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Churrascada no interior

Nelson Junior

28/07/2015 às 13:41 - Atualizado em 15/10/2015 às 15:18

Os anos passam e as festas religiosas no interior continuam populares. Com elas, agricultores mantêm viva a tradição de cooperar pelo bem da comunidade e confraternizar em torno de uma churrascada

Helmuth Kühl
...no fogo

Às 10h30 santa missa; ao meio dia deliciosa churrascada e à tarde jogos, diversões e matinê. Desde que as primeiras comunidades começaram a se organizar no que hoje é a área rural de Pato Branco, essa costuma ser a programação chave das festas religiosas.

São grandes eventos, geralmente anuais, com três características em comum: homenageiam uma figura religiosa, geralmente um santo padroeiro; são uma lição de coletividade e servem muito churrasco.

É bem possível que a soma desses fatores as mantenham firmes e fortes, mesmo depois de tantas transformações no universo agrícola. Hoje a maioria da população vive na cidade, a tecnologia doméstica e de produção não é nenhum luxo, mas o modo de preparo do churrasco, o sentimento de estar cozinhando em família, e a determinação de levantar um dinheirinho para a capela são os mesmos há décadas.

O interior de Pato Branco está dividido em 34 comunidades, e segundo a Paróquia São Pedro Apóstolo, em todas há pelo menos uma grande festa religiosa, como a de São José Operário, realizada no feriado do Dia do Trabalhador na localidade de Sede Gavião.

Mal haviam estradas por aquelas bandas quando as primeiras churrascadas foram organizadas. Era o final dos anos 50, e uma serraria puxava a economia local junto com a agricultura de subsistência. Oradi Caldato nasceu, cresceu e ainda vive na comunidade. Ele conta que a serraria exigia operários, cujos filhos precisavam de uma escola, que acabou se tornando a primeira edificação comunitária de lá. A escolinha servia para tudo, inclusive para os “festerês”.

Helmuth Kühl
Público à espera do almoço

Além de confraternizar, a intenção do evento era - e continua sendo - a arrecadação de dinheiro para os projetos da comunidade. “Se sonhava em construir a primeira capela, e com os fundos ia se comprando os materiais”, lembra Caldato.

Os ingredientes vinham das propriedades. Cada morador dava sua prenda; um animal, ovos, sacas de milho, trigo, feijão. O que não fosse cozido ou assado era leiloado e vendido. 
Se chovesse era preciso cancelar tudo, acorrentar as rodas de um fusca para vencer o barro, avisar a cidade do adiamento e no dia seguinte vender a carne nas comunidades vizinhas.

Muita carne

“Quanto mais rápido ela for assada, pior ela ficará. A carne precisa de tempo para ficar saborosa”. Esse “tempo” é de no mínimo duas horas e meia e no máximo três horas, palavra de churrasqueiro experiente. Nilvo Caldato é herdeiro de uma técnica passada de pai para filho, a de conduzir o preparo do prato principal das festas no interior.

Ele e seu irmão, Neivo, manejam os espetos há pelo menos 10 anos em Sede Gavião, que conta com uma vasta churrasqueira e um salão que abriga cerca de 1.500 pessoas. 
Mais de uma tonelada de carne de gado e porco foram para o fogo na última edição do evento, isso depois de passarem quase um dia mergulhadas em tanques com uma salmoura feita de água, alho, sal temperado, e temperos verdes.

Helmuth Kühl
Neivo e Nilvo Caldato, irmãos churrasqueiros

Temperar, espetar e assar essa montanha de comida é um trabalhão para 14 homens, mas as coisas já foram mais difíceis. Nilvo conta que os antigos nem sonhavam com churrasqueira, e assavam a carne em uma vala mesmo, no método conhecido como fogo de chão.

Havia um mínimo de higiene, mas o rigor da fiscalização sanitária era muito menor. “Assava um pouco, fumava um paiêro,” brincou alguém no meio da entrevista. 
Atualmente, nada de abater animais na comunidade, e a carne servida é só de primeira. Alcatra, filé e costela vêm de um frigorífico, e toda a estrutura para o preparo pré-fogo foi construído de acordo com as normas sanitárias.

Saladas e doces

O churrasco é o protagonista, mas os pratos coadjuvantes também têm sua importância. Celita Gemi Caldato é a chefe da cozinha onde foram limpas, cortadas, preparadas e embaladas as cinco caixas de tomate, os quase 100 pés de alface, e os 130 kg de batatas usadas na maionese.

Chefe é modo de dizer, ela frisa. Tanto na churrasqueira quanto na cozinha foi difícil achar alguém que aceitasse falar pelo grupo. “Todo mundo trabalha do mesmo jeito”, insistiu Celita.

Na roda de mulheres há quem trabalhe na festa a mais de 40 anos, como Otília Caprini, mentora intelectual de uma receita de pudim que substitui o leite pelo suco de laranja, o favorito de seu filho que vive na cidade. Ela é do tempo em que a missa antes do almoço acontecia na sombra das árvores, e a bebida não alcoólica era a gasosinha.

Celita está em Sede Gavião há menos tempo, 17 anos, mas sua experiência nas festas de interior começou na infância, em Bom Sucesso do Sul. Seus pais lhe apresentaram a cooperação que move as comunidades rurais, e que envolve praticamente todos na organização das festas.

Helmuth Kühl
Da cozinha saem pães, pudins e saladas

Da limpeza do salão aos afazeres culinários ninguém fica sem função, mesmo quem já se mudou para a cidade. O intercâmbio entre comunidades vizinhas também é comum, na presença e na troca de experiências. Sede Gavião serviu este ano pepinos em conserva, prato que teve boa aceitação em uma festa vizinha.

A separação e limpeza dos vegetais começa no dia anterior, e o preparo na madrugada da data. Nas casas da redondeza, outras mulheres preparam os bolos e pudins, pratos que segundo Celita substituíram as bolachas caseiras, o pão e o sonho dos seus tempos de infância.

Em primeiro de maio de 2015 fez sol, e o pavilhão comunitário de Sede Gavião já estava lotado, meia hora antes de o almoço sair. Reservadas com antecedência, as carnes e porções de saladas já saem do fogo e da cozinha direto para as mesas, ocupadas na maior parte por famílias frequentadoras assíduas do evento.

Depois do almoço, lá pelas 13h30, o locutor anunciou a atração musical da tarde, Jacó e Jacozinho. Sobremesa acompanhada de moda de viola.  Além da boa comida, é fácil entender porque tanta gente sai de suas casas para saborear basicamente churrasco e salada, algo fácil de se encontrar em qualquer restaurante e residência não só de Pato Branco, mas de praticamente todo o Sul do país.

A cordialidade brota de todos os anfitriões, e uma espécie de calor humano domina as mesas. As festas do interior não servem apenas comida, elas lembram que no fim das contas, todos formamos uma grande comunidade.

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