Vanilla

Céu colorido

Nelson Junior

14/10/2015 às 11:37 - Atualizado em 14/10/2015 às 14:20

As matas da região são o lar de várias espécies de aves. Essa riqueza, por vezes ignorada, ganha destaque pelas lentes de fotógrafos, que se aventuram em busca de registros cada vez mais belos e raros

Rudimar Cipriani
Sanhaçu-de-fogo

Ele é pequeno, mede cerca de 30 centímetros, tem pernas curtas, um pomposo topete vermelho e como várias outras espécies de pássaros no Brasil está ameaçado de extinção. Essa ave vive em ambientes relativamente preservados, o mais longe possível da presença do homem, e é encontrada nos estados da região sul e em São Paulo.

Um registro do ninho do raro Pica-pau-de-cara-canela vale ouro para os ornitólogos, e a única imagem dele conhecida no Brasil foi feita em 2011, em Vitorino. No Sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina vivem importantes espécimes da imensa fauna brasileira, e o ilustre pica-pau é apenas um deles.

O site Wiki Aves possui um gigantesco arquivo de fotos de pássaros, com a ficha técnica dos bichinhos, um mapa das regiões onde foram fotografados e, em alguns casos, dá até para ouvir os seus cantos. Até o fim de julho, a página contabilizava o registro fotográfico de 111 espécies, só em Pato Branco. Em Francisco Beltrão eram 94 e em Palmas 212.

Esse grande acervo é alimentado pelo trabalho de fotógrafos, profissionais e amadores, que se aventuram em trilhas e matagais para flagrar cenas desses personagens da natureza muitas vezes ignorados. “Alguns deles vivem na cidade mesmo. As pessoas só não têm o hábito de prestar atenção”, explica Rodrigo Siqueira, um desses caçadores de imagens de aves.

Siqueira vive em Mangueirinha e trabalha como cabeleireiro, mas sempre que pode faz trabalhos de fotografia em casamentos, festas e afins. Ele corta cabelos há cerca de 18 anos, mas desde a infância admira fotografia e nutre curiosidade sobre os equipamentos profissionais. Faltava dinheiro, porém, para comprá-los.

Rudimar Cipriani
Pica-pau-de-cara-canela, em raríssima imagem feita em Vitorino

Com 30 anos de idade e a vida financeira mais que estabilizada, o cabeleireiro realizou o sonho de comprar uma câmera e passou também a clicar eventos. A atividade extra já tem cinco anos.

Por perfeccionismo, Siqueira passou a sair à cata de passarinhos. Conseguir uma das bonitas imagens que ilustram essa reportagem exige equipamento, paciência, olhar apuradíssimo e um dedo hábil.

Se chegar muito perto o animal tende a fugir, e passarinho não posa para fotos. “A agilidade que você desenvolve para fotografar pássaros faz com que você tire o resto de letra”, justifica.

Siqueira se aprofundou no assunto, um pouco motivado pela competição saudável que existe entre os fotógrafos do ramo, que se empenham em conseguir fotos cada vez mais raras e difíceis.

Um de seus tesouros foi clicado por acaso. Em uma de suas incursões, no fim de 2013, Siqueira foi alertado sobre um belo pássaro que rondava uma fazenda, no interior de Mangueirinha. Era um gavião pombo grande, espécie litorânea, ameaçada de extinção, que passou a dar as caras no Sudoeste. Ele descobriu tudo isso depois que a imagem passou pelo crivo da curadoria do Wiki Aves.

Rudimar Cirpiani
Saíra-douradinha

Mas o registro mais raro já feito pelas redondezas é de outro caçador de imagens. Rudimar Cipriani, de São Lourenço do Oeste, é provavelmente o fotógrafo de pássaros da região com mais horas de mato. É dele o clique do ninho do pica-pau-de-cara-canela, feito em Vitorino.

Até então, o registro mais recente do ninho havia sido feito em 1985, no lado argentino do Parque Iguaçu. Desde que viu o pica-pau pela primeira vez na região, Cipriani passou três anos procurando a imagem do ninho, que ganhou destaque na mídia especializada no assunto.

Ele trabalha registrando casamentos, formaturas e outros eventos sociais há mais de 20 anos. Criado no interior, o fotógrafo diz sempre ter gostado de pássaros. Na infância colecionava figurinhas e ilustrações de aves publicadas em caixas de fósforo.

Desde que adotou a fotografia como profissão passou a acumular fotos dos animais. Dos biomas brasileiros só não fotografou no cerrado e na caatinga; ganhou mais de 20 prêmios nacionais e o respeito dos colegas de atividade. Rodrigo Siqueira, de Mangueirinha, o chama de mestre.

Mesmo com a bagagem, ele mantém uma lista de espécies que ainda não conseguiu flagrar, sobretudo fora do Sudoeste do Paraná e oeste catarinense. A experiência também o fez notar uma triste realidade: o desaparecimento gradual de algumas espécies.

Rodrigo Siqueira
Beija-flor

O Gavião de Penacho e outras aves de rapina são muito difíceis de se encontrar, o Macuco é considerado ameaçado e a Jacutinga praticamente desapareceu da região, sobretudo por causa da caça.

Por outro lado, a natureza também mostra sua complexidade. Cipriani menciona o curioso ciclo de acasalamento do Tangará Dançador. “Vários machos se reúnem em um galho e se revezam em uma dança para conquistar a fêmea, que no final escolhe um”.

Para conseguir as melhores imagens, os fotógrafos precisam acordar junto com os pássaros, e isso significa madrugar. Segundo Cipriani, as espécies mais exóticas têm seu pico de atividade no início da manhã e fim da tarde, quando saem à procura de comida.

Bom preparo físico também ajuda. Entre tripés, lentes e câmeras o fotógrafo pode carregar até 10 kg de equipamentos por incursão. Boa parte do espaço na mochila é reservado para as teleobjetivas de 500 milímetros, um trambolho do tamanho de uma garrafa de refrigerante.

Siqueira usa uma dessas em sua Nikon D 7100, e taxa: sem ela é muito difícil fazer uma boa imagem. Seu poderoso zoom consegue pegar um detalhe do olho do pássaro de uma grande distância, e discrição é fundamental para não afugentar o animal.

Juliane Dalponte Pereira
Choca-da-mata, fotografada em Bom Sucesso do Sul

Os fotógrafos se escondem usando roupas camufladas e coturnos especiais para caminhar no mato, além de geralmente carregar barraca e outros acessórios de acampamento para, se preciso, passar uma ou várias noites ao ar livre.

As incursões geralmente são aventuras de fim de semana. Os principiantes costumam sair a esmo, e os experientes costumam saber mais ou menos o que pretendem encontrar, e para isso os informantes são fundamentais. Cipriani já é conhecido em São Lourenço como o “fotógrafo dos passarinhos”, e por isso costuma atrair pessoas que dizem ter visto uma determinada ave.

Um clique certeiro é motivo de muita comemoração. “Sinto a mesma sensação de vitória de alguém que vence uma competição esportiva”, resume Siqueira.

Há cerca de quatro anos, a pedagoga Juliane Dalponte pereira, e seu marido, Sidnei Pereira, engenheiro eletricista, descobriram nos pássaros um motivo para se aprofundar na fotografia. As câmeras amadoras já eram companheiras das viagens do casal, mas bastou uma passarinhada para que o passatempo evoluísse.

Eles acompanharam uma incursão a convite de um professor de Sidnei, e desde então, o casal já coleciona o registro de mais de 500 espécies, clicadas no Sudoeste e litoral do Paraná, e outras regiões do país, como Chuí e São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, e Sorriso, no Mato Grosso.

Fotografar pássaros também é uma forma de retornar à natureza. Juliane e Sidnei cresceram no interior de Bom Sucesso do Sul, e hoje vivem na cidade. Para ela, é ainda uma terapia no tratamento de uma recém descoberta esclerose múltipla.

Rudimar Cipriani
Gavião-pombo-grande

Estimulados por parentes fãs de suas imagens, o casal está preparando a publicação de um livro. “Será de fotos de aves da região. A prioridade são espécies que estejam em extinção, e as que são mais próximas do convívio das pessoas”, adianta Juliane. Como a Curucaca, uma espécie fácil de se encontrar chafurdando lixeiras ou perambulando em alguns bairros de Pato Branco.

Fotografias sem público para admirá-las é como uma peça de teatro encenada sem plateia. Com o livro, Juliane e Sidnei querem que suas fotos estejam nas estantes das escolas e que, literalmente, voem o mais longe possível.

Sem dúvida, essa também é a intenção dos vários fotógrafos de pássaros, que mostram personagens da natureza que se costuma ignorar, mas que se deveria proteger.

Céu colorido

Publicidade
Loterias

MEGA SENA

Concurso 1915 25/03/2017
  • 57
  • 21
  • 2
  • 33
  • 20
  • 48
Publicidade
Publicidade
Publicidade