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Os segredos da Matriz

Visitamos a torre do relógio da Matriz São Pedro, e desvendamos alguns dos significados do mosaico da igreja que completou 50 anos de inauguração

Visitamos a torre do relógio da Matriz São Pedro, e desvendamos alguns dos significados do mosaico da igreja que completou 50 anos de inauguração

Helmuth Kühl
O mecanismo do relógio. É aqui que acontece o controle do sino e dos ponteiros, que ficam nos andares superiores

Ela está em praticamente todas as fotos do centro de Pato Branco. De ano em ano, de década em década, as imagens mostram a cidade evoluindo em asfalto e concreto, e a Matriz São Pedro Apóstolo aparece quase imutável, como um monumento à memória da adolescência de Pato Branco enquanto município.

É assim há 50 anos, e pode ser que continue por muito tempo. Inaugurada em 29 de junho de 1965, o enorme prédio de 62 metros de comprimento e 42 de largura era um assombro para uma época em que as maiores edificações eram feitas de madeira.

Da pedra fundamental à inauguração, foram cinco anos de obras tocadas por voluntários. Seja assentando tijolos ou vigiando materiais, os moradores ajudavam como podiam na realização do sonho de ter um belo espaço para oração.

Na comissão que comandava os trabalhos havia quatro homens chamados Pedro, fato que escolheu o padroeiro e o nome do prédio desenhado por Benedito Calixto a partir de um esboço do terreno. Calixto também assinou o projeto da Basílica do Santuário Nacional de Aparecida do Norte, que tem lá suas semelhanças com a matriz pato-branquense.

Alguns ambientes permanecem longe dos olhos do grande público, ou estão à vista e carregam vários significados por vezes desconhecidos. A torre do relógio é um deles.

A torre

Em uma tarde de julho, a reportagem de Vanilla visitou a torre da igreja acompanhada do frei Olivo Marafon. São 50 metros de altura e cerca de 10 pavimentos, desde o nível da rua até o andar do sino. Até o quinto pavimento, a torre é composta basicamente por salas de catequese, um espaço que já foi usado pela Rádio Celinauta.

A partir daí, atrás de uma porta com chave, uma escada estreita e os ladrilhos sugerem a avançada idade da construção. Nos dois pavimentos seguintes estão algumas relíquias da história da igreja, e de Pato Branco.

Helmuth Kühl
Rolos de áudio, guardados em antigos armários na torre. Era assim que se tocava música em rádios

Entre imagens de santos e outras peças religiosas estão vários armários que guardam rolos de fita magnética, com óperas, músicas e outros sons. Muito antes da era digital, era assim que se reproduzia música nas rádios. Os últimos quatro pavimentos são ocupados pelo sistema do relógio. Uma caixa de madeira, que abriga pêndulos de concreto, é a primeira peça visível. A caixa continua no andar de cima, onde está o mecanismo que comanda os ponteiros.

O relógio da matriz é um emaranhado indecifrável de rodas dentadas, que se movem com um tilintar característico de relógios de pêndulo. Tal movimento comanda a estrutura dos ponteiros, no penúltimo andar.

Duas barras suspensas se cruzam no meio do ambiente, e se ligam a rodas dentadas fixadas na parede. Nem parece que circunferências tão pequenas movimentam peças tão grandes do lado de fora. Uma voltinha de cinco dentes da roda equivale a passagem de um minuto, para ser mais preciso.

Helmuth Kühl
Frei Olivo, e o sistema que comanda os ponteiros

Do alto de uma armação de madeira, no último andar, está o sino, uma peça de bronze muito menor do que seu barulho sugere. O sino faz o som das horas cheias, enquanto dois trilhos de trem são responsáveis pelos sons dos quartos de hora.

Helmuth Kühl
O sino, que bate para marcar as horas cheias

Tudo funciona de forma automática, com manutenções corriqueiras feitas pelo frei Nelson Rabelo, e outras mais específicas, feitas por um técnico gaúcho. Foi ele quem instalou o temporizador que silencia o relógio símbolo de Pato Branco das 23h às 6h.

Helmuth Kühl
Um martelo bate em um trilho de trem para marcar os quartos de hora

O mosaico

Mosaicos, vitrais e painéis são comuns no ornamento de igrejas. Porém, na matriz de Pato Branco o adorno construído com a colaboração da comunidade é bem mais significativo. 
O mosaico da igreja levou cinco anos para ser construído e é formado por dois milhões e quinhentas mil pedrinhas coloridas feitas na China, Espanha, Itália, México e Brasil.

Segundo o frei Policarpo Berri, o adorno é um símbolo de fé para a comunidade, além de representar a passagem do apóstolo Pedro, o santo padroeiro do município.A ideia começou no tempo do frei João Bosco, ex-pároco de Pato Branco, que acompanhou todo o projeto do mosaico e o processo de escolha do artista responsável pela obra.

Helmuth Kühl
Detalhe do mosaico. Imagem composta por milhares de pedras

Em depoimento, frei João Bosco disse uma vez – ao referir-se à grande incumbência atribuída a ele na definição do projeto do mosaico – que era difícil saber quais teriam sido os planos de Frei Gonçalo Orth, ao trazer à tona a planta da nova igreja, desenhada pelo arquiteto Benedito Calixto, há 50 anos, para enfim aprovar o projeto do mosaico.

Neste contexto, também questionou sobre “o que teriam imaginado, na época, as levas de trabalhadores que ele (frei Gonçalo Orth) convocava nas capelas, em rodízio, para drenar as águas do banhado, elevar do chão as paredes, trançar o madeiramento do telhado”.

No entanto, décadas depois da construção da nova matriz, foi preciso muito empenho dos voluntários, e várias festividades, para ajudar na construção do mosaico. Por fim, diante do trabalho realizado, resta aos fiéis contemplar a obra, que é repleta de significados.

Helmuth Kühl
Mosaico faz referência a São Pedro, Nossa Senhora Aparecida e outros simbolismos católicos

Simbologia

Um vídeo produzido pelo grupo jovem de oração Água Viva, narrado pelo frei Nelson Rabelo, explica as minúcias da obra do mosaico, rica em detalhes e simbologias, os quais grande parte da população ainda desconhece: