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“Tenho emoções imensas por coisas pequenininhas”

 

Divulgação

 

Das oficinas do Teatro Municipal de Pato Branco ao prêmio de Melhor Atriz Protagonista pela peça O Noviço, Dafne Viola traça um caminho sólido dentro do teatro paranaense. A menina tímida, de 18 anos, que viu que sua voz seria ouvida e ecoada se estivesse em cima de um palco, reúne talento, vontade e amor pela arte.

Dafne hoje cursa Teatro na PUCPR e faz aulas no Teatro Lala Schneider, em Curitiba, mas começou em Pato Branco, nas oficinas do Teatro Municipal. “Mas minha principal participação foi no então Grupo Teatral Gayatri, hoje chamado Grupo Teatral Ôs, dirigido pelo Leandro Dourado. Esse grupo se tornou minha segunda família e até hoje mantemos contato. Sinto um carinho imenso por eles”, diz.

Ela lembra dos ensaios nos sábados à tarde, quando raramente perdia um. “Tínhamos aulas de circo pela manhã, fazíamos montagens de peças, animação em festas, eventos. Nós nos divertíamos muito. Estudávamos juntos, criávamos e fabricávamos nossos próprios figurinos, cenários, iluminação, sonoplastia. Era uma trabalho super coletivo, e eu amava isso. Foi o Leandro quem me ensinou a ter disciplina e a amar a arte como eu amo hoje, coisas que eu trago agarradas comigo desde então.”

Sua primeira peça oficial se chamava "O Olimpo". Fez uma personagem chamada Pandora, uma criação livre. “Deixei bem próximo de mim. Mas me lembro como se fosse ontem a sensação que tive no final da peça. Quando fomos agradecer, começou a tocar uma música que tinha um significado lindo pra mim, me emocionei muito, mais ainda com as palmas daquele Teatro enorme e lotado, quase 600 pessoas”, relembra. Foi quando percebeu que era vista e que poderia falar, onde seria escutada. Para uma menina super tímida, que mal se expressava, foi uma sensação totalmente nova e boa. “Até hoje, quando escuto aquela música, eu me emociono”, fala.

Dentro desta rotina, um dia percebeu que pensava mais em teatro do que em qualquer outra coisa, até o momento que percebeu a grandiosidade do que estava fazendo e como isso a deixava mais feliz do que tudo. Aí veio a faculdade de Teatro na PUCPR e o curso no Teatro Lala Schneider, em Curitiba.

Esses passos permitem que Dane participe de projetos como o Núcleo de Pesquisas e Práticas Teatrais; Companhia de Dança Xpress PUC; Programa Ciência e Transcendência, onde ministra aulas de teatro para detentas do Presídio Feminino do Paraná. “Temos também, dentro da nossa turma, montagens e núcleos de pesquisa no qual compartilhamos experiências e conhecimentos. Chamamos de GPC - Grupo de Pesquisa Cênica”, fala. A atriz ainda faz estágio como assistente de professor no Teatro Barracão com duas turmas de crianças.

“No Lala, temos montagens de peças todo semestre, mas às vezes somos convidados para participar de peças da Companhia, como que são apresentadas no horário da meia-noite, bem populares no Teatro. Este ano fiz uma temporada de dois meses com uma comédia e acabei ganhando o prêmio de Melhor Atriz Protagonista pela peça do primeiro semestre, chamada O Noviço. Sem contar com as palestras, peças, festivais que estou sempre assistindo e participando de discussões. Curitiba tem uma grande produção de arte de todos os tipos e precisamos sempre acompanhar e aumentar nosso repertório”, acredita Dafne.

 

Emoção que

ultrapassa o palco

Mesmo nos primeiros grupos teatrais, Dafne conta que sempre levou a arte a sério. “Tento aprender o máximo de coisas que podem me ajudar na criação em geral. Isso inclui costura, pintura, escultura, marcenaria, escrita, dança, música, canto e qualquer outra habilidade que possa fazer um diferencial, mas que, acima de tudo, dê a chance de explorar possibilidades maiores em minhas criações”, diz.

Por isso, as grandes emoções em relação ao teatro não acontecem exatamente em cima do palco. “Quando penso nisso, me vem na cabeça processos, o ante e pós palco, não exatamente o palco em si. No momento em que estou em palco sou a personagem, e as emoções que sinto pertencem a ela”, diz.

Assim, para a atriz, o palco é um resultado de muito trabalho, “e é esse trabalho que mais me emociona e toda vez me impressiona e me ensina”, define. Para ela, todos os processos são emocionantes, desde a parte de receber um texto e procurar pelo personagem, o momento em que se encontra com ele, o nervosismo da estreia e o depois, quando recebe feedbacks de diretores e atores e percebe seu crescimento e se prepara para melhorar ainda mais para a próxima vez. “Tenho emoções imensas por coisas pequenininhas, tipo aprender a costurar meu figurino ou encontrar em um brechó a peça que faltava. Essas coisas me deixam muito feliz, de um jeito meio bobo e intenso. Eu diria que as maiores emoções aparecem pra mim nesses detalhes que vão se encaixando, isso é muito mágico.”

 

Outras vertentes

Dafne já fez alguns comerciais e curta-metragens, e acha muito bacana o que define como um outro jeito de trabalhar e de lidar com as emoções. “Pode ser parecido, mas é muito diferente. Meu amor maior é pelo teatro e é ele a minha maior prioridade, pelo menos por enquanto”, avisa.

Mesmo que o mercado seja bastante difícil nesta área, ela diz que tem se espelhado em professores e atores incríveis para seguir em frente, e pensa em dar aula, fazer direção e produção. “Estou no momento de experimentar, e tenho tentado várias coisas. Acredito que isso seja muito valioso para que eu possa conhecer mais e entrar em contato com várias formas e propostas. Sempre terá alguma coisa que falta tentar e fazer, não podemos ficar parados, e isso em qualquer profissão. É um desafio novo a cada dia, e eu tento viver no aqui e agora. Conforme as portas vão abrindo eu vou me encaixando. Tenho alguns planos, como desenvolver a questão da dança-teatro, procurar especializações fora e direção”.

Mesmo que no Brasil um ator, para ser considerado de sucesso, necessite de visibilidade na mídia televisa, Dafne diz que, para ela, isso é algo relativo, uma questão de ponto de vista. “Existem várias outras formas de suceder na área, como as outras funções de teatro [iluminação, sonoplastia, figurino, produção, etc.] e também cinematográficas [como edição, filmagem, etc.]. Pode ser também nas escolas e faculdades, na área de teatro comercial, nas áreas de oratória, enfim, são várias vertentes. O sucesso se alcança como em qualquer outra profissão: agindo conforme seus princípios e dando sempre o melhor possível de si”, acredita.

 

Piscadinhas

Entre as coisas mais marcantes em toda o trajeto até aqui, Dafne diz que as piscadinhas, essas de olho só, sempre vêm à cabeça como um incentivo. “Eu me lembro quando eu estava começando, via aqueles atores e diretores se preparando, se apresentando, recebendo os aplausos, e aquilo parecia muito grande e inalcançável pra mim. Mas então as pessoas começaram a piscar pra mim. Calma, eu explico. Um dia eu estava assistindo uma peça, estava muito animada, e o ator protagonista olhou pra mim na plateia e piscou um olho só. Aquilo me encorajou como nada antes. Era um sinal de destaque, e, por que não, de amizade”, relembra.

Isso, diz, aconteceu várias outras vezes, em um musical da Broadway, em uma peça de terror, em outra de comédia. “Foram piscadelas sem motivo aparente, mas que me erguiam toda vez.”

Agora, sempre que vê alguém que esteja começando, algum novo ator ou atriz que reconhece na plateia, ou até mesmo pessoas que não conhece, Dafne pisca para elas. “Não é nada além disso, apenas sinto que para alguém talvez sirva do mesmo modo que serviu pra mim.”