Vanilla

A Ilha

Cristiane Sabadin Tomasi

09/05/2016 às 11:40 - Atualizado em 10/05/2016 às 14:31

Sabe aquele filme “A praia”, onde o protagonista Leonardo DiCaprio encontra um lugar paradisíaco? Pois é. No Sudoeste, nós temos o Recanto do Carletto. Não é uma ilha qualquer, é sim, a ilha dos encantos

Helmuth Kühl
A Ilha do rio Chopim

Quando ainda morava em Francisco Beltrão, meus amigos falavam do Recanto do Carletto. Ao chegar em Pato Branco, os meses se passaram, e, como ser mais urbano que sou, fui conhecendo a cidade. Mas o recanto ficou guardado na lembrança. Certo dia, numa reunião da revista Vanilla, não é que o editor chefe, Nelson Junior, sugere uma pauta sobre o Carletto. Era a chance de conhecer o lugar.

A recepção

Chegar até o Recanto do Carletto é fácil, basta seguir a rua Itabira, rumo a Comunidade de São João Batista. Boa parte da estrada é de calçamento. O lugar se aproxima cada vez mais quando se cruza a ponte, divisa entre as cidades de Pato Branco e Clevelândia. Aos poucos, já se pode ver algumas quedas. Lá do alto, uma rápida parada para apreciar a famosa “ilha”.

A poucos metros adiante – depois de rodar uns 20 km do centro de Pato Branco até o interior - se avista uma casa de madeira. Na varanda, um senhor comia melancia e conversava com um casal de amigos. Eu, que não conhecia o proprietário, cheguei perguntando: “Seu Carletto se encontra, marquei uma entrevista?”. Ele logo deixa a melancia de lado e nos convida para sentar. “Sou eu mesmo!”

Ciro Carleto, 61 anos, nasceu no interior de Clevelândia. Na década de 50, a região era apenas capoeira. A ilha era tomada pelo matagal. O local em que a família construiu sua história pertence a Clevelândia – de um lado está Pato Branco e do outro, Honório Serpa. Seu Carletto conta que o recanto, no fundo, fica nestes três municípios, mas garante que os grandes frequentadores são os pato-branquenses.

Na juventude, Carletto conhecia o território, porque pescava duas ou três vezes por verão com os familiares. Seguindo o exemplo do vizinho, que mantinha uma área de lazer, veio o estalo: “Se arrumar aquele lugar, fica bom”. E foi assim que o empreendimento surgiu. “Me mudei para cá no dia 30 de março”.

Da natureza abundante

O balneário Recanto do Carletto é uma ilha no Rio Chopim, que como já citamos, faz divisa com três municípios. Sabe-se que o Chopim é o maior rio da região, e é muito utilizado para atividade de recreação, sendo ainda o principal afluente da margem esquerda do rio Iguaçu.

Segundo Carletto, toda a área tem 4.4 hectares. Só a ilha tem 28.054 metros quadrados de extensão. O proprietário solicitou licenças ambientais ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP), e investiu em estrutura. “A licença me dá a garantia de uso, mas também tenho o dever de preservar a área. Não se pode derrubar as árvores, não posso construir. A única construção é minha casa, na entrada do recanto. Aqui tenho algumas bebidas de lata e sorvete”.

Helmuth Kühl
Algumas das várias quedas d´água do recanto

Na ilha, seu Carletto colocou bois (que ajudaram a baixar o mato), construiu churrasqueiras, um campo de futebol, instalou luz e água, banheiros e abriu a porta para os visitantes em 1996. Num caderno anota o nome das espécies de árvore que conhece; já contou cerca de 40.

Cenário especial

Depois da conversa, seu Carletto nos convidou para conhecer a ilha. A travessia de 101 metros, feita com barco, foi conduzida pelo proprietário – mesmo procedimento é feito com os visitantes que costumam lotar o recanto nos fins de semana; é seu Carletto e os filhos que ajudam na travessia.

Naquele dia, depois de uma semana chuvosa, o rio estava cheio. Em dias normais, é possível ver as pedras e atravessar de um lado para o outro. “Mas hoje não”, reforça. Neste trecho, a média de profundidade é de seis metros. O que realmente chama a atenção no lugar são as mais de 500 quedas d´água. Algumas pequenas, outras majestosas. Para o proprietário, o grande diferencial do lugar. “Já fui a outras áreas de lazer, mas é tudo água parada, se torna uma grande piscina. Nas cachoeiras não. A água corre, e a sensação é outra”.

Fotografias e lembranças

Até hoje, 51 mulheres escolheram a ilha do Carletto para registrar as fotos de noiva. Algumas, mais ousadas, escolhem o trash the dress, e jogaram o vestido nas águas do recanto.

Helmuth Kühl
Ciro Carletto, sua neta e sua ilha

Mas a maioria dos visitantes vai para curtir o dia. Passam o sábado ou o domingo longe da correria da cidade. Antes de entrar na ilha, as pessoas assinam um termo de responsabilidade e se comprometem com algumas regras: nada de som alto, apenas cães de pequeno porte e ao entrar no rio, apenas com colete salva-vidas.

Diversão interrompida

Seja por fatalidade ou imprudência, a água do Rio Chopim já afogou muitos sonhos, e no Carletto foram quatro mortes.

O primeiro acidente foi em agosto de 1999. Um grupo de amigos pegou barcos no local, sem o consentimento do proprietário, que naquele domingo havia saído com a família. Subiram rio acima. Um dos jovens teve um mal súbito, e caiu numa profundidade de 12 metros.

O outro foi em 2007. Havia umas 150 pessoas na ilha. Cinco jovens chegaram. Seu Carletto conta que um foi atravessar o rio, sem colete – o que é proibido. Chegou à metade e quis voltar. Foi então que pediu por socorro, já era tarde. Um dos amigos percebeu o problema, e se jogou para tentar salvá-lo. Infelizmente, os dois se afogaram.

O mais recente aconteceu em 2012, quando um rapaz foi ultrapassar por um dos canais, que fica em meio às quedas. Pisou em falso, e a correnteza o levou. Todos eram jovens, tinham entre 17 e 31 anos.

O sentimento de Carletto é de tristeza pelas vidas que se foram, mas diz que é preciso saber os limites que o lugar impõe. “Aqui há boias salva-vidas, com 25 metros de corda. Tudo à disposição dos visitantes, em casos de emergência. Nós temos treinamento dos bombeiros para ajudar quando necessário, mas é importante ter cuidado”.

Eu vou me aposentar e tenho um filho que ainda mora comigo, o outro filho casou e está morando em outra propriedade, e nossa vocação é ficar no interior. Na minha época não tinha estudo, fiquei na escola até a 5ª série. Naquele tempo os pais compravam terra, casavam os filhos e ficavam todos trabalhando. Eu vou me aposentar em setembro e disse a meus filhos: ou eu vendo isso aqui ou alugo. E todos me disseram: você não é doido Carletto, nós estamos acostumados com você.

História preservada

Casado, pais de dois filhos e avô de duas netas, Ciro Carletto diz que não pretende se desfazer da propriedade. Quando jovem, até tentou sair do campo e estudar na cidade. Na época, foi para Palmas. Mas seu pai logo o quis na propriedade, para ajudar na lida diária. “Estou tão acostumado, que só vou para a cidade para buscar o que precisamos”.

Helmuth Kühl
Carletto, na travessia de barco até o recanto

Durante a semana, quando o recanto é habitado apenas pela família e pelos bichos que vivem pelas redondezas, seu Carletto aproveita para curtir um de seus hobbies, a gaita. E como brinca, não poderia escolher horário melhor para a cantoria: “Tenho uma gaita para incomodar a mulher bem na hora da novela. Daí vem aquela pancadinha na parede ‘mais baixo isso aí’”, sorri.

E é possível viver tão próximo da natureza e distante da tecnologia. O aparelho celular pega no recanto, mas tem que ir num ponto estratégico se quiser fazer ligações. Na casa de madeira, construída pelo dono, há um telefone; um sem fio que funciona até no meio da ilha. “Viu só, não estamos totalmente isolados do mundo”, brinca.

Os cavalos

Os animais estão ali desde o início, são mansos e ajudam na manutenção. São eles que comem a grama e a deixam sempre aparada, diz o proprietário. Mas se os visitantes derem bobeira, são eles também que comem a comida das barracas. “Eles abrem as mochilas com os dentes e comem tudo que encontram: pão, bolacha, melancia”.

Helmuth Kühl
Os habitantes da ilha

A boa notícia

Assim que falei a alguns amigos que iria fazer a reportagem no recanto, logo solicitaram: “peça a ele se vai mesmo alagar”. Como assim, alagar? Pois é. A informação é que seria feita uma usina nas proximidades, e consequentemente, o Carletto ficaria submerso; mais especificamente, a ilha. Mas de acordo com o proprietário, o paraíso está garantido. O local onde será feita a barragem não atingirá a ilha, e, portanto, não há risco do Carletto ficar submerso.

A ilha
Sabe aquele filme “A praia”, onde o protagonista Leonardo DiCaprio encontra um lugar paradisíaco? Pois é. No Sudoeste, nós temos o Recanto do Carletto. Não é uma ilha qualquer, é sim, a ilha dos encantos.

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