Vanilla

Bytes Viciantes

Nelson Junior

04/07/2016 às 16:05 - Atualizado em 04/07/2016 às 16:08

Quando o mundo virtual passa a ser mais atraente do que o real, é sinal de que algo pode estar errado. A internet e a tecnologia facilitam cada vez mais a vida das pessoas, e também são pivôs de um tipo recente de dependência, a digital

Marcos Mesa Sam Wordley/Shutterstock

 

A aposentada Isabel, 54, esteve internada em uma clínica para dependentes químicos. Por conta de seu vício, passava noites em claro, se alimentava de bolachas, salgadinhos e outras comidas rápidas, deixava de lado compromissos importantes, praticamente esqueceu de ir ao médico, ao dentista, e confessa já ter deixado de tomar banho.

Apesar de ter se tratado em um espaço que recebe pessoas que têm a vida prejudicada pelo consumo de drogas, Isabel sofria de uma compulsão menos tangível: o vício em internet. No seu caso, mais especificamente em um jogo on-line.

Evoluir personagens e completar missões deixou de ser uma diversão e passou a ser um tormento para a aposentada que contou sua história em uma reportagem exibida pelo programa Domingo Espetacular, da Rede Record. Ela diz ter criado uma bolha em torno de si, do smartphone e do computador. “Estava tão isolada que não conseguia conversar direito com as pessoas”, declarou ao programa.

No tratamento sentiu efeitos da abstinência semelhantes ao de usuários de algumas drogas, como quedas de pressão, ansiedade e suor nas mãos.

A cozinheira Lucélia, 27, outra personagem da reportagem, também precisou de tratamento depois de perder o emprego e o marido por trocar o mundo real pelas salas de bate-papo e redes sociais. Ela conta que não conseguia esperar um minuto para responder uma mensagem. Hoje, seu tempo em frente ao computador se resume há 30 minutos por dia, e nada de smartphones.

Histórias de compulsões patológicas ligadas à tecnologia parecem estar bem distantes. Só parecem. O assunto é bastante recente e ainda está sendo estudado com mais profundidade, mas de acordo com a médica psiquiatra Valéria Azevedo, casos de ansiedade, depressão e até vícios relacionados à tecnologia estão acontecendo.

Segundo ela, ainda não há uma nomenclatura técnica oficial para a dependência digital, já que o comportamento ainda não está catalogado como transtorno nos anais psiquiátricos. Tampouco existem números confiáveis que mostram a real abrangência do problema na população. Uma pesquisa feita pela consultoria ATKearney, porém, dá brechas para especulação.

De acordo com matéria publicada no portal ClicRBS, o estudo mostrou que 21% dos usuários de internet no Brasil acessam a rede mais de dez vezes ao dia, o que coloca o país no topo de uma lista que inclui outros nove países. A maior parte do tempo é destinada a redes sociais. O texto é do fim de 2014.

Qual é o limite?

Mesmo com poucas certezas, psicólogos e psiquiatras do mundo todo já conseguem perceber algumas características dos dependentes tecnológicos, e algumas parecem não ser tão diferentes das de outras dependências. Valéria explica, portanto, que a culpada não é necessariamente a tecnologia.

Fazer uma maratona de jogos no fim de semana não é um problema. O perigo, explica Valéria, é quando o hábito de estar on-line interfere em outros aspectos da vida. Ou seja, quando o interesse no virtual passa a ser maior do que no real, o que acaba afetando o rendimento escolar, o trabalho, e prejudicando o envolvimento com os amigos e a família.

“Há cientistas estudando essa área, e percebendo um incremento no sistema da dopamina, que é o neurotransmissor responsável pelo prazer. Como em qualquer quadro de dependência, para ter o mesmo prazer é preciso aumentar a dose, ou aumentar o número de horas”, diz a psiquiatra.

Os dependentes costumam ter muita dificuldade em diminuir ou mesmo interromper o uso, seja da tecnologia, ou do álcool, por exemplo, podendo apresentar quadros de irritabilidade, choro, melancolia e até depressão quando são privados de seus vícios.

Apesar de as consequências serem muitas vezes semelhantes, as predisposições a dependências podem ser diferentes. No caso do álcool, por exemplo, Valéria explica que fatores genéticos podem influenciar em uma possível dependência.

Quanto à dependência digital, os poucos estudos ainda não permitem traçar perfis mais precisos quanto à predisposição. Há indícios, porém, de que pessoas que sofrem de fobia social, que são excessivamente tímidas, e jovens com déficit de atenção podem ser mais vulneráveis.

Timeline ideal

O mundo conectado por redes virtuais também está afetando de outras formas a saúde mental de muita gente. “Para exportação, todo mundo é perfeito”, diz Valéria, sobre o que costumamos compartilhar em redes sociais.

Na timeline do Facebook ninguém tem defeitos ou problemas, e por comparação, algumas pessoas tendem a achar que são menos felizes, menos “perfeitos”. “Todos têm problemas e defeitos. Então é preciso saber filtrar um pouco, questionar o que se vê. Até porque nem todos que estão ali são amigos de verdade”, argumenta a psiquiatra.

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