Vanilla

Bye, bye, preconceito

Paloma Stedile

16/11/2016 às 06:00 - Atualizado em 16/11/2016 às 06:00

Ficar imprensado numa catraca de um ônibus, ou entrar em uma loja para comprar uma linda roupa que está na vitrine e saber que não há sua numeração, pelo simples fato de você estar acima do peso. Estas são apenas duas de inúmeras situações que nós, gordinhos, enfrentamos no dia a dia.

Felizmente, essa realidade vem mudando nos últimos tempos, porém há ainda muito o que ser revisto e melhorado. No quesito vestuário, por exemplo, algumas marcas que elaboravam peças apenas até os manequins 42 para mulheres e 48 para homens, estão passando a ver com outros olhos quem está acima do peso.

Fotos: Filipe Menegoy e Romualdo Crissi
À esquerda, Camilla Goulart, e à direita Priscilla Bortotto Ribeiro
Também pudera, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada pelo IBGE em 2013, 60% da população brasileira está acima do peso. Nela, constatou-se que os homens com uns quilos a mais correspondem a 57,3%, enquanto as mulheres 59,8%.

Tudo bem, os profissionais da saúde sempre alertam que o excesso de peso aumenta os riscos de doenças cardiovasculares e diabetes. Contudo, nem todos os gordos têm problemas de saúde, e nem todas as pessoas magras são 100% saudáveis. Há situações e situações, sendo que cada pessoa deve sempre fazer seu check-up e cuidar de sua saúde.

Mas quem está acima do peso e goza de plena saúde, será que não tem direito de ser feliz, podendo usar uma roupa bonita, cuidando sempre da aparência e vivendo como qualquer outra pessoa? Gordinhos amam, gordinhos namoram, gordinhos gostam de passear, gordinhos inclusive gostam de salada!

Há ainda quem esteja dentro dos padrões da moda (como assim padrões?) e que olhe “atravessado” para quem é “cheinho”. Muitas vezes, tudo começa ainda na escola, com o hoje chamado bullying. Eu mesma, quando adolescente, sofri bastante com isso. Vários eram os apelidos diários, que me atormentavam.

Hoje, felizmente, sei lidar muito bem com isso. Sou feliz do jeito que sou. Tenho saúde, assim como tenho família, noivo e amigos que me amam. Então por que vou me importar com o que as outras pessoas pensam ou falam?

Miss Paraná

Conheço muitas outras pessoas que contornaram muito bem essa situação. Uma delas é Priscilla Bortolotto Ribeiro. Natural de Coronel Vivida, ela é casada, tem 29 anos e hoje é consultora jurídica em Curitiba. No fim de agosto deste ano a sua vida deu uma reviravolta, quando participou do Miss Paraná Plus Size 2016, no Teatro Regina Vogue, em Curitiba.

Paulo França
Priscilla é Miss Paraná Plus Size 2016

Neste evento, promovido pela Impacto Produções com a coordenação estadual da OP Eventos, ela conquistou o título e agora representará o estado no Miss Brasil Plus Size, que ocorrerá na segunda quinzena de janeiro de 2017, em data e local a serem definidos.

“Sempre admirei modelos plus size, e sempre acompanhei os trabalhos das misses Aline Silvestre (Miss Paraná Plus Size 2013) e Isabelle Campestrini (Miss Brasil Plus Size 2014). Isso me motivou e, através de incentivo de amigos e familiares, fiz a inscrição para participar do Miss Paraná Plus Size”, disse a vividense, que concorreu com 12 candidatas.

A jovem que tem 1,74 m de altura, 120 cm de quadril, 80 cm de cintura e 100 cm de busto conta que para participar do concurso precisou se pré-inscrever no site oficial do evento, com o envio de pelo menos três fotos. Os requisitos para a participação eram simpatia, beleza, ser maior de 18 anos, não ter antecedentes criminais, ter manequim a partir da numeração 44 e ser selecionada na pré-inscrição.

“O concurso é em nível estadual, podendo participar mais de uma candidata por cidade. Fiquei muito feliz e me senti muito honrada em representar a minha amada cidade natal Coronel Vivida e, ao mesmo tempo, também representar a cidade que me acolheu com muito carinho, Curitiba”.

Nessa etapa, as candidatas foram avaliadas pelos jurados nos quesitos:  simpatia, beleza facial e corporal, passarela, elegância, postura, desenvoltura e avaliação geral. Com o título, Priscilla conquistou o direito de concorrer ao Miss Brasil Plus Size, no qual, caso ela vença, ganhará uma viagem à Nova York e mais R$ 15 mil em contrato de trabalho com a empresa organizadora do evento.

Ela conta que com o título a sua responsabilidade é de representar as mulheres plus size do estado, ajudando e incentivando no que for possível; trabalhar em campanhas e eventos beneficentes; mostrar que a mulher plus size tudo pode.

“Ainda, profissionalmente, firmou-se um compromisso com a Impacto Produções, o qual te traz a obrigação do cumprimento de agenda social sempre que requisitada pela empresa. Há também o compromisso com a representação da imagem e do título conquistado. Frequentar os eventos sociais e/ou beneficentes, representando todas as mulheres paranaenses com o intuito de motivar a autoestima e mostrar a diversidade da beleza, além de também fazer trabalhos como modelo”, enumerou a miss, que pretende conciliar a profissão de consultora jurídica com a de modelo.

Para Priscilla, a realização de concursos dessa natureza vai muito além de tudo isso. Ela afirma que a maior importância é mostrar que a beleza da mulher brasileira não é limitada a um padrão físico específico, sendo que o concurso demonstra que existem mulheres belas e elegantes, com biótipos e estrutura corporal diferentes do padrão até então estabelecido pelo mundo da moda.

“O objetivo do concurso não é descobrir modelos, embora isso seja uma decorrência do título, mas principalmente ser um evento de motivação, elevação de autoestima, de inclusão social e de quebra de preconceitos.  Acredito que este evento contribui muito para abertura de modelos, com manequins acima de 44, também terem o direito de usar roupas da moda e estarem bem vestidas, e mais do que isso, estarem felizes e realizadas com o seu corpo”.

E isso Priscilla afirma com convicção. Ela, durante muitos anos, lutou contra a balança e a opinião alheia. A miss conta que foi uma criança e uma adolescente obesa, chegando a pesar até 125 quilos e usar manequim 54, aos 19 anos.

“Sofri bullying como todo adolescente sofre. Na época sofri muito, pois não sabia lidar com isso; não tinha uma autoestima ao ponto de conseguir não dar importância a isso e ver que o meu valor era muito maior do que qualquer ofensa. Hoje em dia, saberia lidar muito melhor com as situações que vivi quando criança/adolescente, mas acredito que isso veio com a maturidade e o autoconhecimento, pois quando aprendemos a reconhecer o nosso próprio valor e as nossas qualidades, ao ponto de nos amarmos, nada mais nos abala e tudo passa a ser muito pequeno, sem significado”, declarou.

Além do bullying, ela também já teve outro inimigo: o guarda-roupa. “Em minha infância e adolescência não existiam muitas opções de roupas para o meu tamanho, precisava fazer sob medida. Atualmente, a moda plus size vem crescendo no Brasil, tanto que vejo roupas lindas, de tamanhos variados”.

Ela acredita que essa evolução ocorreu justamente porque as mulheres plus estão cada vez mais empoderadas, exigindo essa mudança do mercado. “O evento Miss Plus Size contribui para essa evolução, uma vez que as mulheres plus se sentem representadas e com espaço que antes apenas mulheres com manequins 34/36, quando muito no máximo um 38, tinham. Porém, ainda sinto e vivencio certa resistência de algumas marcas em fabricar roupas em tamanhos maiores. E, quando fabricam um 44, geralmente veste em uma mulher que na realidade tem um manequim 40/42 no máximo, e essa mentalidade precisa mudar”, acrescentou.

Miss Distrito Federal

Camilla Goulart Garcia tem algo em comum com Priscilla: venceu a etapa estadual do Miss Brasil Plus Size, porém pelo Distrito Federal, em abril de 2015. Natural de Brasília, é solteira, tem 33 anos e está grávida do primeiro filho.

Filipe Menegoy
Camilla é Miss Distrito Federal Plus Size

Com isso, ela teve algumas alterações em suas medidas, porém pouco antes de engravidar, com 1,70 m de altura, tinha 94 kg, 119 cm de busto, 92 cm de cintura, 123 cm de quadril, em um manequim 48/50.

Camilla é formada em comunicação social com foco em cinema. É estudante de teatro, e atua como modelo e em produções culturais. Ela conta que começou a atuar profissionalmente como plus size após vencer o concurso no ano passado.

“Antes, trabalhava como modelo mais artística. Com a coroa, pessoas começaram a me procurar para modelar no seguimento plus size. Porém, encontro muita dificuldade em Brasília. Aqui não possui um polo de moda forte; as fábricas ficam mais em outros estados, como São Paulo e Minas Gerais”.

A modelo disse que, durante esse período de um ano e meio, fez alguns trabalhos de temporadas, como inverno e verão para lojas virtuais. Também desfilou para o Fashion Weekend Plus Size Moda Verão, no início de 2016.

Por ter desfilado de biquíni e já ter feito fotos de moda praia, Camilla afirma que nunca foi alvo de comentários maldosos, sempre recebeu críticas positivas. Entretanto, ela já leu ofensas relacionadas a outras mulheres.

“Coisas como ‘ser vergonhoso mulher gorda expor a gordura’. Fico indignada como existem pessoas que ainda acreditam que a mulher gorda deve se esconder, porque sempre será motivo de chacota. Devemos desconstruir a imagem da pessoa gorda ser sempre ligada à comédia, ao deboche pelo simples fato de ter um tamanho maior”, declarou.

Assim como Priscilla, Camilla resolveu se inscrever no concurso de beleza, também promovido pela Impacto Produções, em busca da sua autoestima, “de me sentir bem comigo mesma, e, principalmente, da confiança. Trabalhei muito meu interior para refletir no exterior a real beleza que tenho”, afirmou a Miss Distrito Federal, acrescentando que pretende participar de outros concursos, após a gestação.

Ao ser questionada sobre sua infância e adolescência, Camilla resume em uma palavra: “Terrível”. Depois justifica: “Sofri muito bullying, desde ser apedrejada por ser gorda a ser motivo de deboche pelos meninos da escola, por saberem que eu tinha ficado com um menino do colégio. Cresci acreditando que eu era a pessoa mais feia do mundo e a mais obesa”.

Com isso, a modelo conta que desencadeou nela sérios problemas de ansiedade, a quase chegar a ser bulímica. “Por conta de ser sempre muito controlada, me segurei para não desenvolver a doença. Nunca fui de me alimentar muito mal, mas a ansiedade me fazia repetir um prato três vezes e meu maior problema era com o refrigerante, que substituía a água. Na adolescência eu não era muito gorda e fazia muito exercício, mas encorpei muito cedo e as pessoas me viam como uma criança gorda. Depois das crises ansiosas, comecei a ganhar mais peso”, descreveu.

Por sua experiência quando mais nova, Camilla dá um conselho aos pais que têm filhos acima do peso. “Fiquem atentos aos seus filhos, que podem estar sofrendo calados. Hoje vivemos uma época da comida processada, por serem rápidas e práticas. Assim, acabamos nos tornando doentes por conta de uma alimentação tão pobre em nutrientes, fazendo com que engordemos mais rápido. Precisamos olhar mais como crescemos para sermos saudáveis. Mas o principal é fazer com que seu filho acredite que ele não é menor que ninguém. Seja magro, seja gordo, seja de qualquer tipo, somos todos seres humanos e seres únicos. Não precisamos de padrão! Precisamos buscar nossa felicidade sem destruir nossa saúde”, aconselha.

Ela acredita que se tivesse conversado mais, se entendido melhor e controlado sua ansiedade, talvez não tivesse sofrido tanto, acreditando que ela era tudo o que lhe falavam. “Como mulher, já nessa minha fase madura, quero poder dizer que merecemos nos amar e deixar de nos envergonhar com o que os outros pensam sobre nosso tamanho. Temos de nos amar primeiro. Nunca estaremos satisfeitas 100% com a gente, entretanto, precisamos ter um olhar amoroso para como somos. Hoje me olho no espelho e custo a me ver feia. Me sinto feliz com minha aparência e também me sinto feliz de ser como sou. Espero sempre poder ajudar as pessoas que passaram o que passei a verem que podemos sim, sermos bem resolvidos”.

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