Pato Branco

Pesquisa aponta dificuldades dos haitianos em Pato Branco

Guilherme Bittar

10/01/2017 às 20:28 - Atualizado em 12/01/2017 às 10:51

A imigração haitiana em Pato Branco se iniciou há cinco anos, período marcado pelo vaivém de imigrantes. Muitos dos que vieram buscaram novos caminhos. Poucos ficaram. Alguns continuam vindo, mas em proporção menor que em anos anteriores.

Para os imigrantes, o Brasil é a oportunidade de uma vida nova. Nem sempre positiva. Os haitianos enfrentam várias barreiras em solo brasileiro. A língua, a distância da família, a falta de perspectiva profissional e dificuldades econômicas que os obrigam a viver em submoradias. E ainda o racismo.

 

Guilherme Bittar
Mhapa presta assistência aos haitianos em Pato Branco. Atendimento é feito por Elediane

 

É o que mostra pesquisa realizada em Pato Branco, coordenada pelo médico Carlos Frederico Almeida Rodrigues, com o auxílio de alunos de medicina do campus da Unioeste de Francisco Beltrão.

A língua gera obstáculos básicos, como a fluidez de uma consulta médica ou atendimento num banco, e dificulta a integração. E eles, que vêm para cá em busca de oportunidades melhores, muitas vezes veem-se frustrados por não conseguir trabalhar na área em que são formados, restando vagas de baixa qualificação na indústria.

O salário, normalmente, é longe do ideal para quem tem de enviar remessas de dinheiro a familiares que estão no Haiti. Para reduzir custos, moram com outras pessoas no mesmo domicílio.

Estima-se que em Pato Branco haja em torno de 300 haitianos. O número vem caindo devido à crise. O estudo coordenado por Rodrigues entrevistou 46 deles – 40 homens e 6 mulheres. Destes, 32 eram solteiros, 14 casados e 1 divorciado. Na maioria, pessoas em idade ativa.

Para 76% dos entrevistados, o motivo principal de sua vinda ao Brasil era trabalho, seguido de estudo (21%), busca por uma vida melhor (15%), ganhar dinheiro (8%) e seguridade social (4%). Sendo que 91% responderam que havia alguém no Haiti que dependia financeiramente deles.

A pesquisa mostra ainda que 90% dos haitianos entrevistados em Pato Branco têm nível de ensino médio ou superior; 13% possuíam escolaridade fundamental; e 21% dos imigrantes concluíram o nível superior – entre eles médicos e engenheiros –, todos unânimes em apontar obstáculos para validar seus cursos e títulos no Brasil.

Em Pato Branco, os setores que mais os empregavam eram indústria de alimentos (65%), autônomo (11%), construção civil (6,5%) e comércio (4%).

Quanto ao racismo, foi citado por 45% dos entrevistados quando perguntados sobre a principal dificuldade em Pato Branco. A falta de trabalho foi apontada por 41% e o frio, por 15%.

Além dos obstáculos profissionais, os custos com aluguel e o racismo, os haitianos apontam outros problemas, tais como a dificuldade em fazer amigos e falta de oportunidades de estudo. A maioria pretende voltar ao Haiti assim que possível.

Talvez pelas dificuldades listadas, para 39% dos questionados viver no Brasil significa “tristeza”; para 15%, “solidão”; e para 11%, “experiência ruim”.

“Uma unanimidade entre os entrevistados é que aprender o idioma facilitaria a integração, e todos consideraram isso como fundamental, ao mesmo tempo que reclamam da falta de cursos para tanto”, diz o estudo.

 

 

Submoradia

A maioria dos haitianos entrevistados mora com pelo menos mais 4 compatriotas na mesma residência – sendo que 15% residem com até oito pessoas. “Além disso, as condições do imóvel não eram boas e o preço para o aluguel considerado caro (até por isso a vantagem de se morar em mais pessoas) e citado diversas vezes como um dos maiores problemas. Todos os entrevistados afirmaram viver em casas alugadas”.

A presença desses núcleos da comunidade haitiana, diz o estudo, nem sempre refletem laços familiares, “já que 21 dos entrevistados afirmaram não possuir familiares no Brasil e 25 afirmaram que sim, sendo que primos foram citados 22 vezes, irmãos 13, cunhado, tia e tio uma vez e sobrinhos três”.

 

Saúde

Em relação à saúde, 30 imigrantes afirmaram ter algum problema. As patologias mais citadas foram: cefaleia 10; visual 7; hipertensão arterial sistêmica 6; bursite 3; amigdalites 5; gastrite 4; asma 3; diabetes 2 e lombalgia 6.

“Nossos dados desmistificam um grande preconceito da população brasileira. A discriminação para com os haitianos vem do triste fato dos nativos acreditarem que aqueles possuem doenças como cólera, HIV ou outras desconhecidas. Nossos dados demonstram a prevalência de doenças decorrentes de esforço repetitivo, tais como lombalgia e bursite e, de doenças ligadas ao estresse: cefaleia, gastrites e etc”.

Quase a totalidade dos entrevistados já utilizou serviços do SUS, a maioria para fazer exames. O atendimento foi considerado bom – 19,5% classificaram como ruim ou péssimo. “As queixas quanto ao atendimento no Haiti se fazem sobre o fato de ser uma saúde paga, sem haver cobertura universal para todos”.

 

Falta integração

 

Guilherme Bittar

O professor e médico Carlos Frederico Almeida Rodrigues coordenou a pesquisa - desenvolvida junto com os alunos Andressa D. Colbalchini, Isadora C. Fillus e Caroline Solana de Oliveira -  que apontou dificuldades dos haitianos em PBa


 

Para o professor Carlos Frederico Almeida Rodrigues, faltam ações que integrem os haitianos à comunidade local. “Uma possibilidade seria acolhê-los nas escolas para aprender o Português. Tem de inserir essa pessoa na comunidade, se não vai criar guetos. Daqui a pouco teremos um bairro dos haitianos. É ruim para todos”.

A voluntária do Mhapa (Movimento Haitiano Pato Branco), Elediane Carvalho, concorda e diz que nem sempre é fácil conseguir assistência aos haitianos. “A gente busca ajuda. Mas quando você está lá, as pessoas olham nos seus olhos e falam uma coisa. Mas quando vira as costas é o mesmo que estar desamparado. Eles não querem esse problema, pois pensam que os haitianos são uma carga a mais”.

Elidiane entende que é preciso um olhar mais solidário em relação aos imigrantes. “Pato Branco não é uma cidade totalmente genuína, é bem migratória. Deveria ser mais aberto e ter mais auxílio. Há cinco anos os haitianos estão aqui e pouco foi feito”. Como iniciativa positiva, ela cita o convite para o Coral dos Haitianos se apresentar dentro da Programaçaõ de Natal de Pato Branco, no mês passado.

O médico anestesista Frederico Pipino, de Pato Branco, é um caso raro de brasileiro que fala a língua Crioula. Ele resolveu aprendê-la para poder atender melhor pacientes em procedimentos obstétricos. Em um ano de aulas, ele diz já dominar o idioma, que considera o mais fácil entre os outros cinco que conhece. “A gramática é muito fácil. Não tem muitas regras. O grande problema são os artigos, que são cinco”.

Sobre a integração dos haitianos em solo pato-branquense, ele considera satisfatória. “Já são cinco anos de imigração haitiana e estão mais bem integrados que se estivessem ido para a Europa, se relacionando bem com as pessoas, embora a língua seja uma barreira”.

 

Diminuição

Os primeiros haitianos chegaram a Pato Branco em 3 de abril de 2012, recrutados por iuma ndústria alimentícia. Das cerca de 120 pessoas do primeiro grupo, apenas uma continua no município.

O fluxo de haitianos tem diminuído nos últimos meses. No ano passado, Pato Branco chegou a ter 900 imigrantes, segundo Elediane. Agora, são menos de 300, ela diz, em razão da crise. “As empresas não estão mais abrindo vaga para haitianos. Os que continuam aqui é porque estão trabalhando ou têm parentes”. Muitos deles migraram para outras cidades ou para os Estados Unidos, onde entram de maneira ilegal, na fronteira pelo México. A travessia custa em torno de US$ 3 mil.

Segundo o voluntário do Mhapa Gildo Pasquim, os haitianos são solidários entre si. “Há situações de oito morarem no mesmo domicílio e quatro que trabalham, e eles acolhem. Com essa dificuldade financeira, eles estão sofrendo muito, porque não conseguem ter dinheiro para mandar para o Haiti”.

“Apesar das medidas tomadas pelo governo Lula e Dilma e do apoio de segmentos da sociedade civil organizada (Igreja católica, por exemplo) a falta de instrumentos legais de uma política migratória adequada faz com que a chegada desses imigrantes ao país se transfore em um situação única”, afirma o texto da pesquisa.

 

 

Haitianos falam sobre experiência no Brasil

 

Guilherme Bittar
Alix está no Brasil há três anos

 

Alix Sainvilaire chegou ao Brasil há três anos, e desde então mora em Coronel Vivida. Na semana passada, ele esteve no Mhapa, em Pato Branco, para tratar questões referentes à sua documentação.

Alix afirma que se adaptou ao Brasil e não pensa em deixar o país – a não ser para passar férias no Haiti e visitar familiares, como pretende fazer nos próximos dias. “Mas eu volto”, garante. Desempregado, ele recebeu a última parcela do seguro-desemprego este mês. Alix afirma que pretende continuar em Coronel Vivida, mas que sua permanência dependerá de trabalho. “Eu gosto de Coronel. Mas se não estiver trabalhando não tem como sobreviver. Vou para onde tiver emprego”.

Alix largou carreira como professor de línguas para tentar uma vida melhor no Brasil. A empatia com o país se iniciou em 2004, quando a seleção brasileira fez amistoso no Haiti.

“Eu não vim aqui para ficar. Mas vi como o povo brasileiro tratava os estrangeiros e gostei. Fiquei até agora”. No Brasil, Alix concluiu um curso de informática e fez, recentemente, a CNH (Carteira Nacional de Habilitação). O próximo plano é comprar um veículo, para poder visitar familiares e amigos com mais facilidade.

Kechler Odnelus diz que o povo brasileiro é “muito legal”, mas afirma que faltam iniciativas voltadas à integração. “Pato branco é uma cidade tranquila, a gente pode andar a qualquer hora com telefone, notebook. Mas faltam ações e união. Não tem quase nada nesse sentido voltado aos haitianos”. Outra dificuldade apontada por ele é a falta de trabalho.

Como vantagem de imigrar para o Brasil, ele aponta a recepção do país, que fornece visto provisório, dando segurança a quem entra.

Kechler está há dois no município, onde divide uma casa com outros três haitianos. “Eu tenho que cuidar dos meus parentes no Haiti. Nosso salário não dá para pagar sozinho o aluguel de uma casa”.

Ele, que era professor no Haiti, explica que precisa trabalhar numa função abaixo da sua qualificação. Um dos objetivos de Kechler é cursar uma universidade no país, uma vez que o diploma dele no Haiti não tem validade no Brasil.

 

 

Movimento dos Haitianos

de Pato Branco

 

Guilherme Bittar

 

O Mapha (Movimento dos Haitianos de Pato Branco) luta para se manter de pé após a morte, no ano passado, do frei Vitalino Torcato, que coordenava o projeto.

As atividades do Mhapa continuam, mas principalmente na parte burocrática, mas, sem a ajuda do frei, falta apoio e estrutura para outras promoções.

O auxílio com documentação é o serviço mais procurado pelos haitianos. A entidade tem dois voluntários que atuam de maneira frequente –  Elediane Carvalho e Gildo Pasquim. Eles ainda auxiliam os estrangeiros na busca por trabalho, fazendo contato com a Agência do Trabalhador, e buscando doação de alimentos.

Os custos com documentação são altos. Para atualizar o passaporte, sai em média R$ 400, devido às taxas cobradas pela Embaixada do Haiti. O Mhapa organiza toda a documentação e envia através dos Correios.

O Mhapa funciona numa sala da Matriz São Pedro, cedida pela paróquia. Os atendimentos presenciais ocorrem uma vez por semana, sempre às sextas-feiras. É o dia de folga de Elediane no trabalho, que ela ocupa fazendo a atividade voluntária.

No começo de seu voluntariado junto aos haitianos, Elediane dava aulas de Português aos imigrantes, a convite do frei Vitalino. Atualmente, os haitianos têm como opção o curso oferecido pela UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) campus Pato Branco. Aos sábados, as aulas ocorrem em uma sala da igreja.

Quem quiser contribuir com o movimento, pode entrar em contato com Elediane, pelo telefone (46) 99102-7342.

 

 

Assistência Social

A Secretaria de Assistência Social afirma que procura inserir os haitianos em projetos sociais. Uma das ações citadas pela secretária Anne Cristine Gomes da Silva é o curso de costura, realizado no final do ano passado. Os assistentes sociais aproveitam a oportunidade para repassar orientações, inclusive sobre prevenção sexual e métodos contraceptivos.

A Secretaria diz que também presta assistência no aspecto burocrático, para regularizar a situação dos imigrantes no município. Anne, contudo, diz que muitas vezes os haitianos possuem documentação incompleta, o que dificulta o processo.

O objetivo da pasta, segundo ela, é trabalhar o fortalecimento de vínculo. Mas a secretária admite que são necessárias mais ações para que imigrantes possam ser efetivamente integrados à sociedade local e diz que é necessário um envolvimento de várias entidades e órgãos públicos.

Quanto à língua, Anne pondera que existe dificuldade em encontrar profissionais capacitados para ministrar cursos aos estrangeiros, que dominem a língua deles. Mas ela afirma que reforçar esse aspecto será prioridade da Secretaria neste ano. “Pretendemos ter um olhar bastante focado para a questão dos haitianos e da língua”.

De acordo Anne, a crise que assola o país tem afetado, também, os haitianos. Alguns deles enfrentam dificuldades para se colocar no mercado de trabalho e, por isso, estão migrando para outras regiões ou países. Devido ao desemprego, cresce o número de estrangeiros que buscam benefícios junto ao poder público, como cestas básicas, vestuário e cadastro habitacional para concorrer a programas de moradias populares.

As pessoas podem ajudar doando mantimentos e roupas para a Assistência Social. O telefone da secretaria é 3225-5544.

 

 

Desastre no Haiti

Em janeiro de 2010, um terremoto catastrófico foi registrado no Haiti. O abalo alcançou a magnitude 7,0 Mw e ocorreu a uma profundidade de 10 km (6,2 mi).

Milhares de edifícios, incluindo os elementos mais significativos do patrimônio da capital, como o Palácio Presidencial, o edifício do Parlamento, a Catedral de Notre-Dame de Port-au-Prince, a principal prisão do país e todos os hospitais, foram destruídas ou gravemente danificadas. Mais de 200 mil pessoas morreram. A economia do país entrou em colapso. A imigração dos haitianos se intensificou após o desastre.

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