Vanilla

O senhor dos robôs

Nelson Junior

10/11/2015 às 17:19 - Atualizado em 10/11/2015 às 18:32

Com papel, resina e sucata, o técnico em eletrônica Alexandre de Souza cria verdadeiras obras de arte tecnológicas. Computadores no formato de super-heróis e pequenos robôs são suas ferramentas na missão de mostrar que a tecnologia pode ser acessível a qualquer um

Helmuth Kühl
"Vai encarar?". Alexandre e seu Homem de Ferro

Alexandre Ferreira de Souza tem o porta aventais mais legal do mundo. No canto da cozinha da casa onde mora há pouco mais de três meses, no bairro Anchieta, em Pato Branco, está uma réplica de 1,84 metro de altura do Homem de Ferro, personagem dos quadrinhos da Marvel.

Com o braço direito erguido, como se fosse disparar a arma que fica na palma de sua mão, a estátua parece ameaçar quem surge na porta. Só não intimida os moradores, que usam os dedos da estátua para pendurar aventais, e já estão bem acostumados a dividir o teto com personagens de cinema, quadrinhos e seriados de TV.

Na casa, a mobília se mistura ainda a gabinetes de computador, peças eletrônicas, papelão, isopor, e outros materiais recicláveis, todas ferramentas de uma profissão difícil de resumir em uma palavra.

Formalmente, Alexandre estudou eletrônica em um curso técnico, mas seu trabalho é uma soma de artesanato, programação, robótica e ensino. Ele é o executor de um projeto que pretende mostrar a crianças da Rede Municipal de Ensino de Pato Branco que a tecnologia - mais precisamente a robótica -  não é coisa de filme de ficção científica.

Desde março passado, ele visita escolas ministrando o que chama de oficinas de chão, uma espécie de palestra onde apresenta o universo dos autômatos para estudantes de, em média, 10 anos de idade. Alexandre tem um auxiliar, Dalek, um robozinho da altura de um banquinho, réplica do personagem homônimo do seriado Doctor Who, fabricado com materiais que vão desde embalagens de Epocler a cascas de ovo.

Dalek derruba o primeiro mito. “Quando a criança vê um robô feito com materiais do dia a dia, ela percebe que também pode fabricar o seu”, explica Alexandre. Na segunda metade do encontro, que dura cerca de três horas, o grupo de alunos escolhe qual será a identidade do robô que fabricarão. Essa é a cartada final para que a criançada se apaixone de vez pelo assunto.

Helmuth Kühl
Alexandre, e alguns dos robôs feitos por crianças com sucata

Em casa, Alexandre guarda robozinhos em forma de personagens de filmes da Pixar, como Monstros S.A e Wall-E, e algumas criações originais, todos feitos em oficinas de chão. Eles são manipuláveis a partir de tablets e realizam movimentos simples, parecidos com o de carrinhos de controle remoto.

O projeto ainda contempla uma oficina maior, que acontece na biblioteca municipal e envolve atividades de robótica e criatividade. “Criatividade”, esta  é uma palavra que sempre fez a cabeça de Alexandre, que aos 41 anos de idade diz que mantém vivo um certo lado infantil. “Toda a criança é criativa, mas ela vai sendo podada à medida que se torna adulta. O segredo da criatividade é manter a criança viva”, afirma.

Foi por pensar assim que o especialista em eletrônica ficou famoso no meio geek, virou atração de eventos de tecnologia e foi até figurante de novela da Globo.

Cases monstruosos

O Homem de Ferro do início dessa matéria não é um robô, é um gabinete de computador, ou case, para os entendidos em informática. No seu tronco, atrás de uma placa móvel, ficam as peças que fazem o micro funcionar.

Lá no início do século 21, Alexandre estava pesquisando formas de organizar a bagunça que existia dentro dos gabinetes, e passou a achar que eles eram meio quadradões.

Inspirado pelo trabalho de artistas estrangeiros de modificação de cases ele decidiu fabricar o seu, em formato de cabeça de dragão, modelada em isopor, cuja boca cuspia o drive de CD. Apesar de gostar de trabalhos manuais, ele nunca participou de nenhum curso de artesanato e, portanto, nunca havia feito nada parecido. Resumindo: deu um trabalho do cão, e a intenção era... publicar e vender livros.

Ele explica: “na época, pensei em fazer um gabinete baseado no livro de RPG que eu escrevi. Eu queria divulgar o meu mundo, os meus personagens, para conseguir publicar o livro”.

A cabeça de dragão circulou em alguns eventos gerando relativa repercussão, mas foi em 2008, na primeira edição da Campus Party Brasil, hoje o maior evento de tecnologia do país, que as coisas engrenaram de vez. “Todo mundo adorou o gabinete. Percebi que ali era o lugar para mostrar meu trabalho”, lembra.

Helmuth Kühl
Do papel a resina. Três etapas da fabricação de um case

Ele voltou a Campus Party com três novos gabinetes na forma dos personagens de Calíope, seu livro. Eram três monstros, sendo um dragão. Quando um jornalista chamou o dragão de cobra, Alexandre percebeu que precisava criar personagens ainda mais reconhecíveis, e assim nasceu o Homem de Ferro.

Foi batata. Seu estande passou a fazer ainda mais sucesso, assim como sua empresa, a Case Monstro, pela qual dava palestras e oficinas em eventos de tecnologia, como o Tecsul, em 2012, ocasião em que ele pisou pela primeira vez em Pato Branco.

Papel e resina

Apesar da riqueza de detalhes e do capricho de suas peças, Alexandre nunca viveu de vender gabinetes. Sua única venda foi para um cliente ilustre.

Por telefone, alguém encomendou cinco robôs. Era da produção da novela Geração Brasil, que foi ao ar pela Rede Globo em 2014. Nela, Murilo Benício interpretou um gênio da informática. Alexandre conseguiu até uma pontinha na trama.

No começo, os gabinetes eram modelados em arame, jornal e papel machê, mas depois o artesão descobriu as dobraduras em papel. Hoje o trabalho começa no computador, em um software de modelagem 3D. Outro software cria as dobraduras, e a partir daí Alexandre as reproduz no papel.

Cada peça pode levar de 150 a 300 folhas. Elas são criadas por partes, como cabeça, pescoço e ombros, que recebem camadas de resina por fora e fibra de vidro por dentro. 
São semanas de trabalho. Em seu atelier, já estão ganhando forma dois novos personagens: War Machine, dos gibis do Homem de Ferro, e Gundam Freedom, robô gigante do anime Gundam.

Os robozinhos fabricados nas escolas levam menos tempo para ficar prontos, e são bem mais leves – o Homem de Ferro pesa cerca de 50 kg. Eles são uma das atrações da Rua do Lazer, projeto itinerante da prefeitura que percorre os bairros de Pato Branco.

Missão

Depois do Tecsul, Alexandre, seus cases e robôs passaram a ser figurinha carimbada nos eventos de tecnologia da cidade, como a Inventum, feira setorial de ciência e tecnologia. A aproximação rendeu a mudança para Pato Branco.

Ele parece encarar o seu trabalho com as crianças como uma espécie de missão. “Eu trabalhava na roça, meu berço é simples, e mais de 30 anos depois eu faço o que faço. Imagine então o que essas crianças farão no futuro, com todo esse acesso à tecnologia. As possibilidades são infinitas. Eu brinco que no futuro haverá um pato-branquense trabalhando na Nasa”.

Helmuth Kühl
Mesa de trabalho. No canto, a cabeça de um novo projeto

Nascido em Londrina, Alexandre assistia aos programas de TV que hoje o inspiram para distraí-lo da realidade difícil em que passou a infância. Com oito anos de idade foi morar em São Paulo, no bairro Vila Maria Baixa, onde era vizinho de barracos.

Ele diz que, apesar da dureza, se mantinha otimista. Lia, estudava, e desmontava tudo o que fosse eletrônico para entender como funcionava. Seu curso técnico foi em uma escola do grupo São Bento, ligado ao famoso mosteiro do centro da capital paulista.

Entrava na escola de manhã, saía à noite. Foram quatro anos que o ensinaram a base da eletrônica que usou no resto da vida. Da manutenção de centrais telefônicas passou a cuidar de computadores, mas não adiantava, sua vocação era mesmo manter vivo o melhor lado da infância.

Anatomia de um robô

(Arte: Raquel Puska)

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