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Os traços da cidade

Com lápis e papel, um grupo de estudantes e professores de Arquitetura recria Pato Branco, e mostra uma nova perspectiva sobre a cidade

Com lápis e papel, um grupo de estudantes e professores de Arquitetura recria Pato Branco, e mostra uma nova perspectiva sobre a cidade

Reinoldo Klein
Teatro Municipal Naura Rigon

A considerar a vizinhança, a enorme caixa branca, na esquina entre as ruas Severino Oldoni e João Oldoni, é uma alienígena. No entorno há poucas casas, vários terrenos vazios, e não muito longe da vista estão pedaços de mata nativa fazendo fronteira com carreiros de terra, que em breve serão novas ruas.

É uma área de loteamento, como as várias outras que pipocaram por Pato Branco nos últimos anos, resultado de um período de vacas gordas no setor da construção civil.

De longe, o tal caixote poderia passar por um depósito, pois ali são poucos os elementos que lembram uma casa, pelo menos de acordo com a ideia mais comum que se tem de “casa”.

Nela não há jardim, uma laje faz as vezes de telhado e é preciso olhá-la por um certo tempo para entender onde começam e onde terminam as janelas.

Apesar disso, essa edificação foi pensada para ser o lar de pelo menos três famílias. Se trata de um pequeno condomínio, que também pouco lembra a imagem tradicional de casas geminadas, cercadas por muros e separadas da rua por um portão.

Quem sabe por isso a construção tenha chamado atenção de um grupo de estudantes e professores de arquitetura, que em uma tarde ensolarada de outubro montou acampamento em frente à construção para traduzi-la em desenho.

Rodolfo Tscha
Casas na esquina entre as ruas Severino Oldoni e João Oldono

 

Com lápis, cadernetas e cadernos, o coletivo de cerca de 10 pessoas rabiscava compenetrado, sentados no meio fio, na calçada e em cadeiras dobráveis. Aos poucos, os traços no papel foram materializando pontos de vista particulares da edificação.

O ritual costuma se repetir toda semana, geralmente às sextas-feiras. Eles escolhem uma edificação, articulam o encontro pelo Facebook e se reúnem para desenhar. Parece diversão – e também é – mas a proposta da atividade envolve desde o aperfeiçoamento dos estudos até a reflexão sobre a evolução da cidade.

Em mais ou menos 20 encontros já foram para o papel a Prefeitura de Pato Branco, o Ginásio Dolivar Lavarda, o Fórum e a Igreja Matriz São Pedro Apóstolo, desenhos que por sua função são chamados de croquis.

De acordo com o site do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), a palavra croqui remonta ao século 19, e sua origem seria um termo em francês para “esboçar”. O conceito também é aplicado na moda e no design.

“O croqui, para o arquiteto, faz parte do processo criativo. É uma forma de colocar rapidamente no papel um pensamento, materializar uma ideia” explica o arquiteto Michel Macedo, autor do projeto do condomínio.

Em bom português, croqui é um rascunho, mas sua proposta é mais complexa, e alguns “rascunhadores” são tão habilidosos que conseguem criar verdadeiras obras de arte.

Assim como a escrita, o desenho também é uma linguagem. Para contar uma história, o escritor cria uma ideia de narrativa, escreve, lê e reescreve. O mesmo acontece com um arquiteto quando usa o desenho para materializar a ideia de uma construção, ou seja, quando rabisca um croqui.

Ana Caroline Carneiro
Fórum de Pato Branco

O exemplo acima é de Reinoldo Klein, arquiteto, professor universitário e mentor do grupo de desenhistas de Pato Branco. Segundo ele, um croqui precisa ser entendido como o processo de aperfeiçoamento de uma ideia, e não um produto final, uma obra acabada. “O arquiteto se utiliza do croqui para projetar, e ele não faz somente um. É um processo de aprendizado consigo mesmo, pois você absorve o que já desenhou e refaz”, completa.

O objetivo, portanto, não é fazer um desenho tecnicamente perfeito, e nem é preciso ser arquiteto ou estudante para se arriscar a fazer um croqui. Evelin Carneiro ainda não está na universidade, mas mesmo assim participa dos encontros.

Ela conta que se interessou pelo assunto por causa da irmã, Ana Caroline Carneiro, também participante do grupo. Ana conta que desde que passou a desenhar a cidade, passou a valorizar os detalhes das edificações.

Grupos como o de Pato Branco existem aos montes mundo afora, e o principal culpado disso não é arquiteto, mas jornalista. Na opinião de Klein, o espanhol Gabriel Campanario é o grande incentivador do movimento. Formado pela Escola de Comunicação da

Universidade de Navarra, Campanario começou a carreira fazendo infográficos para o jornal espanhol La Vanguardia. Ele vive nos Estados Unidos desde 1998, e é ilustrador no Seattle Times, jornal onde mantém uma premiada coluna semanal, a Seattle Sketcher.

Campanario é o fundador do Urban Sketchers, uma organização sem fins lucrativos que usa a internet para agregar desenhistas de rua do mundo todo. Até o fechamento desta edição, o diretório global do Urban Sketchers contava com mais de 2.500 cadastros, mas o número de entusiastas é bem maior.

Junior Baggio
Terminal rodoviário

Na internet há várias páginas de coletivos sketchers ligados a cidades e países. De acordo com a página brasileira do movimento, existem grupos organizados em pelo menos 17 cidades do país – o de Pato Branco não aparece na conta.

Ainda segundo a página, em 2016 será realizado em Curitiba o primeiro encontro nacional de urban sketchers. E foi da capital do estado que Klein trouxe o incentivo para a criação do núcleo pato-branquense.

O professor também participa de um grupo de croquis urbanos em Curitiba. Por lá, já foram feitos mais de 140 encontros semanais.

Segundo Klein, basta que o grupo enxergue algum valor na construção para que ela vire desenho, seja por sua importância histórica, seu simbolismo ou inovação.

De certo modo, a “caixa condomínio” tem um pouco dos três. Para Klein, a obra é uma das primeiras construções contemporâneas erguidas na cidade. “Ela não é traduzida só na questão plástica, é espaço, é percurso, é a maneira que a luz entra. É uma maturidade que hoje a cidade está aprendendo”, analisa.

Michel Macedo, o pai do projeto, explica que sua intenção foi aproveitar o declive do terreno e a esquina para deixar as fachadas livres. Para isso ele criou garagens nos fundos, abaixo do nível da rua principal, ou na cota mais baixa, como dizem os arquitetos.

Helmuth Kühl
Urban sketchers em ação. Estudantes se reúnem para desenhar a cidade

Também não há muros; no lugar do gramado há um fosso e a porta principal é ligada à calçada por uma passarela. “A ideia era manter a relação direta entre a pessoa e a obra e não perder a relação da rua com o edifício”, acrescenta.

Macedo explica que a arquitetura contemporânea se constrói com elementos do passado. Ele cita como exemplo o desenho da caixa d´água de seu projeto, herança de Vilanova Artigas, um dos principais nomes da Escola Paulista de Arquitetura, e o uso do concreto, aspecto da arquitetura brutalista.

Klein avalia que a arquitetura local está em evolução, impulsionada também por conta do curso superior de Arquitetura e Urbanismo, oferecido em Pato Branco pela Faculdade Mater Dei. “É uma cidade nova recebendo influências, e é natural que o pensamento de projeto, de construir a cidade, vá amadurecendo por essa razão”, analisa.

Bruno Martins, coordenador do curso e conselheiro regional do CAU/PR, acredita que um novo pensamento já está sendo assimilado pela comunidade, assim como a reflexão sobre o contexto urbano. “Uma obra interage com quem passa na rua. Por isso é preciso pensar no usuário, que vai fazer com que uma edificação seja expressiva. Não há arquitetura sem pessoas”.  É uma pequena revolução, que está sendo registrada a lápis.