Vanilla

Na Divisa dos Ventos

Nelson Junior

04/07/2016 às 16:37 - Atualizado em 04/07/2016 às 17:02

Um dos pontos mais altos do Sudoeste fica na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. É o Morro Divisor dos Ventos, um lugar onde atletas desafiam seus limites, e que serve de mirante para paisagens surpreendentes

Helmuth Kühl
Ciclistas do Quebra-Freio Bike Clube. Madrugando para ver o nascer do sol

Eram quase 3h30 de uma madrugada amena quando o grupo de ciclistas se encontrou na praça Presidente Vargas, no centro de Pato Branco, que não estava vazia, apesar do horário. Para os jovens que circulavam por ali ainda era noite de sábado.

Alguns deles olhavam curiosos para os rapazes de uniforme amarelo, capacetes e bikes equipadas, provavelmente se perguntando se não haveria um horário melhor para andar de bicicleta.

Não havia. Os integrantes do Quebra-Freio Bike Clube, grupo de ciclistas de aventura de Pato Branco, estava ensaiando há tempos aquele encontro, adiado algumas vezes por conta do clima. Acostumados a pedalar por rodovias e estradas rurais, o grupo se propôs a realizar um desafio inédito, subir o Morro Divisor dos Ventos, que fica na divisa entre os municípios de Vitorino e Jupiá.

Na verdade, inédita seria a recompensa, pois vários deles já haviam feito a subida. Nenhum, porém, havia visto o nascer do sol lá de cima. Com 1.093 metros de altitude, o Morro possui uma das vistas mais privilegiadas da região, sobretudo no nascer e pôr do sol, o que justifica sua fama entre praticantes de esportes, grupos de amigos e curiosos.

De lá é possível ver ao longe lavouras de soja, trigo, milho, pinus, criações de gado e cidades. Durante o dia, é fácil identificar Pato Branco e Vitorino, no Paraná, São Lourenço do Oeste e Jupiá, em Santa Catarina.

Em noites de lua cheia, 18 cidades são visíveis do alto do morro, diz Careca Balbinotti, “proprietário” de metade dele. “Em uma noite boa dá para ver até uma torre de Chapecó”, garante.

Desde o início dos anos 2000, Careca e dois amigos são proprietários de uma área de terra que inclui a face catarinense do Morro Divisor, mas sua relação com o lugar é um pouco mais antiga.

Careca é praticante de parapente desde 1996, esporte onde se realiza voos livres a partir do chão com um tipo específico de paraquedas. Poucos lugares na região têm condições tão favoráveis para a prática quanto o morro, o que justificou o investimento. “O terreno precisa ter um desnível. Quanto mais alto, mais alto você voará”, completa.

João Paulo Petralha
Avião fotografado a partir do topo do morro

Segundo o site Guia 4 Ventos Brasil, que lista rampas de parapente pelo Brasil, o desnível do morro é de 300 metros, e há espaço para até quatro decolagens simultâneas. O fácil acesso, e a possibilidade de voo o ano todo são pontos positivos na avaliação da página.

Trecho

26° 20’ 48.224”S 52° 43’ 37.571”W. Esse é o endereço do Morro Divisor dos Ventos. Ele fica a cerca de 30 km do centro de Pato Branco, pela Avenida Tupi, sentido zona sul, cruzando o trevo da Patrolinha e seguindo pelo bairro Encruzilhada.

A maior parte do caminho é feito por estradas rurais em bom estado de conservação, mesmo para veículos de passeio. A partir da base há dois acessos ao cume, pelo lado paranaense e catarinense, ambos em propriedades privadas.

O lado catarinense é o mais acessado, e também o mais íngreme. Da base até o cume há dois trechos inclinados, que apesar de serem acessíveis de carro, são excelentes para uma caminhada, pois a vista só melhora.

No fim do primeiro trecho fica a entrada de uma espécie de sede do Clube de Voo Livre Divisor dos Ventos, uma cabana usada como QG pelos praticantes de parapente. O grupo é formado por cerca de 20 membros, sendo um deles, Careca Balbinotti.

Careca Balbinotti
Decolagem de Parapente do Morro Divisor dos Ventos

O local já recebeu eventos da modalidade, como um campeonato sul brasileiro, que reuniu mais de 50 pilotos e atraiu aproximadamente 500 curiosos.

Careca, que já saltou de várias rampas no Brasil, América Latina e Europa, conta que com clima favorável é possível ficar até 3 horas no ar, atingir cerca de 2000 metros de altitude e percorrer até 80 km de distância. Ele, porém, prefere ficar nas redondezas, já que encara o esporte como lazer. “Gosto de voar, descer, e confraternizar”, resume.

Praticantes de parapente e ciclistas não são os únicos atletas fãs do Morro Divisor. Há quem se proponha a chegar até lá caminhando, a partir de Pato Branco.

O grupo Ecolducks é formado por entusiastas de passeios a pé. Regularmente eles se encontram para fazer caminhadas de longas distâncias, seja na área urbana ou por estradas rurais. De acordo com Fábio Forselini, fundador e coordenador do grupo, o Ecolducks já reuniu cerca de 120 caminhantes em um passeio até o morro divisor. Foram 24 km de caminhada.

André Almeida
A vista

Adilson Paulo, professor de Educação Física, também costuma organizar passeios até o morro com os alunos de sua academia. Ele conta que o grupo segue de carro até um ponto próximo ao pé de morro, e segue caminhando por cerca de uma hora até o topo. A intenção é inserir pessoas em atividades de caminhada, usando o trajeto e a vista como motivadores.

Mas o maior fluxo de visitantes parece ser mesmo o de pessoas em busca de um pôr do sol inesquecível. Pululam pelas redes sociais imagens de amigos, familiares e casais deslumbrados com a vista lá de cima.

Antes de escolher onde fariam seu book fotográfico, o casal Ana Paula Azevedo de Almeida Rocha e Ricardo de Almeida Rocha só conheciam o Morro Divisor pelas fotos de amigos que subiam ao topo para ver o crepúsculo. Foi o suficiente para que eles decidissem fazer o mesmo. “Nós gostamos do lugar. Falamos com a fotógrafa, e ela topou”, conta.

Carina Pelegrini/Se Encante
Ana Paula e Ricardo escolheram o morro para seu book fotográfico

De madrugada, a penumbra e o vento criam uma sensação gelada de isolamento, quebrada apenas pelos faróis das bicicletas. Foram cerca de três horas de percurso até chegar à base do lado catarinense do morro, entre subidas, paradas estratégicas, e descidas aceleradas pelos caminhos de cascalho.

A companhia era o céu estrelado, bem mais nítido sem a iluminação pública, e os cães que protegiam algumas entradas de propriedades rurais.

André Almeida, vice-presidente do Quebra-Freio Bike Clube, conta que o objetivo do pedal não foi apenas conferir a vista. “Esse tipo de percurso é feito para superar seus próprios limites. E a sensação de chegar ao fim é indescritível”. Esse fim, porém, foi a praça Presidente Vargas, pois o grupo retornou à Pato Branco pedalando.Para o ciclista Maurício Cesar da Silva, que já havia subido o morro de bicicleta, o trecho mais difícil são as subidas finais, por conta da inclinação do terreno. Mas o esforço, segundo ele, vale a pena. “A sensação de chegar lá é ótima”, acrescenta.

No topo, a temperatura caiu e o vento era bastante intenso, a ponto de derrubar os tripés da equipe de fotografia. O GPS da equipe de ciclismo marcou 15 ºC, mas a sensação térmica com certeza era menor.

A icônica torre de metal que identifica o morro não possui equipamentos de meteorologia, apenas de rádio amador e sinal de internet. Careca Balbinotti conta, porém, que já aferiu ventos de mais de 100 km/h e voou com temperaturas de – 2 ºC.

O último ciclista terminou a subida por volta das 6h40, ainda a tempo de ver o sol nascendo. A luz, que ilumina aos poucos as cidades cercadas pelo verde, mostra que do alto do Morro Divisor todos são pequenos.

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