Vanilla

Eu planto, você colhe e todos ganham

Tendência mundial, os terrenos baldios têm se transformado em pequenas hortas comunitárias. Em Pato Branco já existem duas: nos bairros Jardim das Américas e La Salle. Além de plantas, o que elas mais precisam é de gente envolvida, mexendo na terra e cultivando alimentação saudável e integração

Helmuth Kuhl
Pode entrar, a horta também é sua

Minha filha, Maria Alice, vai completar quatro anos em 2017. Assim como ela, milhares de crianças pelo mundo afora acreditam que os alimentos nascem nas prateleiras dos supermercados, dentro das embalagens, prontos para serem servidos à mesa.

A geração da Maria, e até do meu filho mais velho, o João Pedro - que fará 15 ano que vem -, convive com uma alimentação transgênica. Ao contrário da nossa geração, que pôde aproveitar — mesmo que pouco — a infância na roça, essa criançada dificilmente vai colocar a mão na terra e compreender a magia que existe por trás da comida.

O fato é que, em pleno século 21, voltar ao passado, valorizando o que se tinha de bom, de saudável, e acabou se perdendo com tanta industrialização, tem ultrapassado o caráter tendencioso para se tornar um movimento cada vez mais forte.

Em um canto da sacada ou no fundo do lote é cada vez mais comum vermos uma pequena horta em construção. O resgate da alimentação saudável transbordou as barreiras da zona rural e invadiu as cidades. Terrenos baldios, antes cobertos pelo mato — e pratos cheios para o mosquito da dengue e outras pragas —, hoje se transformam em hortas comunitárias.

Esse movimento mundial veio através do trabalho voluntário e fortalecimento do plantio orgânico. No Japão e no estado da Califórnia, nos EUA, por exemplo, existem legislações que estimulam as hortas em terrenos baldios, e até mesmo em locais públicos, como praças e canteiros de rotatórias.

Em Pato Branco já existem duas hortas comunitárias. A pioneira fica no bairro Jardim das Américas, na Rua Itabira. A segunda, no bairro La Salle, na Aimoré. Somando as duas, a idade não passa de um ano: é um trabalho recente, mas que mesmo tão jovem tem gerado frutos bem maduros.

A horta do Jardim das Américas começou pequena, nos fundos da casa de Jackson Gava. “De repente, olhei para o lado e vi esse espaço, com cerca de 500 metros quadrados. A horta expandiu e seus objetivos também. De fato se tornou uma horta comunitária ao invés de ser apenas um cantinho nos fundos da minha casa.”

Antes de abrigar as plantas, o local estava tomado pelo mato e cultivava focos do mosquito da dengue, isso sem falar no acúmulo de lixo. Infelizmente, terrenos parados, sem construção, podem se tornar grandes lixões a céu aberto e aumentar a criminalidade.

Inspirados em exemplos que vêm de fora, os voluntários perceberam que haveria espaço em Pato Branco para hortas urbanas, que atendessem às necessidades das comunidades. E da semente plantada num bairro, a iniciativa germinou em outro. A segunda horta, no La Salle, possui, como no Jardim das Américas, cerca de 500 m².

Cristiane Sabadin Tomasi
Voluntários na hora do Jardim das Américas

Para Fabiano Ostapiv, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), vizinho da horta do La Salle e um dos idealizadores do projeto, tais iniciativas têm ganhado força porque fazem as pessoas entenderem o quanto se alimentam de forma inadequada, o que ajuda para uma mudança de comportamento. “As pessoas estão acostumadas a comer o que vem do mercado, baseado em uma alimentação transgênica. Na horta não. Aqui resgatamos a segurança alimentar.”

No bairro La Salle, a horta está em estágio de recuperação do solo e preservação da água. Seu formato de mandala – como também é a do Jardim das Américas – aumenta a capacidade de captar a água que cai do barranco, mantendo a umidade durante o dia. A água fica na entrelinha, alimentando as plantas. Sem falar na beleza: a mandala traz energia ao lugar e tem toda uma inspiração mística.

No Jardim das Américas, a horta está bastante organizada e os voluntários dispõem de uma grande diversidade de vegetais, temperos e plantas medicinais. Segundo Jackson, quem planta tem colhido tranquilamente seu próprio alimento, sem agrotóxicos.

 

 

Rural na cidade

O engenheiro agrônomo Celso Ferraz Bett resume as hortas comunitárias como sendo o “rural dentro da cidade”. Diz que elas resgatam a cultura urbana e reforça o que talvez seja mais importante saber: “É a mesma terra, o mesmo ar, chove igual, só é mais concreto em volta, tem calçada. Ao invés de o ser humano sair para o meio rural, é trazer um pouco do rural para dentro da cidade”.

Assim,  passamos a compreender que além de alimentos naturais, livres de agrotóxicos, a horta faz bem à saúde da alma. “Vir à horta faz a pessoa se sentir melhor, tira o estresse, caso contrário ficamos apenas no relógio e nossa saúde vai ficando debilitada. Quem mais precisa da horta somos nós, não é a terra, não são as plantas. Sou eu que preciso estar aqui. A terra é boa, a gente é que maltrata e a faz ficar ruim.”

 

Os vizinhos da horta

Cristiane Sabadin Tomasi
Pôr do sol deixa a horta do La Salle ainda mais bonita

Se fosse apenas imaginar uma horta funcionando ao lado da sua casa, nas quais as plantas crescessem e que estivessem na nossa mesa no dia seguinte, seria tão simples que perderia a graça. A realidade é bem diferente, e é lógico que, depois de criadas, as hortas não sobrevivem sozinhas. Elas precisam da comunidade, das pessoas, do engajamento. É aí que entram em cena os moradores.

Na horta do Jardim das Américas, que funciona há uns dez meses, há pouco mais de oito pessoas envolvidas diretamente. Dona Sedeneis diz que precisa de mais, muito mais. E é importante chegar e fazer o que mais se identifica. Um planta, outro pode regar. Um mexe a terra, outro pode limpar. Um doa mudas, outro pode vir e conversar.

Dona Sedeneis Aparecida Gava, 49 anos, mora na Rua Fernão Dias Paes, no bairro Jardim das Américas. Desde que aderiu ao projeto, a passadinha na horta é uma daquelas obrigações que se faz numa boa. “Toda semana venho na horta duas vezes ou mais, e vejo que algumas pessoas olham da rua, parabenizam, mas não entram. E eu sempre chamo, falo para vir participar, que todos são convidados a entrar e fazer parte da corrente.”

A vizinha percebe que há fartura de elogios, mas falta adesão. “A horta é de todos, não é só do nosso bairro. Se quiser vir, está aberto.”

Se falta entusiasmo para participar, dona Sedeneis passa a lista de benefícios. “Para nós é muito útil, porque a verdura que plantamos e colhemos não têm agrotóxicos. É tudo natural. Temos alface, beterraba, repolho, rúcula, temperos, plantas medicinais e ervas, cenoura, rabanetes, cebolinha, couve, açafrão, batata doce, brócolis, mandioca, e a tendência é plantar ainda mais e experimentar outras culturas. Tem até um pé de mamão.”

Mesmo com pouca participação, a produção já rendeu boas ações, como contou Sedeneis. “Já teve alguns dias com sobra de alfaces, e fizemos uma doação para o Hospital do Câncer. Isso é gratificante. Claro que a prioridade é para quem planta, que pode colher à vontade, mas sempre que sobra vamos ajudar, vamos continuar fazendo boas ações. E espero que sobre sempre.”

Antônio Bittencourt, 69 anos, e Ivone da Silva, 68, são casados e moram no bairro Jardim das Américas há 20 anos. Desde o início da horta fazem parte do projeto. E a idade não é desculpa para não participar.

“Eu compro mudas e trago aqui. Como não posso cavoucar muito, faço o que está ao meu alcance”, disse dona Ivone, que com tanta experiência, garante que “é outro alimento, tem outro sabor, é saudável. Você pega um pé de alface daqui e o sabor é bem diferente. Sem falar nos outros benefícios”.

O mais bacana da horta é propiciar este envolvimento entre as pessoas, começando por quem idealizou o projeto, quem cedeu a utilização do terreno – neste caso, os proprietários merecem aplausos por enxergar à frente – e quem coloca a mão na terra. Não importa a idade, a profissão, os problemas, quem entra na horta está disposto a encontrar alimento para o corpo e para a alma.

“Tenho comércio aqui do lado, tenho uma pizzaria, e no apuro utilizo as verduras da horta. Ajudamos da forma que podemos e colhemos as saladas que faltam em cima da hora. É algo que precisa ser valorizado”, diz Carlos Eduardo Castro, 24 anos.

 

Quem planta, colhe e se envolve

Cristiane Sabadin Tomasi
A mão na terra não oferece apenas alimento, mas é terapia e estilo de vida

Talvez o grande legado das hortas comunitárias não seja apenas o ato de plantar e colher o próprio alimento. Quem sabe, o melhor aprendizado disso tudo seja a interação entre pessoas e natureza. É compreender que mexer na terra e acima de tudo respeitá-la é o modo mais eficaz de receber a recompensa: comida e vida saudável.

Diretamente, nas duas hortas, estão envolvidas 20 pessoas. Mas no dia a dia, há gente interessada, porque ouviu falar no assunto, leu na internet ou porque já percebeu que é passado da hora de repensar sobre alimentação e convivência.

Para Ostapiv, o grupo ainda é pequeno, mas, aos poucos, tem virado exemplo. “Todo mundo que está no entorno conhecia o terreno do La Salle antes da gente começar a trabalhar e transformar isso em uma horta. Antes era lixo, depósito de lixo, virava foco da dengue e o próprio proprietário fica feliz em ver essa mudança, de um ambiente que estava parado, um terreno baldio, para passar a ser um local aonde as pessoas vem fazer terapia.”

 

Em sintonia

Terapia na horta? Pois é. O simples fato de juntar pessoas, que não se importam em sujar a roupa de terra e pisar descalço no chão, cria uma atmosfera de acolhimento. “Para nós, que somos urbanóides, vermos a mística da transformação de uma semente em milhares, é fantástico. Além disso, esse contato com a terra, equilibra a pessoa de um modo sutil. Você começa a ter consciência da abelha, da flor, da borboleta, da fauna que está envolvida. Esse fato de trocar aquela energia que pegamos do plástico, do concreto, do ferro, com a terra e ficar tranquilo num outro ritmo, tem um valor inestimável”, salienta o professor.

E como prova de que a horta não é do bairro, nem da cidade, e sim é realmente comunitária, pessoas têm viajado quilômetros para trocar essa experiência. Silvana Potuk, 32 anos, é de São Lourenço do Oeste (SC).

“Meu principal objetivo é ter contato com a terra, essa conexão; acho muito importante. Além disso, há contato com as pessoas, com o coletivo, esse resgate com o outro, com o tocar, abraçar, estar em volta do fogo. Plantar e ver crescendo a energia da planta é extremamente gratificante. A troca é assim: eu me doo um pouco, e a terra me traz muito mais.”

Carla Soares, 34 anos, é relações públicas. Ela e o marido, Gustavo Gazola, 32, deixaram Belo Horizonte por motivos profissionais. Gustavo passou em um concurso na UTFPR, e eles saíram da cidade grande para o interior.

Aqui, encontraram juntamente o que procuravam. “Viemos para uma cidade muito menor que BH em busca de experiências diferentes. E parte da experiência que queríamos encontrar era essa contato maior com a terra, com a produção das coisas.”

Gustavo e a mulher são ligados em cozinha, e tem um interesse natural na produção de alimentos. Para eles, estar na cidade e ter a chance de participar de uma horta comunitária é fazer parte desta conexão com a terra.

Mais experiente, dona Rita Techio, 61 anos, é filha de mãe italiana, daquelas que só serviam à mesa verduras e legumes cultivados na horta de casa. A senhora, que é vizinha da horta do La Salle, mantém a sua: tem uma plantação de ervilhas. Foi convivada a participar do movimento e está adorando ajudar os mais novos. “Se eles precisarem de mudas, dou um jeito de trazer.”

Para Celso, que acompanhou desde as primeiras roçadas nos terrenos baldios, era difícil imaginar que o projeto fosse tão longe. Mas hoje, tem certeza: “já consigo visualizar para frente o que pode se tornar”.

E Fabiano complementa as boas vibrações: “Esse movimento, que estamos fazendo aqui, é de vanguarda no mundo. Está conectado com um projeto de futuro do planeta, essa é a grande questão. No material, pode ser que não esteja aquela produção, aquela colheita, mas a mensagem que isso leva é muito maior”.

 

Horta por todos os lugares

O exemplo dos voluntários da cidade tem incentivado outras pequenas ações. É o caso das hortas que estão em processo de implantação no Remanso da Pedreira e no Colégio Estadual de Pato Branco (Premem).

Milena Fernanda Francio, 21 anos, é estudante de Letras, e ajuda nas hortas destas duas instituições de ensino. Ambas são também locais de pesquisa para um projeto de extensão que mantemos pela UTFPR, chamado a “Linguagem da Permacultura na Escola”.

Tudo surgiu depois que Milena fez intercâmbio e um curso de Permacultura. “Me apaixonei por essa ideia que é simples, porém significa para mim uma nova consciência. Cuidar da terra é essencial para que as próximas gerações desfrutem dos recursos e tenham uma qualidade de vida digna.”

Na prática, os voluntários visitam as hortas no Remanso e no Premem uma vez por semana. A manutenção diária é feita pelos funcionários das instituições. Mas o grande ensinamento é conscientizar os pequenos quanto à importância de plantar e colher o próprio alimento.

Para Milena, além da consciência ambiental, as crianças aprendem grandes lições ao ter contato com a terra. “Muitas pessoas nunca pararam para observer minuciosamente o formato de uma flor, ou pararam para ouvir o canto de um passarinho. Essas coisas despertam nossa sensibilidade e nossa intenção é justamente essa: contribuir na formação psicológica, física e emocional das crianças.”

Nas hortas cultivam-se hortaliças em geral e temperos verdes, que podem ser utilizados pelas cozinheiras das escolas. É alimento saudável na merenda, e melhor, produzido pelas mãozinhas dos pequenos estudantes. Aliás, não é apenas a mesa que melhora o sabor, mas sim a vida dessa criançada. “Tem um valor de capital monetário inestimável ver o sorriso no rosto delas em cada nova descoberta, a cada passo que se dá.”