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Meu caro Gullar

Quem imaginaria, hein? Bem no começo deste dezembro que “não desiste de viver”, você decidiu embarcar para o outro lado. Poxa vida! Antes que a primavera terminasse, você simplesmente resolveu ir embora. Não quis ficar mais um verão. É pena. Os dias vão perder um pouco da graça sem sua poesia. Para nossa felicidade, permanece o açúcar calcinante de seus versos que redimensionou o sol, as tardes, a terra, o mar azul, o ar azul, a noite...

Não espero que me mande notícias e me conte como é a vida por aí. Pra quê? Um dia também descerei na plataforma dessa estação aonde você acabou de chegar e lá estará ela, a Iniludível, a me esperar. Tenho plena certeza que você deve estar em boa companhia. A seu lado, feliz com sua chegada, está toda sua patota: Amílcar, Vinicius, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim, Hélio Oiticica e muitos outros.

Ah! vai se deparar com os inimigos também, meu caro. Há de cruzar com um e outro. Dos inimigos nunca nos livramos. Houvesse céu, lá estariam. Houvesse inferno, é certo que apareceria pelo menos um para aporrinhar. Não se chateie com isso, não. Faz parte da vida. Dessa e da outra que vai viver de agora em diante.

É redundante lhe dizer isso, mas saiba que os que ficam por aqui vão sentir sua falta. Agora, nesses primeiros dias de sua ausência, paira uma consternação geral. Há um quê de surpresa, um ponto de interrogação em cada rosto. Ouvi até um sujeito falar assim: “Pô, o Gullar! Largar tudo assim sem mais nem menos. Não quis nem esperar 2017. Será que ele estava aporrinhado com toda essa patifaria desses políticos? Mas quem é que não está?”

Preciso contar um negócio pra você. Não sei como começar. Estou meio sem jeito. Escrevo esse parágrafo para me preparar para dizer tudo no próximo. O circunlóquio também é uma estratégia, não é verdade?

Bem. Vamos lá. Vou confessar-lhe uma traiçãozinha. Desculpe-me contar só depois de você ter ido. Antes eu jamais teria coragem. Naquela prova de Literatura Brasileira que fiz há muito tempo, eu não consegui atinar com o sentido de “Verão”. Olha que fiquei mais de meia hora lendo e relendo seu poema. Qual o quê! Embatuquei. O poema era muito bonito. Queria escrever mil e uma palavras sobre ele. Não pude. Impossível. Aqueles versos me hipnotizaram. Covarde, fugi deles. Que eu fiz então? Analisei “A quinta história”, da Clarice. Um conto. Prosa mais ou menos palatável. Perdoável, não é, cara? Quem é que pode resistir a essa escritora fabulosa, hein, me diga?

Me lembrei de uma historiazinha sua. Quem achar que é mentira pode perguntar a você. Sei que vai confirmar. Não sei mais bem quando, mas certa vez você contou que ficou cerca de vinte anos tentando pôr letra no “O trenzinho do caipira”, e nada. De repente, em menos de vinte minutos você fez a letra. Que magnífico é esse mistério da poesia!

Revendo os versos, percebo que esse eterno menino que você sempre foi salta de cada palavra do poema. Acho até que ele foi o réquiem que você escreveu para si mesmo. Réquiem, não. É uma palavra muito pesada. Assim fica melhor: no comboio que você tomou, “O trenzinho do caipira” foi a trilha sonora que o levou ao outro lado.

 

Lá vai o trem com o menino

lá vai a vida a rodar

lá vai ciranda e destino

cidade e noite a girar

lá vai o trem sem destino

pro dia novo encontrar

correndo vai pela terra

 

vai pela serra

vai pelo mar

cantando pela serra do luar

correndo entre as estrelas a voar

no ar

piuí piuí piuí

no ar

piuí piuí piuí