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O que foi que você disse?

Mariana Salles

15/02/2016 às 15:19 - Atualizado em 15/02/2016 às 15:35

É, parece que entendemos tudo errado. A comunicação vem evoluindo a uma velocidade em que nós, humanos, não conseguimos acompanhar, resultando em uma dialética midiática preconceituosa e cruel

Há pouco menos de 20 anos, teríamos notícias da guerra criada pelo Estado Islâmico três ou quatro dias depois do acontecido apenas pelos maiores jornais brasileiros. Pequenas notinhas, com informações objetivas e imparciais, como o bom jornalismo deveria ser feito. No ataque ao World Trade Center, em 2001, acompanhamos imagens ao vivo pela TV e presenciamos olhares de pânico, os bombardeios a Bagdá, caçadas aos terroristas. No meio de novembro deste ano, quando a França foi atacada, todo mundo pôde dar a sua opinião, trocar a foto do perfil pela bandeira do país e usar uma hashtag para mostrar o quanto se comoveu com a tragédia. Alguém consegue perceber como as coisas mudaram? Talvez para o bem, talvez não.

Conforme o psicólogo e doutor em Psicologia Social e do Trabalho pela USP, atualmente professor de Psicologia na UTFPR de Pato Branco, Sergio Paes de Barros, as redes sociais, bem como a internet, carregavam a esperança de colocar em contato pessoas de todos os lugares, com todo tipo de visão, fomentando a diferença. “Mas o que se viu foi, muitas vezes, o contrário: as pessoas entrando em contato somente com aqueles que pensam igual a elas”. Infelizmente a realidade da rede é a união de quem está ou de um lado ou de outro. “Grupos de neonazistas, grupos de machistas, grupos de homofóbicos e assim por diante, de forma que, para os preconceituosos e extremistas, a internet, ao invés de trazer a diferença, trouxe a repetição de si, arraigando preconceitos”, diz.

Porém, apesar de demorar, o contra-movimento daqueles sujeitos alvos de preconceito começou a aparecer e a dar visibilidade aos grupos vítimas de opressão. “Atualmente, se algum professor fizer declarações machistas ou homofóbicas em uma rede social, por exemplo, ele será alvo de caloroso debate e questionamentos públicos, como temos visto ultimamente, o que é ótimo. Recentemente, o uso das redes sociais por grupos alvos de opressão tem demonstrado que as redes podem ser usadas para construir uma sociedade melhor”, acredita Sérgio.

Mas, no debate, não existe somente a réplica. É na tréplica que a pessoa confrontada mostra que ela não quer a conversa, mas sobrepor sua opinião custe o que custar, seja pedindo que a jornalista Maria Julia Coutinho “vá tomar um banho para tirar a cor preta” ou chamando uma criança que participava de um reality show de gostosa, a presidente Dilma Rousseff de vaca gorda, dizendo que nordestino não é gente, e que matá-los afogados seria um favor, ou fomentando leis que dizem que a família é constituída por um casal heterossexual e seus filhos ou que dificulta o aborto a mulheres vítimas de estupro, como é o caso dos recentes Estatuto da Família e o PL Nº 5.069/13, que diz respeito ao aborto.

Todos esses são assuntos muito sérios e estão na mídia diariamente. Como psicólogo social, Barros acredita que, independente de comentários preconceituosos, a imprensa deve debater, “mostrando exatamente isso: o debate. Que existem posições a favor e posições contra. No caso relativo ao aborto e à união homoafetiva, por exemplo, as posições a favor vêm de Conselhos Profissionais como o Conselho Federal da Psicologia entre outros, bem como institutos de saúde e de ciências, enquanto que as posições contra vêm, predominantemente, de entidades religiosas”, explica.

Aos meios de comunicação se reserva a missão de mostrar que o governo, numa democracia, é controlado pelo povo “e que, atualmente, temos duas grandes forças que influenciam: a ciência e a igreja. O silêncio da imprensa não seria imparcial, pois o silêncio ajuda a manter o que existe. O silêncio é, por natureza, conservador. Logo, como cientista, considero que o debate deve ser mostrado e fomentado”, se posiciona.

A advogada Zeila Plath Silva, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/PR - subseção Campo Largo, feminista e ex-vítima de violência doméstica, também acredita no poder da mídia para combater problemas intrinsecamente culturais. Para ela,

principalmente as campanhas televisivas auxiliam no combate, por exemplo, à violência de gênero, que é sua especialidade. “Elas nos ajudam bastante nas ações educativas, tanto no empoderamento das mulheres vítimas de violência, quanto como maneira de coação contra o possível e futuro agressor”, diz.

No entanto, ela avalia que a própria TV, que auxilia com campanhas educativas, acaba por incitar a violência de gênero. “São diversas as atrações televisivas que esteriotipam a mulher como objeto sexual. As mulheres são ‘coisificadas’, reforçando o estereótipo da mulher dependente, que tal como uma samambaia serve de enfeite. Até uma piada, por mais que pareça simples e boba, reforça a violência”, diz.

Assim também acontece com personagens de novela, como a empregada sempre negra, o bonitão burro, o malandro carioca, o baiano preguiçoso. Nos filmes, os muçulmanos retratados sempre como terroristas, os africanos mostrados com armas nas mãos ou como escravos. “Temos que combater a violência de todas as formas. Ninguém tem que se  ‘dar ao respeito’, ele já é nosso por direito. Temos que aprender a ter voz, gritarmos e exigirmos o que é nosso”, diz.

Para Zeila, abolir esse tipo de propaganda ou atrações não é censura, é uma tentativa de diminuir as injustiças arraigadas na nossa sociedade que é  culturalmente preconceituosa. Novamente especificando com sua área de atuação, ela exemplifica lembrando que ser feminista não é ser homossexual, não se depilar ou deixar de ter cuidados com o corpo. “Vimos muitos comentários do tipo ‘feminazi, gorda, baranga, lésbica. Não odiamos os homens e não queremos dominar o mundo, como dizem por aí”, afirma. “Mas a violência contra a mulher acontece porque alguns acreditam que somos inferiores, seja por compleição física ou psíquica. Como ouvi de uma testemunha de um dos casos que atendo:“Sou o macho alfa da relação, você deve me obedecer”. Outra que ouvimos com frequência é que a mulher mereceu ser estuprada. A vítima é culpabilizada por vestir determinados tipos de roupas ou andar por lugares onde não deveria. Como assim?”, comenta.

Desfazendo os personagens culturais

A principal contribuição da mídia, especialmente a imprensa, para ajudar a desconstruir essa guerra de lados que se iniciou nas redes sociais, seria ela própria ajudar a desfazer estereótipos, posiciona Barros. “Podemos dizer, de forma simplificada, que o estereótipo é um personagem cultural, como o do pobre preguiçoso ou do imigrante que rouba emprego”. Para o psicólogo, “a imprensa ajuda muito se contar a história sobre como pobres que trabalham mais de 40 horas por semana acabam por continuarem pobres, enquanto quem lucra com seu trabalho são seus patrões, ricos”. Sendo assim, contar a real história de como nosso meio é construído pode mostrar que muitos estereótipos são mentirosos, que naturalizam aquilo que não é natural, pois tratam como biológico aquilo que é histórico.

As pessoas que constroem identidades baseadas na negação ou na opressão de outras pessoas são uma barreira para se combater o preconceito. “Para alguém se considerar um superior, ele necessita que existam “seres inferiores”. Se uma hora ele descobrir que não existem seres inferiores, ele mesmo não será mais superior a ninguém. Por isso o preconceituoso, antes de tudo, é um medroso: tem medo de descobrir que suas ideias não correspondem ao real e buscam, muitas vezes, tentar eliminar aqueles com que não se identificam”, fala Barros.“Portanto, eu diria que a principal barreira na luta contra o preconceito é o medo que preconceituoso tem da própria realidade. Por isso noticiar, descrever, historicizar e debater a realidade é lutar contra o preconceito”, finaliza.

Estereótipos e o preconceito

Segundo Barros, é preciso ter em mente que existem diferentes atitudes e comportamentos ligados ao preconceito e que precisamos estar atentos às especificidades de cada caso. “Se eu colocar tudo ligado ao preconceito ‘no mesmo saco’, estarei estereotipando, generalizando indevidamente e, no final, acabo vendo a realidade de uma forma menos complexa do que ela é”, argumenta. Sendo assim, lidar com uma pessoa preconceituosa pode ser, a grosso modo, duas coisas diferentes. “Pode ser algo simples, por exemplo, quando uma pessoa aprendeu algo e não refletiu sobre isso e acaba reproduzindo uma ideia que não condiz com a realidade”.

Ele exemplifica citando um homem que passou a vida escutando, de sua cultura machista, que as mulheres não são boas motoristas. “Se ele aprendeu isso e acreditou, acaba reproduzindo esse pensamento, mas quando ele refletir ou prestar atenção nas motoristas mulheres perceberá que estava enganado e conseguirá mudar sua ideia preconcebida”, diz. Todos estamos passíveis de cometer um engano e, nesses casos, argumentar pode facilmente fazer a pessoa mudar sua ideia.

Porém, o sujeito preconceituoso pode ter a ideia preconcebida de forma muito mais arraigada em sua forma de pensar, o que dificulta argumentar. “Por exemplo, o homem que acredita que as mulheres são más motoristas e depende dessa ideia para se pensar como ‘homem que dirige bem’ e constituir sua identidade baseada na negação dessa habilidade nas mulheres. Ao ver uma mulher dirigindo bem, ele ficará, a princípio, com medo. Medo de perder uma crença que precisa, de que necessita, para acreditar que ele é quem ele acha que é”, explica.

Logo, nesses casos, segundo Barros, o preconceituoso vai lutar por manter a ideia preconceituosa e vai tentar negar a realidade. Para isso, o homem assim poderá dizer que aquela mulher que dirige bem não deve ser muito mulher, deve ser masculinizada. “Ou seja, o preconceituoso que precisa mentalmente, que luta pela manutenção das ideias em que crê, vai tentar a todo custo alterar a realidade para não ter que alterar sua ideia. Este sujeito que resiste à própria realidade muitas vezes acaba cansando quem tenta argumentar com ele, mas mesmo assim é importante argumentar, para que ele sinta que outras pessoas não estão com ele, não compartilham a mesma ideia”, fala.

Nesses casos, Barros acredita que passar pela experiência do preconceito é a melhor lição. Outra forma de combate ao preconceito é quebrar, dentro de casa, os tabus, ou seja, aqueles assuntos que os pais têm medo de falar, ficam com vergonha. “Filhos de pais preconceituosos tendem a reproduzir seus preconceitos, por isso os pais deveriam estar atentos e buscar lidar da maneira mais sincera possível com seus próprios medos e preconceitos.”

Publicidade politicamente correta

Nos anos 30, com narrativas envolventes, e com o pós-guerra, na década de 50, nasceu a consolidação da sociedade de consumo e, com ele, a publicidade. A TV impulsionou a criatividade, onde era possível explorar áudio e imagem. “Os anos de 1970 e 1980 foram décadas áureas, com muita criação e originalidade, pouco vista hoje em dia”, informa Scheila Schuchovski, publicitária responsável por uma agência de publicidade em Pato Branco.

O mercado maduro pediu mais criatividade, porque não bastava falar do produto, “mas dos benefícios, e quanto maior a concorrência, mais atributos e diferenciais devem ser explorados. Como atrair a atenção do público é a grande questão”, diz.
Mas se algum dia o galã do momento era um cara montado em um cavalo fumando um Marlboro, desse tempo já nem lembramos mais. Depois de um histórico de campanhas de gosto duvidoso — apesar de criativas, engraçadas e inteligentes, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) vem fechando o cerco para a divulgação de produtos que fazem mal à saúde, para a publicidade infantil e para tudo que brinca com qualquer tipo de violência social.

Reprodução
"Quer dizer que uma mulher pode abri-lo?”, diz o anúncio dos anos 50. Estereótipo reproduzido na mídia da época

“Não vejo campanhas incitando machismo, racismo ou violências estúpidas como essas, porém o bullying é praticamente parte da publicidade. Os estereótipos existem, e estão no ranking dos estudos de publicidades que funcionam. Publicidade precisa incomodar, causar um impacto ou um desconforto. Fazer pensar”, afirma Scheila. “Sou partidária de Oliviero Toscani, muito embora não goste do extremismo de sua agressividade. Mas concordo com ele no fato de que a publicidade deve trazer algo além, que não está todo dia na vida do seu cliente. Algo que some, que seja realmente útil ou que possa transcender e inspirar. Uma mensagem, um marco, um ombro amigo, enfim, um impacto. Por isso acho que a publicidade está muito chata.”

Quando a imprensa ajuda

A imprensa é grande aliada em casos de crimes que comovem a população, como o recente crime que tirou a vida da fisiculturista Renata Mugiatti, curitibana que foi morta pelo namorado, caso que inicialmente era tido como suicídio.

A irmã da vítima,Tina Gabriel, colocou a boca no trombone contra o agressor, e teve todo o apoio da mídia para isso. “A mídia ajudou a divulgar e, assim, as pessoas puderam entender e acompanhar o desenrolar dos fatos, chamando atenção, inclusive, para a violência doméstica, ilustrando e encorajando a população a se manifestar a respeito”, acredita.
O caso ainda está sendo acompanhado pelos advogados e seguindo os trâmites da lei.

“Espero que a verdade venha à tona para a sociedade e a justiça seja feita. Continuarei empenhada na divulgação do tema violência doméstica, fazendo o que estiver ao meu alcance para que todos saibam deste problema e, com isso, ajudem a socorrer as vítimas e a denunciar os agressores”, vislumbra.

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