Blog inDICAção
Ele está de volta

Vivemos um momento político seríssimo, muito conturbado e imprevisível. Nessas horas, o melhor a fazer é olhar para trás. Analisar o passado é uma maneira de interpretar e entender o presente e evitar que coisas ruins aconteçam no futuro.

 

Eu já tive a oportunidade de visitar a Alemanha, estive em Berlim e Munique. Lá constatei incontáveis memoriais, museus e obras de arte relacionadas à Segunda Guerra Mundial. Questionado sobre o porquê de tanta ênfase nesta fase da história, um guia turístico local me respondeu: “Para que isso não saia da memória das pessoas, e que nunca aconteça de novo algo tão terrível.”.

Venho indicar hoje um filme que foi adaptado de um livro sobre o qual já até escrevi a respeito aqui para vocês. Ele Está de Volta (título original: Er Ist Wieder Da) foi lançado em 2015. É um filme dirigido por David Wnendt e escrito pelo mesmo, em parceria com  Mizzi Meyer, Marco Kreuzpaintner e Johannes Boss, com base no livro homônimo de Timur Vermes. O longa mostra a volta de Adolf Hitler, que aparece num terreno baldio de Berlim em pleno ano de 2014.

 

Apesar de pouco fiel ao livro, o roteiro é muito bem escrito e consegue ser convincente. Com um humor muito ácido, a história é contada com muita fluidez. O fato de os personagens não terem muita profundidade não incomoda, já que o protagonista é um personagem tão carismático e intrigante.

A direção é eficiente e em harmonia com a premissa da trama. David Wnendt apresenta uma direção dinâmica e moderna, com cortes rápidos, muitas cores e um quê de videoclipe que dá um charme a mais.

É um filme divertidíssimo, mas que também coloca o espectador para pensar. É muito fácil que um povo dominado pela apatia, crises internacionais, individualismo e insegurança se deixe levar por discursos mais enérgicos e populistas. Não estamos imunes a sermos surpreendidos por ditadores sádicos e obcecados.

 

De uma maneira divertida, Ele Está de Volta nos faz pensar, não só na história do mundo, mas na nossa própria história.

E fica claro que quem realmente pode mudar os rumos somos nós mesmos e nossas escolhas.

Para o bem e para o mal.

Filme recomendadíssimo.

Não deixe de assistir.

O que Mumford & Sons me ensinou que preciso repassar a vocês

Celebrando um ano de Almanaque +

 

Todo mundo gosta de música, ou ao menos até hoje não ouvi ninguém dizer que não gosta. Porém, para alguns, ela tem um peso maior do que entreter. Minhas memórias sensoriais iniciam todas a partir de uma canção, ou seja, quando ouço determinados acordes, além das lembranças, sinto cheiro, gosto, consigo tocar no meu passado.

Não posso negar que sou uma pessoa sensível. Quando vejo algo especial acontecendo diante dos meus olhos, sempre tiro uma lição dali. Por isso, na minha vida, há shows que são verdadeiros divisores de água. O primeiro deles aconteceu há uns 30 anos, quando o Trem da Alegria entrou no estádio Fonte Luminosa, na minha cidade natal, Araraquara, e entoou que “você vai ser muito feliz, é só na vida acreditar”. Eu sei que parece besteira, mas o hino escrito por Michael Sullivan e Paulo Massadas fez uma geração de pessoas positivas, disposta a buscar, com coragem, a dona felicidade.

E foi com essa disposição que, aos 13 anos, juntei o dinheiro do lanche por três meses e fui escondida para São Paulo. Cheguei pela primeira vez sozinha – na verdade, desacompanhada de maiores, porque estava com duas amigas -- na pauliceia desvairada pelo terminal Tietê, peguei um metrô até o Anhangabaú e me dirigi até à Woodstock, o reduto do rock paulistano dos anos de 1980 e 1990 (se você não conhece o local, ou conhece e tem saudade, há um documentário disponível na Netflix bem legal). Depois de uma fila imensa, saí com um ingresso e um aviso de que a censura do show era 16 anos. Na mesma noite, estava eu na frete do Olímpia, brigando com um segurança para conseguir entrar. E entrei.

Enquanto as meninas da minha idade ficavam trocando pôsteres do Brad Pitt e Johnny Depp, eu estava de frente ao gigante e desengonçado Joey Ramone, entoando a plenos pulmões o que foi meu mantra por mais uns 20 anos: hey, ho, let´s go. Foi por causa deste show que todos os dias, querendo ou não, pulei da cama e segui em frente. “Sempre enfrente”. Não deixei que nenhuma oportunidade passasse, nem boa, nem ruim. O mundo não acontecia lá fora enquanto eu estava aqui dentro, eu sempre estive no olho do furacão, em busca de novas experiências, de novas sensações, novos aprendizados, novas culturas. Morei no Brasil inteiro, tive filhos, trabalhei como uma louca. Acredito que, para uma pessoa ser completa, ela precisa de experiências. “Hey, ho, let´s go.”

Foi então que, mesmo com tudo certo, um bom emprego, solidez, entrei, há pouco menos de dois anos, no Allianz Park ver tocar Sir Paul McCartney, de onde saí arrasada. Se um senhor, um dos mais famosos do mundo há quase 50 anos, ainda se propunha a subir em um palco e dar o melhor de si, então o que estava eu fazendo da minha vida? Eu, que não sou nada, começava a empurrar com a barriga desde o meu trabalho até a minha vida pessoal. O que eu vou ser se não der o melhor de mim? O que tenho a oferecer realmente para as pessoas? Eu faço diferença no mundo? No mundo de quem quero ser importante?

Foi na saída daquele show que repensei toda a minha existência, principalmente o que vinha fazendo nos últimos anos. Aquilo não podia continuar assim.

Infelizmente, não temos o poder de mudar a realidade na mesma velocidade em que tomamos nossas decisões. Há um delay entre o que queremos fazer e isso ser feito, e ele é importante para que se amadureçam os planos. Mas o que posso dizer é que as coisas foram se assentando e as minhas agonias diminuindo. Entre as modificações, deixei de ser editora dos noticiários e passei a ser editora de cadernos. Há um ano, surgiu este Almanaque +, que me possibilitou ter uma voz mais ativa dentro da minha atividade profissional. Aqui, conto para vocês toda semana histórias incríveis de trabalhos, de pessoas, indico filmes, livros, músicas, testo receitas para repassá-las, pesquiso sobre assuntos que me familiarizo, como o universo da cultura pop, outros nem tanto, como carros. Busco a modificação do comportamento para a evolução da humanidade, como a igualdade social e o fim do preconceito. Quando descubro coisas legais, meu primeiro pensamento é repassar aos leitores. Posso dizer que, hoje, tento o meu melhor, mesmo que ele não seja gigante.

Desde o início deste ano, quando saiu a lineup do Lollapalooza, festival internacional que chega em sua quinta edição no Brasil, identifiquei algumas bandas que gosto bastante e fiquei tentada a comparecer, mesmo com o preço do ingresso não sendo muito acessível aos assalariados como eu. Entre elas, Mumford & Sons, que faz um som folk-indie-pop muito legal. Quem não conhece, deveria procurar. Contudo, nenhuma banda era icônica para mim e eu fui adiando a decisão. Há duas semanas decidi ir e há uma semana estava lá, nas colinas de Interlagos, em meio a um mar de gente.

Cheguei tarde, umas 17h, assisti Of Monster and Men, depois Tame Impala, que fez uma belíssima apresentação. Mas foi durante o show de Mumford & Sons que tirei a minha quarta lição divisora de águas: eu aprendi sobre reconhecimento.

A banda, relativamente nova –está em seu terceiro álbum --, sempre foi conhecida por fazer apresentações impecáveis na abertura de festivais. Aqui, ela encerrou um dos palcos, o que significa que foi a principal atração. Todo o Lollapalooza parou para cantar junto, pular, bater palmas. Era muita gente, e a interação fabulosa. Surpreendidos, os integrantes da banda mal podiam acreditar no que viam: era a primeira vez deles no Brasil, e aquela mágica estava acontecendo. A mágica do reconhecimento de um bom trabalho. E eles agradeceram.

Enquanto um oceano de intolerância tomava, e continua tomando, o Brasil, deveras o mundo, um lago cristalino de gratidão do público para com a banda, da banda para com o público. Uma brisa fresca que diz que vale a pena fazer o que se acha certo, que você pode ser feliz, que é preciso viver o máximo de experiências, mas sempre com o coração aberto. E, a quem reconhece a grandeza de todos que fazem com sinceridade, agradecer.

Por isso, leitor, se você chegou até aqui, hoje quero agradecer. A todos que leram qualquer das minhas palavras. A todos os e-mails recebidos, com comentários que iam de encontro ou desencontro à minha visão. A todos que me acordaram no sábado de manhã com um whatsapp comentando alguma matéria. A todos que indicaram filmes, startups, livros, interagiram de alguma forma. A todos que destacaram o Almanaque+ do restante do jornal para ler no banheiro. A todos que me adicionaram no Facebook para conversar comigo de maneira mais pessoal. A todos que compartilharam alguma coisa que escrevi. Agradecer a oportunidade e a liberdade de poder fazer meu trabalho sem amarras, sem censura. Obrigada. Reconheço que sem leitores não há voz. Obrigada. =)

CINEMA PÉ NO CHÃO
Uma das coisas que mais me encanta no cinema é a diversidade. Em especial, a diversidade de perspectivas. Um mesmo tema pode ser abordado de inúmeras maneiras diferentes, uma mais interessante que a outra. Diretores como Quentin Tarantino, por exemplo, são experts nisso. Pegam um tema batido, como polícia e ladrão ou kung fu, e contam histórias novas, diferentes e interessantes, sem deixar de prestar homenagem aos grandes clássicos de cada gênero.

Outra coisa que eu amo no cinema é a originalidade, um item cada vez mais em falta no cinema atual, onde remakes e adaptações de quadrinhos e sagas de livros pipocam para todo o lado, mas poucos roteiros originais aparecem.

E o filme sobre o qual vamos comentar hoje tem esses dois aspectos, apesar de ter sido inspirado num livro. Estamos falando do filme ganhador do Oscar em 2008, Onde os Fracos Não Tem Vez (título original: No Country for Old Men). Lançado em 2007, escrito e dirigido pelos geniais irmão Ethan e Joel Coen e baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy, o longa ganhou quatro Oscar em 2008: Melhor filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante.

O filme conta a história de dois personagens antagônicos: Lleweliyn Moss, um homem simples, sem grandes talentos e Anton Chigurh, um assassino frio, perfeccionista e implacável. Llewelyn encontra no deserto do Texas, próximo a fronteira dos Estados Unidos com o México o resultado mal sucedido de uma transação de drogas, vários homens baleados, mortos, um carregamento de heroína e uma mala cheia de dinheiro. Ele decide ficar com o dinheiro e acaba sendo perseguido por Anton, que é contratado para recuperar esse dinheiro. No meio disso tudo, o velho e experiente xerife do condado começa a investigar a cena do crime e o rastro deixado por Anton.

Não preciso nem dizer que o roteiro é  estupendo, né? Estamos falando aqui dos irmãos Coen, autores de clássicos impagáveis como O Grande Lebowsky, Fargo e E Aí, Meu Irmão, Cadê Você. Onde Os Fracos Não Tem Vez não fica atrás dos outros clássicos dos autores, pelo contrário, dá até para dizer que é um roteiro superior. A história é contada com muita eficiência e fluidez contando com poucos diálogos. Os personagens tem profundidade sem precisar se expressar muito verbalmente. É um roteiro brilhante!

A direção aqui é, também, um largo passo a frente, dado pelos Coen em sua carreira. O cuidado com a fotografia e com os ângulos está mais apurada, com muitos contrastes e dinamismo. O filme é propositalmente arrastado e angustiante. O calor intenso e árido do deserto texano parece transpor a tela e chegar até o espectador. O ritmo do filme é muito preciso e marcante. Sem dúvida, até hoje, é o melhor trabalho dos irmãos Coen como diretores.

As atuações ficam a altura do trabalho de altíssima qualidade dos diretores. Quem se destaca é o espanhol Javier Bardem, que venceu merecidamente o Oscar por sua atuação, interpretando o frio e hipnótico assassino Anton Chigurh. Tommy Lee Jones, muito à vontade, interpreta com muita classe o cansado e experiente xerife Ed Tom Bell. Josh Brolin surpreende com uma interpretação marcante, no papel do destemido Llewelyn. E outra surpresa agradabilíssima é a atuação do talentoso Woody Harrelson, como o charmoso e canastrão mercenário Carson Wells.

Onde os Fracos Não Tem Vez deve ser considerado um clássico do western moderno. Os irmãos Coen reinventaram o gênero, trazendo mais sangue e violência, trazendo mais dramaticidade, trazendo uma nova estética e uma nova maneira de causar suspense e expectativa. Uma das características mais marcantes é o fato de o filme não ter, em momento nenhum, trilha sonora. Não há música nenhuma. A princípio, este detalhe passa despercebido, mas é um dos grandes fatores para causar tamanho suspense e tensão. Uma tacada ousada, porém muito eficiente.

O filme faturou 4 estatuetas merecidamente, sem nenhuma polêmica em cima, o que é raro.

2008 foi de fato, o ano dos irmãos Coen.

Aproveite a oportunidade e corre para ver este filmaço antes das polêmicas que estão por vir neste domingo!

O ANO DAS PROVOCAÇÕES

Tão importante quanto sonhar, alimentarmos esperanças, nos emocionarmos com histórias fantásticas, vibrar com super heróis e gargalhar com comédias improváveis, é termos o bom senso de criticar a nossa própria existência, a nossa realidade e nossa conduta. De tempos em tempos, alguns filmes aparecem com essa proposta e jogam na nossa cara o quanto somos imperfeitos, arrogantes e mesquinhos.

Quanto vale a vida? Quantas vidas valem a humanidade?

Começamos pegando pesado, não é?

Que bom. Porque com o filme que abordamos hoje, questionamentos não faltarão.

Beleza Americana (título original: American Beauty) é um filme lançado em 1999, dirigido por Sam Mendes e escrito por Alan Ball. Ganhou 5 Oscars na premiação do ano 2000.

O longa retrata a vida de Lester Burnham, um típico norte americano de classe média alta, e seu cotidiano sem graça e falso. Sua vida muda quando ele se encanta por uma amiga de sua filha e passa a tomar uma postura questionadora e incomum, afetando todos em sua volta.

Beleza Americana é um desses filmes quase inacreditáveis. Foi concebido por dois iniciantes: Sam Mendes e Alan Ball, praticamente, estrearam no cinema, com este filme, tendo feito antes apenas séries e filmes para TV. O roteiro de Ball é riquíssimo e muito bem desenvolvido. A começar pela narrativa e profundidade de seu protagonista, impecáveis. Os diálogos são muito bons, pois todos os personagens são muito bem estruturados. A cada esquina da trama Ball apresenta nvos aspectos que nos fazem reavaliar cada personagem e seus atos. É, de fato, brilhante.

A direção de Sam Mendes é ainda mais formidável, pois embala o roteiro, já extremamente crítico, com inúmeros simbolismos e ângulos pouco usuais (para sua época, principalmente). A começar que Mendes se faz valer de várias paletas de cores, mas consegue manter um padrão estético, as cores nos ajudam a identificar o peso de cada cena com precisão. Se fazendo valer de um personagem ser um cinegrafista amador, várias cenas são filmadas em câmera de mão, com baixa qualidade, mas muita personalidade. A fotografia é impecável e consegue contar a história do filme por si só, de tão bem estudada e executada.

O longa traz grandes atuações. Annette Bening interpreta Carolyn Burnham, a esposa de Lester, uma mulher frustrada tentando parecer bem sucedida com muito brilho, Thora Birch está magnífica como Jane Burnham, uma adolescente tentando se encontrar, enquanto é ignorada por seus pais.

Mas o destaque maior e quem, praticamente carrega o filme nas costas é o grande ator Kevin Spacey, interpretando o protagonista Lester Burnham. Spacey nos entrega um personagem profundo, crível e carismático com uma suavidade absurda. Além de tudo, é o próprio personagem quem narra a história, tornando o personagem ainda mais próximo a nós. Quem ainda não viu este filme e está acostumado a assistir House of Cards, vai se identificar muito.

É um filme maravilhoso que expõe várias feridas da sociedade. Sua crítica ao estilo de vida norte americano é certeiro, retratando pessoas que vivem de aparências, reprimindo desejos, negando a si mesmas, até que essa situação torna-se insustentável. Se o equilíbrio é inalcançável, há de se buscar um meio termo. O símbolo maior deste filme é seu título. American Beauty, é um tipo de rosa vermelha que não tem espinhos, mas também não tem cheiro. É uma rosa lindíssima, porém incompleta (para não dizer vazia). E essas rosas estão por todo o filme, aparecendo em segundo plano. Mas o título também deixa a ambiguidade de poder estar se referindo à jovem cheerleader, a jovem popular, linda e educada, padrão da sociedade norte americana, por quem Lester vai ficar encantado.

1999 foi um grande ano para os filmes sobre críticas sociais, foi o ano das provocações. Neste mesmo ano, foram lançados Beleza Americana, Magnolia, de Paul Thomas Anderson, Clube da Luta, de David Fincher e O Informante, de Michael Mann. Cada um, a sua maneira, retratou uma sociedade corrompida e perdida em si mesma, mas, de alguma maneira, sempre tentando se encontrar.

Beleza Americana ganhou, em 2000, 5 estatuetas: Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor (Sam Mendes), Melhor Roteiro, Melhor Ator (Kevin Spacey) e Melhor Fotografia. Todos merecidíssimos. É claro que, em se tratando de Oscar, sempre tem aquela torcida por seus favoritos. Concorrendo na categoria Melhor Roteiro, estava o soberbo Magnolia, de Paul Thomas Anderson, um dos cineastas que eu mais admiro. São abordagens muito diferentes, é verdade. Mas eu ainda considero Magnolia um roteiro mais bem trabalhado. Se fosse possível, merecia um empate técnico.

Enfim. Ainda bem que o cinema faz tanto por nós. Nos dá sonhos e nos dá questionamentos.

Cabe a nós fazer na nossa parte.

Não perca este filme espetacular.

YOU’VE GOT A FRIEND
Escrever é uma das poucas coisas que eu posso afirmar sem medo que faço bem. Eu adoro escrever, me sinto bem escrevendo e chego nas nuvens quando alguém diz que se sentiu tocado com alguma coisa que eu escrevi. E este espaço aqui, este blog, é muito valioso para mim, pois eu escrevo sobre um tema que eu amo e sei que tem gente lendo e gostando.

Se hoje eu estou aqui escrevendo periodicamente neste blog, e até mesmo no jornal impresso, eu devo isso a uma única pessoa. Alguém que, por si só, é a definição da palavra "amiga".

E eu vou te dizer uma coisa. Não tem nada melhor neste mundo do que ter grandes amigos.

Hoje vamos falar sobre um filme que mudou a história do cinema falando sobre amizade de um jeito acessível, criativo, engraçado e emocionante.

Toy Story 3 é uma animação longa metragem lançada em 2010. O filme foi escrito e dirigido por Lee Unkrich, sendo que o roteiro teve as colaborações de John Lasseter, Andrew Stanton e Michael Arndt. Trata-se da história dos brinquedos de Andy, um garoto que, agora crescido, vai para a faculdade e precisa decidir o que fazer com seus brinquedos, que o acompanharam a vida toda. Por engano, Woody, Buzz Lightyear e toda a turma que já conhecemos e amamos de Toy Story (1995) e Toy Story 2 (1999) acabam indo para uma creche e precisam se virar para voltar para o Andy.

Eu acho muito difícil não misturar as estações e ser mais racional para falar deste filme, mas vou me esforçar aqui e deixar para o fim alguns comentários mais pessoais. O roteiro é magnífico. Eu sei. Você pode pensar..."puxa, mas é um desenho animado, um filme para crianças...como pode ter um roteiro magnífico?". Acredite, é um roteiro magnífico. Muito bem amarrado, com personagens carismáticos e divertidos, diálogos espertíssimos, muita ação e aventura, uma surpresa atrás da outra...se você piscar, corre o risco de perder algum detalhe importante. A trama é a mais complexa dos três filmes da saga e a mais emocionante. O brilhantismo deste roteiro é justamente entreter e emocionar intensamente crianças e adultos.

A direção de Lee Unkrich é excelente. Além de saber demarcar bem os sentidos, tensão, emoção, drama, comédia, ele dá um ritmo muito coeso e empolgante ao filme. E, numa animação como esta o ritmo é tudo. Unkrich também valoriza muito as cores para contar sua história, as cenas mais reflexivas são mais escuras e com tons mais frios, as cenas de ação e comédia são super coloridas, além dos ângulos pouco usuais e cortes muito bem utilizados.

A saga Toy Story, que começou em 1995, mudou o mundo do cinema. Até então, só conhecíamos desenhos animados da Disney, naquele mesmo padrão de contos de fada, com canções melosas e humor politicamente correto. A Pixar, o estúdio de animação responsável por Toy Story, de repente aparece com uma história de brinquedos que têm vida e formam laços afetivos entre si e, principalmente, com o seu dono. E contam essa história com um humor repleto de ironias sutis que acabam convencendo os adultos a se interessar pela trama e torcer pelos personagens junto com as crianças.

Neste Toy Story 3, fecha-se um ciclo. Andy, o garoto, não brinca mais com os seus brinquedos. Já é um jovem rapaz com outros interesses, mas ele não perdeu seu amor por seus brinquedos, ou melhor dizendo: por sua infância e seus sonhos. Mas, ao contrário de Andy, os brinquedos não crescem, e brincar com o seu dono é o que dá sentido às suas vidas.

Portanto, este filme vem falar sobre amizade, companheirismo e sobre ritos de passagem, mudanças que a vida naturalmente nos traz. E também sobre a importância de manter a sua essência, de ser quem você verdadeiramente é.

Toy Story 3 ganhou 2 Oscar na premiação de 2011: Melhor Animação e Melhor Canção Original Para Trilha Sonora, com a música We Belong Together, de Randy Newman. De fato, a trilha sonora inteira, dos três filmes, é invejável.

É muito difícil falar sobre esse filme sem citar cenas marcantes e momentos impactantes, bem como é impossível citar alguma cena ou detalhe sem estragar a surpresa que o filme é.

E, acredite, é um filme surpreendente e maravilhoso, como poucos.

Ao final do filme, você vai querer dar um abraço em cada um dos seus melhores amigos e vai sorrir ao perceber como você tem sorte por tê-los por perto.

 

Um filme para assistir de novo, e de novo, e de novo, e de novo...

Divirta-se!

 

ps: Obrigado, Mariana. Sempre.

 

Nota do editor: Te amo, querido. Seremos sempre Woody e Buzz Lightyear. E deixo você escolher qual dos dois que ser. =)

HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Tem um vídeo muito popular na internet, de um trecho de uma palestra do Ariano Suassuna, um dos maiores escritores deste país, falando sobre a teoria do criacionismo, tripudiando a teoria darwinista da evolução das espécies. Não entrando aqui nesta discussão, o interessante é a colocação do escritor sobre a engenhosidade do ser humano, infinitamente distante de qualquer outro ser vivo. Ele usa como exemplo um simples prendedor de roupa e é realmente muito interessante e engraçado. E ele conclui dizendo que, às vezes, crer na ciência requer muito mais fé do que na religião. E essa é uma grande verdade.

O ser humano é indecifrável. Provido de lógica e subjetividade, sua mente articula conceitos, planos, realiza feitos, muitas vezes tidos como impossíveis. É muito difícil não se questionar se há ali uma fagulha sequer de sobrenatural. Qual a essência do ser humano? Ela é única ou variável? Será que algumas pessoas já nascem naturalmente más, ou acabam sendo moldadas pelo ambiente em que vivem?

Essas são algumas das questões que ficam no ar depois que você acaba de assistir o filme sobre o qual falaremos hoje.
O Silêncio dos Inocentes (título original: The Silence of the Lambs) foi lançado em 1991, dirigido por  Jonathan Demme e escrito por Ted Tally, baseado no livro de Thomas Harris.

O filme conta a história de Clarice Starling, uma cadete do FBI que recebe a missão especial entrevistar Hannibal Lecter, um frio e inteligentíssimo assassino preso, para que suas opiniões ajudem a capturar um serial killer.

Uma boa parte do crédito pelo roteiro ser tão incrível é do escritor Thomas Harry. A história é impecável e os personagens são irresistíveis. Ao mesmo tempo que a trama é altamente cerebral, cheia de pistas para desvendar os crimes, há uma boa quantidade de suspense e terror implícita. As ideias são muito bem conectadas e o fato de a personagem principal, Clarice, ser uma principiante, torna tudo mais empolgante. O roteiro em si é brilhante justamente por não descaracterizar a obra literária, mas dar a ela mais vida e dinâmica para que a história funcione na tela. É uma história muito bem contada, com personagens muito bem estruturados e com uma sucessão de surpresas e fatos desvendados contagiante. Não dá para não querer saber onde tudo aquilo vai dar.

O trabalho de Jonathan Demme na direção deste filme é digna de aplauso. Ele conduz a história com precisão cirúrgica, impõe um ritmo provocativo e angustiante, abusa de closes e ângulos fechados e apresenta uma fotografia predominantemente fria, pálida, nos passando um misto de máxima atenção e medo, ou seja, estamos o tempo todo sob a perspectiva da própria protagonista, que mesmo com medo e insegura em alguns momentos, está atenta e disposta a cumprir sua missão.

Para coroar esta belíssima obra do cinema, o elenco está todo impressionante. Anthony Hopkins, soberbo, dá vida a um dos vilões mais assustadores e marcantes da história do cinema, o doutor Hannibal Lecter, um psiquiatra que matava suas vítimas e comia partes dela, preparando pratos sofisticados com carne humana, ficando conhecido como Hannibal, The Cannibal. Jodie Foster esbanja talento em sua aparição mais marcante de sua carreira até então. Ela interpreta a jovem Clarice Starling com perfeição. O então pouco conhecido Ted Lavine está ótimo no papel do assassino Jame Gumb. Destacam-se também Scott Glenn como o experiente agente Crawford e Anthony Heald como diretor da prisão para criminosos insanos, o doutor Chilton.

O Silêncio dos Inocentes arrebanhou cinco estatuetas no Oscar de 1992, nas principais categorias. E isso deve-se não só a competência de cada pessoa envolvida no projeto. Este foi um filme que mudou a cara do cinema e abriu as portas para produções tão impactantes quanto ele. Desde os clássicos de Hitchcock não se via um filme misturar os gêneros policial e suspense com tanta precisão, com a diferença que neste O Silêncio dos Inocentes, a violência é escancarada para chocar ainda mais o espectador, diferente dos filmes de Hitchcock que precisava usar artifícios para chocar sem mostrar muito sangue ou cenas violentas, pois se sabia que a censura da época vetaria o filme. Filmes como o maravilhoso Seven – Os Sete Pecados Capitais (1995) , já comentado neste blog, são filhos diretos desta obra prima de Jonathan Demme.

Jonathan Demme levou o Oscar na categoria Melhor Diretor, Anthony Hopkins ganhou  na categoria Melhor Ator, Jody Foster , Melhor Atriz, além de o filme ser premiado nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. É o famoso ganhar de lavada. E, desta vez, não teve injustiça nenhuma. Não tinha para ninguém, O Silêncio dos Inocentes era o melhor filme disparado, dentre os demais indicados.

Voltando aos pensamentos do início deste texto, a beleza deste filme é nos apresentar personagens tão ricos e cheios de personalidade, que nos fazem questionar. Será possível existir um ser humano tão frio e cruel, e tão inteligente como o doutor Hannibal Lecter? Todos os outros personagens no filme são muito humanos, com grandes qualidades e alguns defeitos. Mas Hannibal é infalível. Ele é tão sedutor que, no fim do filme, sem perceber, você está torcendo pela Clarice, mas acaba aplaudindo os feitos dele.

Acho que nós nunca saberemos com certeza se a maldade é inerente a alguns seres humanos ou não. Nós nunca saberemos com certeza até onde vai a ciência e onde entra o sobrenatural, o divino, em nossa formação humana. Parece que, quanto mais evoluímos tecnologicamente, menos conseguimos entender sobre nossa essência.
Ainda bem que temos filmes como este, que nos fazem refletir sobre esse assunto de maneira tão intensa e intrigante.

Um filmaço super recomendado.

Rocky - Um lutador

SEMANA DO OSCAR

Para quem gosta de cinema, um dos eventos mais divertidos do ano para se ver na TV é a premiação do Oscar, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (Academy of Motion Picture Arts and Sciences) premia os melhores filmes do ano em 25 categorias, que vão desde maquiagem e figurino até melhor filme e melhor roteiro.

Por se tratar de uma premiação subjetiva, já que os filmes são indicados e depois premiados de acordo com a interpretação dos membros da academia e ninguém mais, nem sempre ela é justa. Muitas vezes já vimos filmes excelentes ficarem de fora e filmes medíocres sendo premiados.

Mas, convenhamos, isso faz parte da diversão. Isso sem falar na torcida que fazemos para nossos diretores e atores favoritos. Quantas vezes já não torci pelo Martin Scorsese ou pelo Tarantino, mesmo sabendo que os filmes deles não eram os melhores entre os indicados?

Por isso, eu não vejo a hora de chegar a noite de domingo, dia 28, para ver a premiação deste ano.

Enquanto domingo não chega, resolvi escolher 5 filmes vencedores do Oscar na categoria de Melhor Filme e comentar aqui com você durante essa semana, para prepararmos nosso espírito para o dia 28.

E resolvi começar por um filme excelente e muito polêmico. Um filme que explica muito da premiação do Oscar e suas variáveis.

 

ADRIAN, HE DID IT!

No dia 28 de fevereiro de 1977 venceu como melhor filme do ano de 1976 Rocky - Um Lutador (título original: Rocky), lançado em 1976, dirigido por John G. Avildsen e escrito por Sylvester Stallone.

O longa conta a história de Rocky Balboa, um pugilista amador que, do dia para noite, tem uma oportunidade de ouro: lutar contra, o então campeão dos Estados Unidos, Apollo Creed.

Bom, antes de eu começar, já vou te avisar que este vai ser um daqueles textos super pessoais, porque estamos falando de um dos personagens do cinema que eu mais gosto. Mas, prometo que vou me conter e me basear em fatos para explicar porquê este filme mereceu ser premiado.

Acredite, é verdade. O roteiro deste belo filme foi escrito por Sylvester Stallone, aquele brucutu que ficou famoso como Rambo. E é, realmente, um ótimo roteiro. Stallone dá profundidade aos personagens, recria uma Filadélfia pobre e desesperançosa. É uma história muito bem contada, sem exageros ou floreios. Os diálogos, e algumas vezes a falta dele, são muito bem escritos, tornando o filme absurdamente crível.

A direção de Avildsen é fabulosa. Apesar da pouca experiência na época, ele fez um trabalho maravilhoso. Conduziu o filme de maneira natural, contrastando desolação e esperança, pessimismo e otimismo, não só na fotografia, mas também na condução da atuação do elenco. A fotografia impressiona e a montagem é espetacular.

As atuações são um caso á parte. Burt Young dá um show de atuação interpretando Paulie, amigo de Rocky e irmão de Adrian, a garota por quem Rocky se apaixona. Adrian, uma garota extremamente tímida, é interpretada lindamente por Talia Shire. Burgess Meredith interpreta muito bem Mickey, o treinador de Rocky. E, por fim, temos Sylvester Stallone, protagonizando o filme como Rocky Balboa, o papel de sua vida. Literalmente.

Não é exagero dizer que Rocky Balboa é o personagem da vida de Stallone. Pois a trajetória do personagem é uma metáfora para a vida do próprio ator. Com o sonho de atuar na cabeça, Stallone passou anos em Los Angeles vivendo à beira da miséria, fazendo bicos aqui e ali para conseguir algum dinheiro, até que um dia, viu uma luta de boxe entre um lutador consagrado e um iniciante, uma luta dramática. Daí veio a ideia para contar uma história onde poderia usar sua própria vida como inspiração. Assim sendo, Stallone estava muito á vontade para interpretar o papel de um homem frustrado com seus sonhos, mas que não desiste deles, legitimando e dando profundidade ao personagem.

Outro aspecto importantíssimo é momento em que os Estados Unidos viviam. Richard Nixon acabara de ser exposto no caso Watergate e renunciara ao cargo de presidente da república. O país vivia um momento complicado economicamente e de desgosto político, ou seja, o norte-americano precisava renovar sua auto-estima. Com certeza, Stallone aproveitou essa conjuntura para situar sua história na Filadélfia, onde a independência do país foi proclamada. Mostrou um homem simples, do povo, tendo uma oportunidade e a aproveitando. Stallone mostra que seu país é a terra da oportunidade e que o norte-americano, apesar de todas as adversidades, é um lutador e um vencedor.

Um dos filmes indicados ao Oscar de melhor filme naquele ano foi Taxi Driver, um dos clássicos de Martin Scorsese. Se pensarmos puramente na parte artística, Taxi Driver seria mais merecedor da estatueta. É um filme mais complexo, mais dinâmico, mais intenso. Porém, também é um filme sombrio e pessimista, retratando a ressaca da guerra do Vietnã e a vida desconcertante de seus veteranos, além de o Vietnã ser um dos grandes fiascos da história dos Estados Unidos.

Por isso, Rocky é um filme que, não só mereceu vencer o Oscar naquele ano.

É um filme inspirador, belo e cativante.

Daqui para frente, sempre que você observar a imagem do personagem Rocky Balboa com o braço estendido, vitorioso, no ringue ou no alto da escadaria da Filadélfia, lembre-se que ali você também está vendo o próprio Stallone, como um vencedor.

Inspire-se!

Vá à luta!

E assista este genuíno clássico do cinema!

“HELLO, I’M JOHNNY CASH.”

Muito se especula sobre a teoria de que a arte imita a vida (ou vice-versa). Eu acho que, na verdade, a arte e a vida andam lado a lado, se completam. Em uma entrevista gentilmente  cedida a mim para a revista Vanilla, Humberto Gessinger, compositor, escritor e líder da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, disse que não tem vontade de escrever ficção porque a vida real já é nonsense o suficiente.

É com essa mistura entre a arte e a vida real, que venho falar sobre um filme que traz todos os elementos possíveis da vida real e da arte, da fantasia. Trata-se do filme Johnny & June (título original: Walk the Line), cinebiografia de Johnny Cash, ícone do country e rock norte-americano. O filme é dirigido por James Mangold, que também escreveu o roteiro em parceria com Gill Dennis. O roteiro é uma adaptação da autobiografia do artista, intitulada simplesmente Cash – The Autobiography (um livro excelente, que eu já li e recomendo).

Obviamente, o filme vai contar a história do astro Johnny Cash, desde sua infância simples numa fazenda  no sul dos Estados Unidos, até sua ascensão no mundo da música, passando por seu envolvimento com drogas e o casamento com sua grande paixão, a cantora June Carter.

Vamos ao que interessa.
Só pelo fato de o roteiro ser baseado no livro autobiográfico do músico, não significaria que o filme seria bom.
Mas, neste caso, significa.

O roteiro de Mangold e Dennis é muito bom. Se faz valer de flash backs em momentos oportunos, construindo muito bem as transições e amarrando as pontas sem entregar as surpresas muito antes, ou depois do que se deveria. Os personagens são muito profundos e bem construídos, com diálogos muito bem escritos e elaborados.

Mangold é um diretor talentoso e em desenvolvimento. Fez um bom trabalho no pouco conhecido Cop Land (1997), depois se superou fazendo um ótimo trabalho em Garota Interrompida (1999) e chegou neste Johnny & June em ótima forma, a fotografia e a montagem do filme impressionam. As variações na cronologia da história são muito bem exploradas, vez ou outra com um filtro suave. O ritmo é excelente, empolga quando tem que empolgar, desacelera e comove quando tem que comover, diverte e retrata o meio musical com fidelidade.

As atuações são maravilhosas. Joaquim Phoenix é um ator fenomenal e encarnou Johnny Cash com uma intensidade impressionante, nos faz lembrar o Val Kilmer ao incorporar Jim Morrison, no clássico The Doors, de Oliver Stone. Reese Witherspoon interpreta June Carter com muita propriedade, de maneira muito natural, acentuando um sotaque sulista adorável. É uma atriz que sempre me agradou muito, e vem fazendo cada vez mais papéis marcantes. Além dos protagonistas, as atuações são todas muito eficientes, mas nada além do normal que valha aqui citar.

Vamos rapidamente aqui falar um pouquinho sobre música e entender a beleza e importância deste filme. Para nós, aqui no Brasil, Johnny Cash não é tão reconhecido como grande astro, mas nos Estados Unidos, é um verdadeiro ícone, uma instituição nacional. E não é à toa. Ele foi um artista revolucionário. Com mais propriedade e eficiência que o próprio Elvis Presley, Johnny Cash aproximou o country e o rock n’ roll de maneira íntima. Cash trouxe a malandragem, o niilismo e a rebeldia do rock para o country, e levou o lirismo e a simplicidade melódica do country para o rock.

Fora isso, o filme conta parte da história da música pop. Vemos retratada ali a famosa e mais incendiária caravana de artistas do sul dos Estados Unidos, artistas ainda desconhecidos, mas que iriam mudar o mundo: Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Roy Orbson...estão todos ali! Eles viajavam juntos apertados em um carro, passando por cada feira agropecuária do sul norte americano.

Além disso, a trajetória de Cash é inspiradora, suas recaídas nas drogas e a conquista da sobriedade, seu casamento, suas ideias revolucionárias e ousadas como fazer shows dentro de penitenciárias, dentre outras surpresas, fazem deste filme um verdadeiro clássico! Uma união apaixonante entre cinema e música.

Sem dúvida um filme para ouvir em alto e bom som, e de se tirar o chapéu!

Quero mais!

Um dos motivos pelos quais eu gosto de assistir filmes, séries e documentários é para que eu me sinta inspirado, motivado. É muito prazeroso assistir um filme como Forrest Gump e se sentir inspirado por aquele personagem determinado e ingênuo, por exemplo. É emocionante ver um documentário sobre a vida da Edith Piaf e se inspirar naquela pequenina mulher com uma voz tão poderosa quanto sua paixão pela música.

Uma das minhas atividades favoritas atualmente foi muita impulsionada pelo cinema: cozinhar. Em 2014, fui ao cinema assistir o filme Chef, de Jon Favreau, e saí da sala encantado, louco para aprender a cozinhar coisas deliciosas ouvindo música. Desde então, já fiz curso e tenho aprontado muito na cozinha aqui de casa.

Sendo assim, foi com grande expectativa que comecei a assistir Chef’s Table, uma série documental produzida pela própria Netflix, retratando a vida e obra de seis dos chefs mais conceituados do mundo.

Acontece que eu acabei de ver os seis episódios da primeira temporada um pouco decepcionado.

Mas antes de entrarmos em divagações, vamos falar de maneira geral sobre a série.

 

Chef’s Table é um série em formato de documentário, é uma produção da Netflix encabeçada pelo produtor e diretor David Gelb. Ao contrário de outras produções da Netflix como House of Cards, que tem grandes nomes envolvidos na produção e direção como David Fincher e Kevin Spacey, Chef’s Table não conta com nenhum nome de peso, os produtores e diretores são todos consideravelmente novos e sem muita experiência no ramo cinematográfico.

Só este fato já nos diz muita coisa.

A primeira temporada, e única lançada até agora, contém seis episódios, cada um falando de um chef. São eles: Massimo Botura (Itália), Dan Barber (Estados Unidos), Francis Mallmann (Argentina), Niki Nakayama (Estados Unidos), Ben Shewry (Austrália) e Magnus Nilsson (Suécia).

Os seis episódios são bem regulares e seguem a mesma estrutura, apresentam o chef e sua ideologia de vida e trabalho, vai voltando para o seu começo falando um pouco da infância, pula para o começo na gastronomia, nos primeiros restaurantes onde trabalhou e sua evolução até chegar nos dias de hoje. Mostra-se o modus operandi de cada um na cozinha, apresentam-se alguns pratos e pronto.

De maneira geral, os episódios são muito bem feitos, com um roteiro amarradinho e muita exuberância na fotografia, tanto se fazendo valer das paisagens de onde cada chef vive, como dos belíssimos pratos feitos. A série funciona bem, tem um ritmo ok e tal...mas falta alguma coisa.

Na minha humilde opinião, o que falta é profundidade.

Quando digo que falta profundidade, é em todos os sentidos. Tanto na vida pessoal de cada protagonista, como na arte da gastronomia. Para quem está interessado no assunto, mas ainda não tem conhecimento, existem duas curiosidades latentes: Como esses caras começaram, ou seja, onde estudaram, o que preparavam em casa, o que dava certo, o que dava errado, como se sentiam...e o outro aspecto é a preparação do ratos. nNenhuma receita é mostrada do começo ao fim. Vemos as escolhas de infredientes de maneira geral e temos algumas imagens variadas de preparações de diversos pratos, mas em nenhum momento é revelado algum segredinho do tipo “aqui usei este tempero, ou cozinhei tal coisa de determinado jeito...”.  Não tem nada disso. E essa é a parte mais frustrante. Eu queria ver esses caras cozinhando, e não só falando.

Desta maneira, alguns episódios se sobressaem simplesmente plea história de vida do protagonista ser realmente interessante, como é o caso de Niki Nakayama, Francis Mallmann e Massimo Botura. Os outros três episódios são bem cansativos, justamente pelo protagonistas serem pouco carismáticos.

Além disso, a série me passou uma imagem ruim  da alta gastronomia. Fiquei com a impressão de estar diante de um mundo que eu nunca vou conhecer (e que, honestamente, não me atrai muito). Tudo é muito artístico e cerebral, os restaurantes certamente são todos lugares caríssimos, apesar de isso não ser mencionado em momento nenhum. E os pratos são todos realmente lindíssimos, mas todos minúsculos.

Puxa vida, uma das coisas que mais me faz querer cozinhar é que eu adoro comer e sentir novos sabores. E, se me aparece um prato com um pedaço de carne de quinze centímetros quadrados, lindamente decorado, com uns pingos de molho em volta, eu, com certeza, vou perguntar: “Mas é só isso? Acho que eu vou ficar com fome...”.

O que eu quero dizer é que, com certeza, esses pratos, tem significados e os chefs devem sim pensar que a ideia é agradar e impressionar o consumidor com um prato lindo e apetitoso, mas também há de se ter a intenção de saciar a fome.

Porém, ninguém fala sobre isso.

Em resumo, a série me decepcionou pela falta de profundidade, tanto na vida e trabalho de cada chef, como na abordagem da gastronomia como um todo.

Eu, que esperava assistir aos episódios e correr para cozinha inspirado para cozinhar coisas diferentes, acabei pegando um reles iogurte e assisti uma comédia romântica qualquer.

 

Vale a pena ver a série?

Até vale, como curiosidade.

Mas, tenha a certeza, vai ficar um gostinho forte de quero muito mais.

A DOCE ILUSÃO DE CONSEGUIR
“(...) Sócrates reconheceu o que cada filósofo e religião na história do mundo, desde Aristóteles para Platão, desde Epicuro para os estóicos, os judaico-cristãos, os budistas...todos observaram: o equilíbrio necessário para uma vida feliz é ilusório.

E assim, à nossa maravilhosa, falha e humana maneira, se pensarmos que alcançamos esse equilíbrio, estamos nos comparando a divindades. E vamos cair. Como Ícaro, que caiu, em chamas, no mar.”

Quando eu era adolescente, na idade de prestar vestibular, cogitei por um longo tempo cursar faculdade de filosofia. Eu adorava ler sobre o período socrático, os sofistas...

Por alguns acontecimentos e motivações que não cabem aqui  ser mencionados, acabei cursando comunicação e me afastei um pouco dos pensadores clássicos.

Mas ainda hoje, me espanto como, onde menos se espera, encontramos a filosofia em sua mais pura essência, pois, vira e mexe, lá estamos nós com o queixo apoiado na mão pensando: “Qual é o sentido dessa vida? Que diabos eu estou fazendo nesse mundo maluco?”.

E um filme simples, com um enredo inusitado, nos traz esses questionamentos de uma maneira leve e suavemente emocionante. Estou falando do filme Irmãos de Sangue (título original: Leaves of Grass), lançado em 2009, escrito e dirigido por Tim Blake Nelson.

O longa conta a história de Bill Kincaid, um professor de filosofia bem sucedido que se vê forçado a voltar para sua cidade natal, para reencontrar sua família e enfrentar conflitos que ele abandonara há muitos anos para se dedicar aos estudos e a uma vida controlada. Afinal, Bill vivia uma vida sem disciplina nenhuma com sua mãe, Daisy, uma hippie e Brady, seu irmão gêmeo, um maconheiro que começava plantar maconha hidropônica e vender pela região.

O roteiro é magnifico. O filme já começa mostrando a que se propõe. A citação do começo deste texto refere-se à primeira cena do filme, quando Bill está dando uma aula sobre Sócrates. O tempo todo o filme levanta questionamentos muito sutis sobre existência, verdades, ética, espiritualidade, certo e errado. Os diálogos são ótimos e os personagens todos tem profundidade.

Tendo escrito o roteiro, Nelson dirigiu o filme com muita naturalidade. Ele certamente sabia exatamente o que queria de cada cena e ia direto ao ponto, deixando os atores á vontade O filme flui muito bem, mesmo não tendo cortes rápidos e ousados, o ritmo é ótimo. A fotografia tem alguns grandes momentos com as paisagens interioranas e alguns ângulos diferentes, como se o espectador estivesse “espiando” o que os personagens fazem.

Mas, certamente, o filme deve muito de seu êxito à atuação de Edward Norton. Ele interpreta os irmãos Bill e Brady com perfeição. Fica fácil reconhecer cada personagem só pela expressão fácil. Brady sempre relaxado e irônico e Bill austero e em eterna dúvida. Sem falar no sotaque sulista que torna Brady um personagem caricato e muito divertido. Ainda há as atuações muito eficientes da veterana Susan Sarandon como Daisy, o próprio Tim Blake Nelson como Bolger, o melhor amigo de Brady e a simpática Melanie Lynskey como Colleen, namorada de Brady.

Irmãos de Sangue nos traz questionamentos importantes e, muitas vezes, deixados de lado.

Qual a essência da nossa vida? O que faz de cada um de nós pessoas únicas? O quanto valorizamos quem amamos e quem nos ama? Do que temos medo? Por quê temos medo dessas coisas?

Como foi dito no começo deste texto, e no começo do filme, o equilíbrio da vida é ilusório. Estamos sempre buscando compensar as coisas. Nossos erros e acertos, nossas derrotas e conquistas. E quando você tiver a impressão de que este equilíbrio está quase sendo alcançado, você vai começar a perceber que sente falta de alguns antigos medos, alguns antigos erros.

E lá se vai o equilíbrio mais uma vez.

E você vai voltar a apoiar a o queixo na sua mão e pensar: “Qual é o sentido dessa vida? Que diabos eu estou fazendo nesse mundo maluco?”.

Nunca deixe de se questionar.
E não deixe de assistir este delicioso filme.

Classificados