Vanilla

A arte da tradição

Nelson Junior

22/03/2016 às 11:24 - Atualizado em 22/03/2016 às 12:02

Visitamos o maior festival paranaense de arte tradicionalista, e conhecemos os bastidores da dança, uma das modalidades mais disputadas

Helmuth Kühl
Dançar, cantar e interpretar

“Quem vai chorar? Quem vai sorrir? Quem vai ficar? Quem vai partir?”. Demorou até que a ficha caísse, e eu percebesse que se tratava de Trem das Sete. O arranjo campeiro, com acordeom, violão e o vocal masculino imponente, vestiu a canção de Raul Seixas de tradicionalismo gaúcho e causou estranhamento em quem só a conhecia no contexto roqueiro.

Enquanto o grupo de músicos trabalhava, casais pilchados cantavam em torno da réplica de um trem, incentivados pelo público que assistia à performance em um dos pavilhões do Centro Regional de Eventos de Pato Branco.

A música seguiu falando de saudade, enquanto os casais executavam movimentos de dança, subiam e desciam do trem, cantavam e interpretavam, demonstrando um sentimento mais nostálgico do que doloroso. Ali ninguém era dançarino profissional, ou ganharia um cachê pela apresentação. Para eles a motivação é o amor ao tradicionalismo.

Em dezembro passado, Pato Branco foi sede do 26º Festival Paranaense de Arte e Tradição, o Fepart, um dos principais eventos de celebração à cultura tradicionalista do estado.

Foram três dias em que por todos os lados do centro de eventos se via gente vestindo trajes típicos, tomando mate, ensaiando, preparando figurinos, acessórios e maquiagens.

Helmuth Kühl
Coreografias que contam histórias

No evento esteve a elite da arte tradicionalista do Paraná, representando 38 CTGs de diversas cidades. O Fepart é o último evento de um circuito classificatório que peneira os melhores artistas em categorias como declamação de poesia, performance instrumental, solista vocal, entre outras.

Apesar da diversidade do evento, poucas categorias são tão disputadas quanto a “danças gaúchas de salão”, e a complexidade das performances é uma prova disso. Em menos de duas horas surgiram nos tablados um navio, encenações de batalhas, árvores e até um mercadinho, com salames pendurados e tudo o mais.

Cada apresentação é um espetáculo que se utiliza da moda, do teatro, da cenografia e da dança para contar uma história. “Tudo começa com uma pesquisa”, conta William Ferreira, coreógrafo do CTG Os Birivas, de União da Vitória.

Ferreira e seu grupo levaram ao Fepart uma coreografia que ilustra a história da colonização de União da Vitória. Na apresentação apareceu um livro, a bandeira do município e uma réplica de trem, simbolizando a estrada de ferro que levou os gaúchos citadinos à região, estes que também inspiraram os trajes usados pelos homens. Ao invés da bota e da bombacha, um figurino clássico do século 19, composto por ternos, sapatos, chapéus e relógios de bolso.

O grupo participou da disputa na categoria adulto, mas dançarinos de várias idades participam da competição. Assim como as demais modalidades, a dança é classificada nas categorias mirim, juvenil, adulta, veterana e xiru, de acordo com a idade dos participantes.

“Com cinco anos de idade as crianças já começam a dançar, e a partir dos sete já passam a integrar a invernada mirim”, explica Márcia Dalbosco, diretora artística do CTG Charrua, de Foz do Iguaçu. Quando conversou com Vanilla, Márcia cuidava dos preparativos para a entrada das invernadas mirim e juvenil, que apresentaram coreografias sobre o laço, as bandeiras e lenços farroupilhas. Segundo ela, não são raros os casos de pessoas que começam na mirim e vão até a adulta.

Helmuth Kühl
Danças são criadas com repertório histórico

Márcia entrou no movimento tradicionalista há cerca de quatro anos, a convite de uma amiga. Ela conta que a atividade exige sacrifícios, pois a preparação para os eventos envolve não apenas as coreografias, mas também a confecção das roupas, acessórios e as formas de financiamento das viagens, já que praticamente todos os envolvidos são voluntários. “Eu vesti a camisa. Pois no CTG você forma uma família”.

Para Flávio Krassota, coordenador geral do Fepart em Pato Branco, o sentimento de união é um dos principais motivadores do encontro, que mais do que a competição, se propõe a promover a confraternização entre as famílias. Krassota é membro do CTG Carreteando a Saudade, organizador do evento no município, que contou com a coordenação do Movimento Tradicionalista Gaúcho do Paraná (MTG/PR). O Carreteando participou das danças com as invernadas mirim, juvenil adulto e veterano.

Bastidores

As coreografias apresentadas pelas invernadas duram cerca de 30 minutos, mas exigem meses de preparação. Zuleicler Zimello, integrante da invernada veterana do CTG Tarca Nativista – que dançou ao som de Trem das Sete, de Raul Seixas - conta que a preparação de uma performance pode durar até um ano, tempo médio da realização das várias etapas do circuito.

Os ensaios acontecem três vezes por semana, geralmente à noite, e em tempos de Fepart eles são diários. Pela experiência, a invernada veterana costuma receber uma carga um pouco maior de responsabilidade, e nenhum dançarino quer prejudicar a equipe. “Quem não estiver dançando bem pode ser cortado. Enquanto membro eu preciso entender que se eu não estiver dançando legal, posso comprometer o trabalho da equipe”, analisa.

Helmuth Kühl
Relógio de bolso. Figurinos cheios de detalhes

Zuleicler participa de invernadas há cerca de 12 anos. De família gaúcha, ela cresceu rodeada pelo tradicionalismo e viu os irmãos dançarem no CTG. Apesar da experiência, ela confessa ainda sentir um frio na barriga antes de entrar no tablado.

A preocupação faz sentido, pois apenas poucos décimos na nota final podem definir o vencedor. “A coreografia precisa ser a mais limpa possível, ou seja, sem erros, e precisa ser sincronizada”, completa Zuleicler. Vencer o Fepart nas danças também significa assegurar uma vaga no Fenart, o festival nacional de tradições gaúchas, cuja próxima edição acontecerá em 2017, no Mato Grosso.

Para levar o troféu, o grupo precisa conquistar a melhor nota num conjunto de avaliações que considera a correção coreográfica, harmonia, interpretação, música e traje.

Do alto da mesa de avaliação, os juízes pareciam insensíveis à beleza do espetáculo, sem deixar escapar sequer um sorrisinho. Mas a postura não significa indiferença, mas critério.De acordo com Rogério Pankievicz, patrão-presidente do MTG Paraná, a preparação dos avaliadores também é intensa, com estudos, congressos técnicos e encontros constantes.

Potência

A mobilização em torno do Fepart dá uma amostra do tamanho do movimento tradicionalista no Paraná. Segundo estimativas dos organizadores, cerca de 4000 pessoas circularam pelo evento.

Pankievicz conta que que o estado possui 300 CTGs cadastrados ao Movimento e cerca de 80 piquetes, uma espécie de subdepartamento que reúne principalmente adeptos das práticas campeiras. Mais da metade deles possui invernadas artísticas e campeiras em pleno funcionamento.

Helmuth Kühl
CTG Os Birivas, de União da Vitória, dançam sobre a colonização da cidade

“Modéstia à parte, podemos dizer que somos a segunda força brasileira com relação a parte artística”, avalia. Atrás, é claro, do Rio Grande do Sul, onde o incentivo e o suporte ao tradicionalismo é muito maior.

No cômputo geral, o CTG Querência Santa Mônica, de Colombo, foi o campeão do Fepart, seguido na classificação pelo Carreteando a Saudade, de Pato Branco. O Tarca Nativista ficou em quarto lugar.

O resultado é importante, mas parece que para artistas e organizadores o que mais importa é viver a tradição. “Dentro do tradicionalismo nós valorizamos a família. O intuito não é apenas competir, mas reunir famílias em uma confraternização”, resume Krassota.

Arte da Tradição - os bastidores do Fepart
Visitamos o maior festival paranaense de arte tradicionalista, e conhecemos os bastidores das invernadas de dança, uma das modalidades mais disputadas da competição.

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