Vanilla

1965

Nelson Junior

21/08/2015 às 11:29 - Atualizado em 16/10/2015 às 16:46

Nesse ano, em 21 de agosto, Pato Branco amanhecia coberta de neve. Era algo nunca visto antes, e que até então nunca mais se viu. Cinquenta anos depois, a grande nevasca ainda é um dos mais belos momentos da história local

Reneh Barwinski
Criança avista o horizonte gelado de Pato Branco

As manhãs de sábado na cidadezinha de Pato Branco eram pacatas e tranquilas na metade da década de 60. No centro não havia nem metade dos moradores de hoje, muitas ruas ainda eram de chão batido e a recém inaugurada Matriz São Pedro Apóstolo era um dos únicos prédios de alvenaria imponentes naquele primitivo horizonte urbano.

Era mais um amanhecer frio e aborrecido de inverno, que vestiu de roupas grossas quem precisou acordar cedo. Uma turma de alunos assistia às aulas da Escola Normal, curso equivalente ao magistério, no Colégio Vicentino Nossa Senhora das Graças, quando algo na janela roubou a atenção do quadro negro.

Parecia chuva, mas as gotas eram grossas e esbranquiçadas. Era neve, que caia como nunca na cidade. Naquele dia, 21 de agosto de 1965, não se fazia outra coisa senão admirar o fenômeno, que transformou um sábado qualquer em uma data histórica.
Cinquenta anos se passaram, e a nevasca de 1965 ainda entusiasma suas testemunhas.

“Lembro dos pinheirinhos do colégio das irmãs branquinhos de neve”, conta a professora e pesquisadora Neri França Fornari Bocchese. Ela era uma das estudantes daquela turma que viu tudo acontecendo da janela da sala de aula.

Quando tudo começou foi um alvoroço, lembra Neri. Ninguém queria perder aquilo, e uma aglomeração se formou na praça em frente à matriz. Neri já havia visto neve antes. Em Faxinal dos Guedes, cidade catarinense onde morou, o fenômeno era comum, mas por aqui era uma grande novidade.

Autor desconhecido/Arquivo Diário do Sudoeste
O centro da cidade coberto de neve. Na praça em frente à matriz houve uma concentração de pessoas, que comemoravam a nevasca brincando e fazendo esculturas

Muitos detalhes daquele dia se perderam no meio do entusiasmo geral. Há pouco consenso, por exemplo, sobre o horário aproximado do início da nevasca. Neri não lembra de ter visto neve no caminho entre sua casa, no bairro Santa Terezinha, até a escola, mas há quem diga que a cidade já amanheceu branca.

O fotógrafo Rudi Bodanese fala de neve já na madrugada. Ele tinha cerca de 11 anos, e cursava o ginásio no Colégio Agostinho Pereira. “Devemos ter visto a neve lá pelas 7h da manhã. Fiquei surpreso diante de tanta beleza” descreve. O que se sabe com uma certa precisão é que o grosso da neve caiu pela manhã, tanto que em alguns pontos o acúmulo chegou a 10 centímetros.

Naquele tempo ainda não havia estações meteorológicas em Pato Branco, e mesmo que houvesse não seria possível saber o quanto nevou. De acordo com informações do instituto Simepar, as estações de meteorologia aferem informações como temperatura, umidade, vento e volume de chuva. A neve que cai no pluviômetro derrete e acaba sendo mensurada como água.

Autor desconhecido
O pato de neve.  Da esquerda para a direita:  Ivo Martini, Luiz Carlos Hollas, Rui Bodanese, Hélio de Souza Mattos, Adelar Antoniazzi, Ariosto Moraes, Heleno Cardoso, Clomar Ampessan, Ciço Guerreiro e Renato Colla

Seria possível saber se as condições no dia eram favoráveis a neve, mas a confirmação do fenômeno geralmente acontece pela análise de fotos, e daquele dia não faltaram imagens.

Na praça central as pessoas brincavam, competiam em combates de bolas de neve e faziam esculturas. Duas delas se tornariam símbolos da nevasca de 65: a mulher (para alguns, a noiva) e o pato.

Há vários registros dessas esculturas, mas os mais famosos são do fotógrafo João de Paula, responsável por algumas das melhores fotografias do fenômeno de que se tem notícia. Daquele dia, ele guarda umas poucas reproduções impressas, guardadas no escritório que mantém nos fundos de sua casa, no bairro Fraron. Os negativos, porém, se perderam.

João de Paula é um dos mais conhecidos e ousados fotógrafos que já clicaram Pato Branco. Ele fazia fotos artísticas quando esse tipo de coisa era pouco compreendida pelas bandas do Sudoeste. Muitos anos atrás, ganhou um concurso com uma imagem considerada queimada por colegas de profissão. Também é dele a fotografia que mostra um raio atingindo a torre da igreja Matriz São Pedro Apóstolo.

Quando acordou naquela manhã já estava nevando. Pegou imediatamente a câmera e os livros, precisava aprender a regular a máquina para tal condição climática. 
João de Paula começou a fotografar no quartel do exército de Vacaria, em 1954. Mesmo passando noites geladas vigiando guaritas, nunca tinha visto tanta neve.

Com uma câmera do tipo Roleiflex - lhe foge a memória se era Yashica ou Flexaret - o fotógrafo saiu registrando a paisagem. Quando chegou à praça as pessoas estavam esculpindo as estátuas que seriam imortalizadas. “Eu passei o dia fotografando, e no fim da tarde, quando não havia mais tanta luz, corri para o laboratório fazer as primeiras revelações”, conta.

Helmuth Kühl
João de Paula, e sua foto da mulher de neve. Ele é o autor de alguns dos melhores registros da nevasca de que se tem notícia

O laboratório ficava em cima do Bar do Cantu, para onde seguiu a concentração de pessoas que ainda falavam sobre o dia extraordinário. Para lá também foi João, com as revelações embaixo do braço. Vendeu todas e precisou fazer mais.

A repercussão das imagens representou uma reviravolta na carreira do fotógrafo, que chegou à região no início daquela década, aos 30 anos de idade - fez 80 em julho passado.

Em Pato Branco sempre trabalhou registrando casamentos, festas de aniversário e o que mais aparecesse; dividia um porão com a esposa, fazia mini álbuns com imagens da cidade para vender à viajantes, e precisou vender uma de suas câmeras para sobreviver a uma fase de vacas magras. “Minhas fotos correram a cidade. Depois disso, nunca mais fiquei sem serviço”.

O gelo acumulado começou a derreter à tarde, e depois daquele sábado a neve não apareceu mais em Pato Branco, pelo menos não com tanta força. Neri Bocchese lembra de ocorrências insignificantes nas décadas seguintes. Rudi Bodanese diz que em 1975 houve um fraco princípio de neve.

Quem sabe a raridade tenha contribuído para que o fenômeno tenha sido tão importante. A ausência de estragos ou vítimas também pode ter ajudado a selar o momento na memória das testemunhas. Várias delas se reuniram para comemorar o aniversário de 50 anos da nevasca, completos em 2015. O encontro “Admiráveis homens da neve” foi organizado em junho passado pelo blog Patonauta, em uma pizzaria de Curitiba.

Rudi Bodanese/Patonauta
Testemunhas da neve, homenageadas em Curitiba

Bodanese, responsável pelo blog, conta que a intenção do encontro foi celebrar também os 50 anos da igreja Matriz São Pedro Apóstolo, e os 10 anos de lançamento do CD “Arretirança” do trio D’ Favetti, liderado pelo músico pato-branquense Guego Favetti.

Houve também a entrega de uma escultura, criada pelo artista Kalu Chueiri, no formato do pato de neve registrado por João de Paula. Nilso Sguarezi, Neiva Molossi Passuelo, Ariosto Moraes, Jácomo “Porto Alegre” Trento, Erlindo Rosa e Clecio Chiamulera foram alguns dos homenageados. “Buscamos figuras afetivas do nosso passado, pato-branquenses saudosos, que tinham famílias significativas no meio social e comunitário da época, e que se destacaram pelo talento de alguma forma”, fala Bodanese, sobre os agraciados.

Quem não viu a cidade coberta de branco precisa se contentar com as histórias que as imagens não deixaram esquecer, e que fazem imaginar.

Os 50 anos da nevasca em Pato Branco

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