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Sabores da mata

Muitas folhas, pouco sal, quase nada de açúcar e ingredientes exóticos para o paladar do homem branco. Essa é a culinária Kaingang, uma rica e curiosa porção da cultura indígena brasileira

Muitas folhas, pouco sal, quase nada de açúcar e ingredientes exóticos para o paladar do homem branco. Essa é a culinária Kaingang, uma rica e curiosa porção da cultura indígena brasileira

Rodrigo Siqueira
Milho torra no fogão indígena

A fumaça dominava o grande quiosque onde crianças e adolescentes circulavam entusiasmadas. Ela vinha de uma fogueira, onde se assava um peixe espetado em uma vara, e várias folhas de almeirão do mato cozinhavam em uma panela com água.

Num outro canto, um rapaz de seus 18 anos de idade amassava grãos de milho, torrados na mesma fogueira, em um pilão, enquanto era assistido por um grupo de crianças, ansiosas pelo farelo que será servido como aperitivo antes da refeição principal.

Em sua grande maioria, os presentes eram alunos, professores e servidores do Colégio Estadual Indígena Kokoj Ty Han Ja (lê-se Cocoi tihania), que funciona dentro da comunidade indígena Kaingang, em Mangueirinha, e oferece formação desde a educação infantil até o ensino médio.

O dia era de celebração, o ápice de um conjunto de atividades feitas em sala de aula sobre a culinária típica dos povos indígenas, sobretudo da etnia Kaingang. Depois da teoria, vista de forma integrada com os conteúdos tradicionais de qualquer escola, os alunos colocariam a mão na massa para preparar e degustar a comida que hoje em dia faz parte quase que somente do cardápio dos moradores mais velhos.

Na cozinha, as merendeiras cuidavam de outros pratos, mais elaborados, que também fariam parte do lanche, como arroz, feijão com muitos pedaços de torresmo, e outras coisas que nem parecem comestíveis para o paladar do homem branco.

Leila Goitoto é quem comanda a equipe da cozinha. A senhorinha mostra uma bacia enorme onde um pé inteiro de urtigão descansa em água. Na cultura da cidade, essa planta serve para irritar a pele, mas na aldeia pode ser usada como tempero ou servida como salada. Para isso é preciso cozinhá-la.

Rodrigo Siqueira
Urtigão, salada medicinal

Segundo Leila, a planta tem propriedades medicinais. O chá da raiz do urtigão alivia dores nas articulações, e estimula a produção de leite, quando usado para lavar o seio de lactantes.

Os vegetais estão no topo da pirâmide alimentar indígena, e apesar de haver hortas, quase tudo vem direto da natureza; mesmo as carnes. Leila estava cortando pedaços de carne de veado, caçado especialmente para aquela ocasião, assim como um Cateto, espécie de porco do mato. O peixe foi pescado em riachos das redondezas.

As carnes são ou assadas, ou refogadas na panela com temperos e gordura. A textura da carne de veado é rígida, parecida com a carne de galinha caipira, e o sabor é bem peculiar, mas agradável. Apesar disso, o que faz os índios salivarem mesmo são as saladas.

Comida verde

“Tendo folhas, arroz e feijão, está bom. Não precisa de carne”, resume Marciane Maciel Honório, 28, estudante secundarista nascida na comunidade indígena de Mangueirinha. Por sua idade, ela faz parte de uma geração intermediária, que está entre os mais velhos, que preservam costumes da cultura nativa, como a língua Kaingang, e os mais jovens, habituados com a dita “civilização”.

Ela conta que o café da manhã de seus avós é o chimarrão. O almoço acontece por volta do meio-dia, e o jantar nas primeiras horas da noite. Carne é servida quando algum homem decide caçar, e as variedades que se encontra em supermercados são raridades mensais. “Eu digo para os meus piás. Se a gente se perder no mato a gente não morre de fome”, diz Marciane.

Rodrigo Siqueira
Marciane Maciel. Dieta com pouca carne, sal e açucar

 

O almeirão, o milho e o pinhão são os vegetais mais familiares a quem vive fora da aldeia. Outras espécies são mais exóticas, como a mandioca brava, cuja folha é amassada no pilão até ficar com a consistência de uma massa, que será cozida por cerca de duas horas antes de ir para o prato. Leila, a merendeira da escola, diz que a folha é tóxica e precisa ser preparada de um modo especial para não causar estragos ao organismo. Seu gosto lembra muito o da couve.

A varana tem a forma de uma palmeira, porém, mais baixa, mais fina e mais frágil. Dela se extrai um pequeno palmito, que picado pode ser comido in natura, ou acrescentado como sustento no feijão.

Rodrigo Siqueira
Leila, a merendeira, mostra a varana e a mandioca brava

Coró

O alvoroço das crianças em volta de uma das mesinhas do quiosque, no pátio da escola, indicava que algo muito curioso estava sendo servido. Era o coró, uma enorme larva de besouro.

Para os índios, o coró é um petisco que vive no tronco das árvores, e que pode ser degustado assado, ou ao natural mesmo. Como se fosse um camarão, a “carne” do bicho é sugada pela boca, sobrando apenas uma casquinha. Há quem prefira frito, douradinho, parecido com um torresmo. Marciane diz que a gordura resultante da fritura do coró é excelente para os cabelos.

Rodrigo Siqueira
Coró, um petisco da floresta

 

Larvas de inseto são um negócio difícil de encarar se você está acostumado com buffets de restaurante ou pratos bonitinhos para fotos em redes sociais, mas quem prova costuma aprovar. Eliane Wollmer é diretora da escola indígena. Ela conta que o coró menor, que vive nas palmeiras, tem gosto de palmito. “Não gostei, pois não gosto de palmito”.

A larva maior, habitante de araucárias, ela ainda não provou, nem a equipe de reportagem, para a frustração da molecada. De resto, sentimos o gosto de tudo, e estava sem sal.
Algo que parece ser tão fundamental para a culinária da cidade não faz parte do livro de receitas do povo Kaingang. No evento, tudo foi feito praticamente sem sal e sem açúcar. Marciane falou até com uma certa repulsa que “nós não usamos essas coisas, como o açúcar”.

O que havia de mais doce no cardápio era o pixé, o farelo de milho torrado na brasa com cinza e moído no pilão. Pão e bolo são feitos basicamente de água e farinha. É curioso como sem tempero os sabores se multiplicam no prato.

Resgate

Muito da riqueza cultural dos Kaingang está perdendo espaço para os costumes do homem branco, e as razões são muitas, desde o casamento entre índios e brancos até as relações de trabalho e meios de subsistência.

Assim como o marido de Marciane Maciel, que já foi operário de indústria, a maioria da população em idade produtiva da comunidade indígena de Mangueirinha trabalha fora da aldeia. Nos refeitórios das fábricas a comida é a da cidade, e a falta de tempo para coletar ou caçar alimentos dificulta ainda mais o cultivo das tradições, não só as culinárias.

De acordo com Alcides Rodrigues da Silva, professor no colégio Kokoj, a dicotomia cultural fica mais evidente quando se toma por parâmetro um dos principais elementos da identidade de um povo, a língua. “Os falantes da língua Kaingang representam cerca de 30% da população da aldeia”, quantifica o professor, que não soube precisar o número de habitantes da comunidade.

Rodrigo Siqueira
Glória, professora língua Kaingang, serve pixé, peixe e bolo

Quanto mais velho, mais apegado às tradições, o que coloca os menores de 20 anos de idade quase que fora do contexto de suas raízes. É nesse público que se concentra o foco do trabalho de resgate feito na escola com a ajuda de Alcides e outros professores. “A gente está partindo para o mais fácil. No supermercado há salada, pão, carne, que não precisa mais ir buscar no mato. Por isso nós nos preocupamos em mostrar a nossa cultura, principalmente para as crianças”, completa Glória Cornélio, também professora.

Desde os primeiros até os últimos anos de estudo, a abordagem da cultura indígena faz parte do plano de ensino. Culinária, danças, vestuário e outros aspectos típicos são trabalhados em sala de aula, aproveitando exemplos e experiências de moradores da aldeia. Segundo Alcides, os alunos realizam até incursões na mata.

Os pratos típicos também passaram a fazer parte da merenda e do almoço dos estudantes, mas o trunfo parece ser o ensino da língua, disciplina lecionada por Alcides e por Glória. “A língua identifica o ser. Se eu falo Kaingang eu me identifico em qualquer sociedade indígena”, explica a professora.

O plano parece estar surtindo efeito. Boa parte dos estudantes que participaram do evento culinário vestiam trajes típicos indígenas e pareciam estar entusiasmados com o que acontecia, sinal de que a cultura Kaingang continua resistindo.