativo sobre a Pedofilia. Na verdade, a produção é bastante infantil, e tinha que ser, afinal foi o projeto foi pensado para que crianças acima de dois anos já possam ver e o melhor, compreender. Depois de assistir sozinha, decidi convidar minha filha Maria Alice, hoje com quatro anos, para vermos juntas. Sentamos no sofá, como fazemos todas as manhãs, e eu pedi a ela que assistisse com a mamãe a um vídeo bem interessante. Ela sorriu e adorou o convite, porque ver desenhos faz parte da nossa rotina, além de brincar de escolinha, de mãe e filha e salão de beleza... E segue a lista. Bom, vamos aos fatos.

Dei play no vídeo e minha filha prontamente se interessou porque na tela tinha personagens e muitas cores. O enredo explica como nosso corpo é formado e como cada parte dele é fundamental para que tenhamos saúde física e mental. Depois, o vídeo apresenta as descobertas do corpo e como isso acontece naturalmente; cada criança a seu tempo, sem forçar, com tranquilidade. Mas como nem tudo são flores, o vídeo chega ao ponto que se propõe: alertar os pequenos sobre a Pedofilia. Na sequência, surge o mal, representado no vídeo como “qualquer pessoa, seja homem ou mulher”, que se aproxime do seu corpo, de suas partes íntimas.

Na história, fica claro quando a pessoa quer proteger e “toca” na criança sem nenhuma maldade. E o mais interessante, no meu ponto de vista, é que o desenho educativo mostra que os meninos e meninas também podem sentir quando é algo bom para elas ou não. A Maria não tirou os olhos do vídeo do começo ao fim. Depois, ainda conversei e disse que nunca, jamais, outra pessoa, que não seja o papai ou a mamãe, pode ter contato mais íntimo.

Ela me abraçou e parecia entender o recado de que estaremos sempre do seu lado, protegendo de tudo e de todos, e que sim, existe o mal mundo afora.

O que é realmente triste e alarmante são os índices: muitos pedófilos são os próprios protetores, pessoas que deveriam zelar pelo bem físico e psicológico das crianças e adolescentes. Por isso, vale alertar os pequenos sobre como tudo que os rodeia dentro e fora das residências. Eu indico para todas as mães uma conversa com os filhos sobre os perigos que os cercam. Mais do que repassar informações, você vai estreitar os laços de amor e confiança.

Por que os filhos amam a cama dos pais?

Eu ando pensando nisso nos últimos meses. Minha filha, que quase todos os meus leitores e amigos conhecem, tem quatro anos. É uma fofa, delícia cremosa de chocolate branco, sapeca e com aquele jeito teimoso de ser, consegue tudo que quer. Eu sei, meu marido sabe, e todos os especialistas no assunto sabem, que não é tão positivo assim que os filhos optem pela cama dos pais por muito tempo. Eles e nós, precisamos de intimidade. As crianças precisam compreender, tudo a seu tempo, que cada um tem suas necessidades e que ter sua cama é muito legal. A da Maria Alice é de princesa, mas ainda assim, ela prefere a nossa. E não é pelo tamanho. Pasmem. Ao invés dela se esticar no meio, sempre opta pelos cantos superiores, ou leia-se: em cima das nossas cabeças. Coisa de criança. Nós, os mais velhos, temos que nos encaixar no espaço.

Enfim. Compartilho aqui um pouco da minha experiência pessoal, pra dizer que sim: eu amo compartilhar a cama. Mas que sim: também acho que está na hora dela retornar ao ninho. Tem o lado bom do aconchego, do ficar pertinho, da cama aquecida no inverno, do pegar na mão de madrugada e de sentir o cheirinho gostoso que somente o nosso filho tem. Mas tem o lado ruim: de ficar longe do marido, de querer conversar e não poder, de ficar de bobeira... de simplesmente fazer coisas que criança ainda não entende.

Mas a vida é assim. Estamos na tentativa diária. Ela adormece, levamos para a caminha. Ela acorda, e poucos minutos depois volta correndo pra cama gigante. Uma amiga minha, a querida sexóloga Raquel Varaschin, disse que em entrevista pra lá de gostosa na Rádio Ativa FM, que a culpa disso tudo (se há culpados) é dos pais. Que criança é criança e vai querer sempre este mimo. Que é missão dos mais velhos mostrar que há tempo para cada coisa, e nesta batalha, os maiores vencedores serão todos. Felizes para sempre, próximos, mas nem tanto. Entendeu Maria Alice?

A sua família é única, agradeça

Reclamar da família é a coisa mais comum do mundo. Quase todo mundo gostaria que a mãe fosse menos chata, que o pai fosse mais legal, que o irmão fosse menos mala e que a conta bancária fosse bem mais gorda. Poucos, e se inclua nessa – porque também vou me incluir – acreditam que tudo é perfeito e que nada poderia ser diferente.

É natural do ser humano achar que a grama do vizinho é mais verde, e que todos os nossos problemas são maiores. E sim, tudo que acontece de bom e de ruim é dividido com os familiares mais próximos. Se dá certo, ótimo. A família pede uma pizza e comemora. Mas se dá errado, todas as amarguras são igualmente destiladas em quem a gente mais ama: a frustração do dia a dia sobra pra filho, marido, mãe, irmão. A vida é assim.

Mas sabe de uma coisa: não há nada melhor no mundo do que reclamar de barriga cheia. Quando você descobre que tem uma família normal, apesar de todos os dilemas do mundo, você precisa somente agradecer. E quando eu falo família normal, leia-se “família com saúde e unida”. Eu tenho essa família: que grita, chora, resmunga, abraça, briga de novo, chora mais, porém, não vive longe de jeito nenhum.

Na tarde fria desta quinta-feira, dia 1º de junho, conheci a casa de acolhimento para meninos em Pato Branco. Eles se mudaram há poucos dias, e hoje não moram mais no conhecido horto florestal. A casa é linda, um verdadeiro lar. Tem tudo que eles precisam para uma vida digna, com conforto e segurança. Os meninos estão ali porque foram afastados de suas famílias por diversas razões, e são vítimas de histórias de violência e negligência.

Eles estão amparados por uma equipe capacitada, que faz das tripas coração para minimizar o sofrimento. E pela carinha deles neste dia, posso garantir que o pessoal está conseguindo. Todos felizes, com um sorrisão de dar inveja. Uns queridos.

Mas eu confesso que voltei de lá pensando em como tudo poderia ser diferente. Eles, certamente, apesar de tudo que recebem ali, aposto, gostariam de estar com as suas famílias cheias de defeitos e problemas.

Eu sei, são casos extremos, e essa proteção é necessária, mas me entristeceu pensar que vivem longe dos irmãos, da mãe, do pai, dos parentes mais próximos. Sorte deles, e de todos que os protegem, que é possível formarem novas famílias. Não de sangue, mas de amor.

Eu só quero abraçar a minha família hoje. Do jeito que é. Sem tirar, nem pôr. É minha. Eu cuido, protejo, brigo por ela, morro se preciso for. Meus. De sangue, coração e alma.

Mãe, virei youtuber

Quase na casa dos "40" - em maio completo 39 anos - pode parecer que a gente já fez tudo na vida. Na verdade, parece mesmo. Depois de horas de trabalho, que começa cedo e segue até o fim do dia, o que eu mais quero é chegar em casa e curtir a família. Que nada. A Maria Alice está no auge dos quatro anos, a idade da loucura (só pode). Ela simplesmente não para um minuto e não me deixa relaxar. E apesar da canseira, tenho ainda que dar atenção ao filho mais velho, o João Pedro, adolescente de 14 anos. Ele vive naquela fase em que tudo é pra hoje. Me enche o saco para ver seus vídeos favoritos no youtube e fica indignado quando não acho a mínima graça nos memes sensacionais que encontra pela internet. Pois é. Vida de mãe é assim, e se não bastasse toda essa correria ainda me meti em mais uma: agora sou youtuber. Olha que chique. Coisa de adolescente! HAHAHA.

Mas este post é sério, gente. E decidi postar aqui porque fazia tempo que tinha deixado meus "amados" artigos de lado - deixei de escrever por preguiça ou falta de comprometimento (ou as duas coisas). No entanto, acho justo avisar que comecei essa nova fase virtual e que espero contar com o apoio de todos os meus amigos e admiradores, antes, apenas da escrita, também agora por meio dos vídeos. 

Vamos ao projeto. Trata-se do AP 101. Um canal no You Tube que criei junto com meu marido, o barbeiro Marcello Tomasi. Na verdade, sejamos justos, a ideia partiu dele. E eu aceitei o desafio. Mas você pode estar se perguntando: mas o que será que esses doidos querem com isso? Nem a gente sabe direito. No fundo, o canal será uma forma divertida de compartilhar nossa vida de casal pela Web. Vamos dividir experiências, assuntos e convidar outros casais legais, amigos e conhecidos, para fazer entrevistas bacanas. Como nem só de conteúdo vive a NET, convidamos o Dudu Tomasi, meu cunhado "craque" das mídias sociais para fazer as gravações e a edição do canal. O primeiro vídeo, de apresentação, já rolou. Os próximos já estão sendo pensados e aos poucos, vamos postando na rede. A princípio as postagens serão quinzenais, até porque, com filho, casa, trabalho fixo, não sobra muito tempo pra outras coisas. Mas já que começamos, vamos até o fim, ver o que vai dar essa nova aventura.

Não sei se vai dar certo, mas me passou agora, neste exato momento, enquanto escrevo pra vocês, que o canal já está fazendo seu papel: voltei a escrever meus artigos neste blog. Vai dizer que não é sensacional? Eu espero que gostem, que curtam nosso trabalho. E vamos combinar: o máximo que pode acontecer é passar um pouco de vergonha. Entretanto, como tudo tem os dois lados, e há 50% de chances, corremos o risco de ficarmos ricos e famosos neste mundo dos youtubers. hehehehe. Olha só João Pedro, o Davy Jones que se cuide! 

Ela só tem três anos, e acha que pode tudo! Será que não pode mesmo?

Quem já não ouviu a seguinte frase motivadora na vida: “Vai lá e faz. Nada é impossível para quem acredita. Você pode fazer tudo que quiser, basta querer”. Pois é. Eu ouvia isso dos meus pais quando era adolescente e precisava melhorar a nota vermelha em matemática para não reprovar de ano. Mas confesso que gostava da dependência “mãe e filho”. Adorava receber tudo meio pronto. Coisa de folgada? Pode até ser, mas algo me dizia que aquele tempo bom tinha prazo para terminar e eu tinha que aproveitar.

Hoje, com quase 40 anos, e mãe de dois filhos, vivencio o contrário. Minha filha Maria Alice, de três anos – boa parte dos meus leitores já a conhece de outros artigos – acredita que pode fazer tudo que quiser. E eu não estou exagerando. Ela faz tudo sozinha há algum tempo. São coisas simples como ir ao banheiro, colocar o calçado (mesmo que troque os pés), comer sem ajuda, ligar a televisão e encontrar os programas favoritos na Netflix. Sim. Mas isso a maioria das crianças da geração dela faz. Normal. Eles nascem sabendo, é verdade, e nós, temos que acompanhar o ritmo.

 

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O que quero dizer com “fazer tudo que quiser” é que a Maria não consegue admitir, mesmo com três anos, que não é capaz de algumas coisas. Ela, ao contrário de mim, prefere não ter tudo na mão só para provar que é capaz. Quando ela decide que vai colocar água no seu copinho sozinha, mesmo durante a madrugada (praticamente dormindo), vai lá e faz. E claro, ela não consegue. Aí, na segunda tentativa, você vai ajudá-la. Não pense que ela leva numa boa, e te agradece. Com a Maria não é assim que funciona: mesmo não obtendo sucesso, continua a saga de tentar abrir o copinho e colocar água lá dentro. Mas é difícil. E ela não desiste.

Maria é teimosa, tem personalidade forte e não admite que alguém faça algo que ela acredita que pode fazer. Mas é claro que ela não consegue concluir todas as tarefas: tem apenas três anos e sim, é uma criança. Só que experimenta contar pra ela? Um dia, ela insistiu tanto em querer se trocar sozinha depois do banho, que eu desisti de tentar fazer a minha parte.

Deixei-a lá, sozinha na cama um tempo. Voltei depois acreditando que passando “frio” deveria estar esperando uma mãozinha. Que nada. Com a Maria a coisa não funciona assim. Voltei lá e ela, tentando colocar a roupa (do lado avesso) e me mandando sair do quarto. Pois é. Na última tentativa sem sucesso, ela chama você com aquela cara de quem diz: “Sim, eu deixo. Pode me ajudar”.

Quase chorei, foi uma mistura de raiva e impotência, incompetência como mulher e mãe. Porque você quer fazer, quer proteger... São seus filhos e são pequenos ainda, dependem de todos esses cuidados. E sim, na prática, não há mãe em sã consciência que queira deixar o filho pelado depois do banho, se virando sozinho. Afinal, já tem três anos de idade!

É. Essa é a Maria Alice.

E como mãe, vivo dilemas. Se por um lado ela me cansa com essa história de “eu sei”, “eu posso”, “faço sozinha”, por outro, me sinto lisonjeada. Pode ser que ela mude – afinal, é um ser em construção – mas talvez não precise motivar minha filha para superar as dificuldades do dia a dia.

Mas tenho medo. E se o mundo lá fora mostrar a Maria que não somos capazes de fazer tudo na vida? Espera aí. Quem foi que disse que não? Como assim?

No fundo, é frustrante e encantador. Algumas vezes briguei feio com ela. Disse que é apenas uma criança e que precisa dos adultos, e ponto! O contraponto disso tudo é o orgulho que sinto por ela ser assim. Ela não tem medo de não conseguir. Ela tenta. Estressa todo mundo em volta tentando. Mas vai até o limite. E com a pureza de toda criança, quando não consegue, simplesmente pede: “faz pra mim, mamãe”.

Às vezes me culpo por não deixar que arrisque mais, que aflore essa personalidade. Diferente dela, eu tenho horários a cumprir e pouca paciência, e numa ânsia de preferir fazer a se estressar esperando que ela faça, acabo tirando o que Maria tem de melhor: a autoestima.

Espero filha, que continue assim. Não ouça o que a mãe diz ou faz, motivada pelo cansaço e estresse do dia a dia. Seja você. Tome suas decisões. Tente ao até o final. Se não conseguir, volte atrás e peça ajuda, seja humilde (isso você ainda terá um longo tempo para entender). É assim que funciona na vida adulta – ou deveria. Só não vale ter êxito à custa do outros, subindo na vida com maldade. No mais, use sua teima para alçar voos bem altos. Vou estar na torcida, sempre!

Filhos e realização

A Maria Alice tem apenas três anos e poucos meses. É pequena, e não somente na idade – perto de outras crianças é “piquitita”, como costumamos chamá-la. Mas tem vezes, e na grande maioria das vezes, que a menor integrante da família me dá lições de vida. Gente, como é bom ser mãe de uma menina tão doce, tão esperta, tão briguenta e teimosa, e tão única. E bem chata e individualista também!

 

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Ela se acha uma criança grande, porque alguns dias atrás a chamei de “meu bebê”. Disse que não era mais bebezinho e fez aquela cara como quem diz: “mas é uma boba mesmo”. Ontem mesmo, peguei-a no colo para fazer dormir, e ela repetiu: “não sou neném”. E realmente não é mais.

Mas quase que automaticamente – e ela faz isso diariamente – Maria se achega perto de mim e dá um jeito de enfiar a mão sob minha blusa. Procura o seio. Deixa a mãozinha ali, por alguns minutos. Aperta, acaricia e tira. É como se pudesse dizer: “é meu ainda, né mamãe?”.

E esses dias eu notei o quanto isso é tão bom. Ela está crescendo, tem autonomia para fazer quase tudo sozinha, já sabe que o bebezinho está ficando para trás, mas ainda assim, sente falta de algo que por anos esteve tão presente em sua vidinha: o peito da mamãe!

Eu me realizo nesses momentos, de verdade. O mundo fica mais leve, a vida ganha uma dose de ânimo. Aquela menininha birrenta, que transborda personalidade (e forte), um dia saberá que faz parte de muito do que sou hoje.

E se fosse apenas ela a responsável por tudo isso, mas não. Tenho ainda o João Pedro, que no alto de seus 14 anos me dá aulas de como ser uma pessoa mais “de boa”. É difícil ter tempo ruim com ele. Para tirá-lo do sério, nesta fase, basta esconder o controle do play. Pronto. Ou, quando muito, mandar a lavar a louça.

Ele se martiriza, diz que somente ele faz isso lá em casa, que dois pratos e uma panela é sacanagem e segue a lamúria. De resto, o João é sossegado. Não precisa de muito para ser feliz – só não pode faltar os jogos e a comida (e farta). Mas assim, desse jeito, quase todo adolescente é igual. Aposto!

Espero, sinceramente, que a vida não mude a personalidade deles. Gosto assim, exatamente do jeito que são. Cada um a sua maneira. Espero que saibam moldá-las e tirar o melhor de seu temperamento, mas que nunca, jamais, se transformem em outras pessoas.

A vida ensina que não adianta querer mudar pelos outros, é preciso se tornar melhor por você. Aí sim vale a pena. Prefiro pessoas difíceis de lidar, mas que sejam autênticas, que tenham suas convicções e não se guiem pela de uma grande maioria, que dita regras e mais regras, e nem ao menos sabe viver bem dentro de quatro paredes.

Que meu João e minha Maria – opa, não são meus – vivam a sua intensamente. Que realizem sonhos, aprendam com as quedas e levantem sempre. A vida não é fácil, mas pode, e é simples. Basta viver. Se eu crio filhos para o mundo? Sim. Mas para o mundo que eles escolherem ter a sua volta. Hoje, para a Maria, basta que tenha a Elsa por perto. Já o João, ainda está na dúvida: play 4 ou PC Gamer?

Pois é.

Enquanto isso vou experimentando essa vida materna, com altos e baixos, e grandes descobertas.

Mais que um simples jantar

É engraçado como as melhores conversas começam do nada. Ontem, eu e meu filho estávamos sentados à mesa, durante o jantar. No fundo, a televisão ligada lembrava o lamentável assassinato de 50 pessoas em Orlando, nos EUA.

Escutei o noticiário de novo, e ao fim, comentei em voz alta: “é um absurdo que isto aconteça”. Meu filho logo perguntou: “Está falando do terrorista que matou todos na boate?”. Foi então que eu disse a ele que não. Estava me referindo ao crime de homofobia, do ódio que muitas pessoas têm dos homossexuais.

Vi que os olhos do meu filho, por um momento, realmente prestaram atenção as minhas palavras. E aí, deslanchou nossa conversa. Falei ao João Pedro que amar vai além do gênero, vai além da cor da pele, de religião, de posicionamento político. As pessoas se amam porque simplesmente se amam e pronto. Lembrei a ele que pode até achar estranho ver dois homens se beijando – ou mulheres -, mas deve acima de tudo, respeitá-los.

E no fundo, apesar da pouca idade (ele tem apenas 14 anos), João já vivenciou na escola colegas sendo chamados de “bicha”, “viado”, “menininha”, entre outros tipos de preconceito. Quando comentei com ele sobre isso, ele concordou, mas aí disse que não se pode influenciar. Que é errado. Opa, como assim meu filho? Quem te falou essa asneira de “influenciar”.

Em minha opinião, ninguém se torna homossexual, e por isso, não existem meio ambiente que possa fazer com que um homem goste de homem, e uma mulher se encante por outras mulheres. O que acontece, falei a meu filho, é que alguns se assumem, enfrentam os riscos e se tornam pessoas plenas, donas de suas próprias histórias. Já outros – talvez a grande maioria – se escondem, camuflam seus desejos. Há quem conviva com essa tristeza a vida inteira, e há os que transformam sua máscara em ódio.

Parece que o atirador da boate Pulse, é um desses enrustidos, que canalizam o amor em rancor, em revolta. Segundo o noticiário, sua ex-mulher afirmou que ele “pode ser homossexual”. Vizinhos também contaram que ele era frequentador da boate gay.

Falei sobre isso com meu filho, sobre como tudo está invertido neste mundo. Querer ser feliz com seu parceiro, seja ele homem ou mulher, não tem nada de errado – toda forma de amor vale a pena. É sim, totalmente doentio, que possa existir tanto ódio a ponto de se planejar um massacre. A que ponto chega a intolerância das pessoas?

Desde bem pequeno, o João já escuta falar sobre homossexualidade, drogas, violência e política dentro de casa. Como pais, a ideia era de que precisávamos manter uma relação de confiança e amizade, e que para isso, teríamos que abrir o jogo com ele. Para minha alegria, meu filho é uma pessoa boa. Ele tem um coração enorme e apesar do temperamento de adolescente, tem a cabeça no lugar.

Até onde eu sei – porque sim, as mães quase sempre são as últimas a saberem de algumas coisas – meu filho está se transformando num homem íntegro. Daqueles que têm seus gostos, suas escolhas, mas que respeitam as diferenças. Acredito que terá – e tenha- amigos gays, pobres, ricos, chatos, e até preconceituosos, e saberá que cada um tem direito a ser o que quiser.

Dessa história de crime de ódio, surgiu uma conversa bacana com meu filho adolescente. Foi bom ouvir seus pensamentos, e ver que sua personalidade, ainda em formação, está no caminho do bem. E a gente descobre que nem sempre um simples jantar, durante a correria da semana, é apenas um “simples jantar”.

 

A princesa e a médica

Uma noite dessas saímos para jantar. E quando há crianças na sala, as conversas ganham outro rumo. Entre uma brincadeira e outra, alguém perguntou para uma menina linda, coisa mais fofa do mundo, o que queria ser quando crescesse? Qual profissão queria seguir. Sem pensar muito, a gracinha disse: “Quero ser médica de crianças”. Uma futura pediatra está em formação.

A pergunta, claro, foi estendida para minha filha Maria Alice. No auge dos seus três anos, a resposta foi certeira: “Quero ser a Ana, a Elsa”. Pois é. Criança é sincera, e não se importa com o comportamento dos outros a seu redor. Enquanto uma decidiu ser médica, a outra quer ser princesa. E nenhuma delas olhou torto para o desejo da outra. Simplesmente disseram o que sentiam, e pronto. Coisa mais linda de ver.

Como conheço minha filha, e sei exatamente como é sua personalidade, até imagino a princesa que ela quer se tornar. Mandona como si só, Maria Alice vai ser a princesa que quer tudo do jeito dela e que adoraria que todos dissessem sempre sim. Dependendo do dia, e do estado de espírito, ouvir um não seria como “perder o chão do castelo”. Ela é exagerada em tudo, na alegria e na tristeza, e sim, daria uma princesa daquelas bem egocêntricas.

Mas a brincadeira das crianças naquele jantar me fez refletir sobre o quanto perdemos a segurança da infância. Quando adultos, a gente não pode falar o que vem na telha, dizer o que sente, contar o que gosta, enfim, demonstrar sentimentos e vontades virou motivo de reprovação e de conclusões infundadas.

Você escolhe ter um tipo de cabelo, é reprovado pelos olhares na rua. Escolhe se vestir com calça rasgada, é visto como desleixado. Decide que não come mais carne vermelha, pronto, vira alvo de gente que acha um absurdo. Gosta de namorar, é saidinha. Gosta de ficar sozinha, é mal amada. Cumprimenta na rua a todos que vê, já vira a simpática exagerada. Prefere dar aquele “oi” discreto, está mais para a antipática da cidade. Se se preocupa com os problemas sociais, é ativista de merda. Vai muito à academia, é fútil. Não vai, é sedentário e não tem amor próprio. E a lista de precipitações não tem fim.

A sociedade está seguindo um caminho perigoso. Estamos deixando nossos gostos e vontades de lado, escondidos e bem camuflados, porque uma galera lá fora está a postos para nos julgar. E eles falam aos quatro ventos, e escrevem no facebook, e divulgam pelo whatsapp. Dizem o que sabem, e mais um tanto do que nem imaginam. São os típicos donos da verdade. E pior, da sua verdade.

Por isso, quando a Maria disse lá no jantar que queria ser “princesa”, fiquei emocionada. Ser criança é isso mesmo: é acreditar que você será o que você quiser. Ela nem deve saber direito o que é ser médica, e por isso, não ligou para a opinião de sua amiga. Foi como se dissesse: “Se ela sonha com a medicina, que bacana, mas eu prefiro ser a Ana ou a Elsa”. E sua amiga também não deu a mínima bola. As duas, tão parecidas e tão diferentes, continuaram brincando.

Fico a imaginar como o mundo seria bem melhor se todos olhassem mais para o seu próprio mundo e deixassem as outras viverem do jeito que escolheram e que acreditam ser o melhor. Eu tenho minhas opiniões, meu estilo de levar a vida. Mas costumo ao máximo me policiar para respeitar quem pensa diferente de mim.

Quero passar esse legado aos meus filhos. Eles podem ser o que desejarem, viver da maneira que quiserem, desde que respeitem todos que escolheram ser de outra forma. E se a Maria persistir no sonho de ser princesa vou ser a rainha dela. E sinceramente, lá em casa pelo menos, temos o nosso reino. Cada um com seu papel. E a gente adora! O João Pedro, nem sabe, mas já ganhou o título de “princemo”, que significa príncipe no vocabulário da Maria.