Vanilla

Mecânico de foles

Nelson Junior

05/07/2016 às 17:27 - Atualizado em 05/07/2016 às 17:51

Superafinação de Acordeons por Números, medindo a Frequência de Oscilação das vozes, Notas padronizadas, Ampla harmonia. É com esse acróstico publicitário que Antonio Viater vende seus serviços.

Helmuth Kühl
Viater, em sua oficina

O anúncio está em seus cartões de visita e pendurado na entrada do antigo prédio onde fica sua oficina, na esquina entre a rua Tapir e a Avenida Tupi, no centro de Pato Branco. Parece faltar espaço para tantas lembranças e ferramentas.

Na sala há várias bancadas, todas cheias de peças, gavetas com componentes, aparelhos eletrônicos, um rádio e um gato, que perambula entre tudo isso. As paredes são forradas de calendários, fotos, cartazes de bandas de baile e pôsteres do Santos Futebol Clube.

Mas o que salta aos olhos são os vários – e bonitos – acordeons que estão por ali. Consertá-los é o ganha pão de seu Antônio, que aos 72 anos de idade passa os dias desmontando e descobrindo defeitos no sistema de peças que compõem o instrumento.

A profissão alia duas de suas habilidades, a de músico e a de entendido em eletrônica e trabalhos manuais. Nascido no interior de Campos Novos, Santa Catarina, Antônio passou a infância rodeado pela música dos irmãos, que tocavam violão, cavaquinho e outros instrumentos. Ele, porém, se interessou pelos foles.

Comprou o primeiro acordeom aos 16 anos, um exemplar que precisava de reparos.  “O dono vendeu por um preço menor, porque ela havia pegado umidade. Sempre tive habilidade manual, e contava com isso para consertar a gaita”, lembra. Aprendeu a tocar com um amigo músico, e nunca mais parou.

Em 1964, então com 21 anos de idade, trocou o trabalho nas serrarias catarinenses pelas do Paraná, e passou a sobreviver dirigindo caminhões de tora no próspero ciclo da madeira que havia pelas bandas de Pato Branco.

Eletrônica

Assim como a música, seu Antônio também aprendeu eletrônica praticamente por conta própria. Depois de largar a boleia, ele passou a estudar o assunto em cursos por correspondência, que ensinavam a montar rádios e outros aparelhos.

Helmuth Kühl
Auxiliar?

Um deles ensinava a fabricar um teclado, mas Antônio usou as técnicas para construir algo novo, um equipamento para afinar gaitas a partir de circuitos eletrônicos.

Se trata de um fole, acionado por um pedal e ligado a um computador. Com o sistema, Antônio consegue verificar individualmente se as palhetas de um acordeom estão afinadas.

Apesar de reparar acordeons desde que comprou seu primeiro instrumento, Antônio passou a consertar para fora a partir de 1999. Até então, sua atividade principal era a de técnico em eletrônica e informática.

Segundo ele, nessa época o instrumento estava sendo redescoberto. Muitas bandas usavam o teclado para emular o som do acordeom, o que tirou o trabalho de muitos gaiteiros. “Só que não há circuito eletrônico que substitua o efeito do fole. Por isso as gaitas voltaram”, analisa.

Defeitos

Notas que não soam como deveriam são o principal problema na oficina de seu Antônio. Teclas que enroscam, não abrem, enfim, que não funcionam são outro problema comum.

Ele até fabrica teclas novas com peças plásticas de computador, mas sua especialidade é recondicionar acordeons. Isso significa desmontá-lo, peça por peça, verificar a afinação, resolver o que for preciso e montar novamente.

Helmuth Kühl
Na mesa, é possível ver a armação de madeira para as palhetas

Um mês, é a duração média do serviço completo. Cerca de duas semanas são necessárias apenas para o teste, pois até grãos de poeira podem interferir no resultado do conserto. O teste consiste em sentar e tocar, algo que seu Antônio faz com prazer.

Enquanto mostrava parte de sua coleção de acordeons, ele tirou palhinhas de todas. Apesar de sua expertise e engenhosidade, é fácil saber qual fase do processo é a favorita de seu Antônio.

Por dentro

Basicamente, um acordeom é formado por duas caixas de ressonância, ligadas por um fole de papelão. A caixa da direita possui um teclado de botões ou piano, dependendo do tipo do instrumento, a e caixa esquerda de botões, também chamados de baixos.

Dentro de ambas as caixas existem armações de madeira, que servem de suporte para as palhetas, uma peça formada de tiras de couro e aço, que vibra gerando uma nota. O ar do fole passa pelas palhetas correspondentes as teclas e botões acionados, e assim a música surge.

Helmuth Kühl
Uma palheta de acordeon

Segundo Antônio, os acordeons mais completos podem ter mais de 400 palhetas. “É um dos instrumentos mais completos que existem”, afirma. Aliás, acordeom é o nome universal do instrumento, que também é chamado de sanfona e gaita em diferentes regiões do Brasil.


A máquina

Afinar, ou melhor, recondicionar um acordeom é trabalhoso. Antônio enfileira as palhetas do instrumento e verifica uma a uma em seu equipamento, criado para verificar a afinação de forma eletrônica.Ele conta que o método mais tradicional é o de comparação, pelo ouvido mesmo. Porém, diferenças de temperatura podem afetar os materiais da palheta e interferir no som. “Afinar de manhã ou à noite pode dar diferença”, completa.

Helmuth Kühl
O inventor e sua máquina

Problema que não existe para os computadores. O aparelho criado por Antônio consiste basicamente de um fole, um pedal e um computador, que consegue verificar com mais precisão a frequência do som emitido pela palheta. Os ajustes são feitos raspando a tira de aço com uma espécie de lixa. Sujeira e ferrugem, são alguns dos fatores que desafinam acordeons.

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