Vanilla

Desce como água

Doces e fortes, os licores são a mistura de álcool com frutas e ervas que se tornou um famoso aperitivo. Boa parte dessa fama é culpa de frades, que vem aprimorando receitas desde a idade média

Doces e fortes, os licores são a mistura de álcool com frutas e ervas  que se tornou um famoso aperitivo. Boa parte dessa fama é culpa de frades, que vem aprimorando receitas desde a idade média

Helmuth Kühl
Saúde!

Na próxima vez que for a um restaurante, preste atenção no balcão do caixa. Pode ser que elas estejam lá, garrafas transparentes, sem rótulo, com um líquido de cor, pela metade. É bem possível que sejam licores caseiros, uma bebida alcoólica que deveria vir com aqueles avisos de “beba com moderação”. Não é à toa que sejam servidos como aperitivo. Licores são bebidas fortes e geralmente muito doces, de provar e nem sentir.

Fazer bebidas caseiras com frutas, sementes e ervas é uma prática até comum. No Sudoeste, elas ainda podem ser encontradas nos bares de beira de estrada e da área rural. Além de ser uma bebida para descontrair, há quem acredite que muitas receitas têm propriedades medicinais e afrodisíacas.

Sua origem é meio nebulosa e por isso cheia de lendas. A mais famosa é a da jovem que, depois de várias tentativas frustradas de conquistar um rapaz, preparou uma bebida adocicada e afrodisíaca a partir de uma mistura de ervas finas e frutas.

Quando e onde isso aconteceu os contadores de história esqueceram de mencionar. Outra versão atribui o surgimento dos licores às bruxas. Com frutas e ervas elas preparavam poções que tinham o poder de unir casais apaixonados.  

Mas o mais provável é que a bebida tenha surgido de xaropes caseiros de ervas medicinais. Entre tentativas e erros alguém acertou a mão, mas sobre isso nós falamos depois.

Foi assim, errando até acertar, que um dos fabricantes de licores mais famoso de Pato Branco desenvolveu sua técnica. Mineiro de Santa Rita de Caldas, Felipe Gabriel Alves, o frei Felipinho, é um descolado e simpático frade, de cabelos brancos espetados e brinco na orelha.  Já viajou o mundo e o Brasil entre estudos e trabalhos missionários e está em Pato Branco desde 2003.

Helmuth Kühl
Garrafas dividem espaço com presentes que o frei ganhou em suas andanças pelo mundo

Caçula e único filho homem de uma família com 8 filhos, Felipinho conta que desde criança já mostrava talento na fabricação de bebidas. Diz ele que seu cafezinho fazia sucesso com as amigas da mãe.

Seus licores, porém, nasceram nos tempos de batina. Foi no convento de São Francisco, em São Paulo, que sua receita passou a ganhar fama, mas o caminho até lá não foi perfeito.

Durante uma passagem por Cabo Frio, no Rio de Janeiro, Felipinho quase destruiu a cozinha de uma congregação. Segundo ele, não faltam pitangueiras na beira das praias da cidade, que forneceram vasta quantidade de matéria prima para um vinho, que o frei não fazia ideia de como fazer.

Espremeu uma quantidade considerável de frutas em açúcar, colocou tudo em um garrafão e deixou descansar. Na mesma época, a cidade foi palco de um crime. Felipinho conta que alguém havia sido responsabilizado por ouvir o tiro que matou uma jovem e não prestar socorro.

Enquanto o suco de pitanga açucarado descansava na cozinha, o frei ouviu um estouro. Com medo de ser mais um tiro, foi para a rua ver o que havia acontecido. Por lá, nada.

O barulho veio da cozinha, junto com um sermão do frei superior. Vedada, a garrafa foi pelos ares com os gases da fermentação. “Aquele foi o melhor licor de pitanga do mundo, mas ninguém provou”, brinca o religioso.

Com o método aprendido e refinado, Felipinho já fez licores de caroço de pitanga, caroço de pêssego, caroço de ameixa de inverno, de folha de figo, de laranja e até jaca.

Com exceção do de laranja, feito com a fruta inteira em até 24h, fabricar licores demora cerca de um mês. É o tempo que os caroços ficam mergulhados em álcool de cereal. Uma certa quantidade de água e açúcar é usada para fazer uma calda. Depois de fria, ela e o álcool são misturados e, saúde.

Essa é a receita do frade, que já agradou gente como Jô Soares, que foi presenteado com os licores de Felipinho em quase todas as vezes em que o entrevistou - nas contas dele foram seis.

Helmuth Kühl
Felipinho, e a caneca que ganhou de Jô Soares, fã de seus licores artesanais


Licor é uma bebida para apreciar em doses pequenas, principalmente em ocasiões especiais e confraternizações. Uma boa dica é servir em tacinhas ou copinhos de chocolate, cerca de 15 minutos após o jantar, na sala ou na mesa.

Graças aos frades
Depois de um bom tempo conversando sobre licores e andanças o frade pediu para falar de religião. “Fica estranho um frei não falar sobre isso”, justifica, puxando para si uma espécie de responsabilidade.

Segundo ele, o álcool não deve ser estigmatizado. “Nas bodas de Caná, Jesus fez vinho para todo mundo e sobrou. Na eucaristia havia vinho. Ele sabia valorizar as coisas gostosas”, diz. O problema estaria no vício, de qualquer espécie.
Helmuth Kühl
Não conseguimos terminar a conversa sem provar o licor de laranjinha. Dos deuses.

Os licores estão historicamente ligados à religião. De acordo com o portal Educação, o licor mais ou menos como o conhecemos hoje apareceu na idade média, pelas mãos do alquimista catalão Arnaud Villeneuve.

Acusado de heresia e perseguido pela inquisição, Villeneuve teria livrado o pescoço depois de salvar a vida do papa com uma poção de vinho, ervas e ouro.

E foi nos mosteiros medievais que receitas dessa e de outras bebidas foram aprimoradas. Esse conhecimento tornou os monges grandes mestres das fórmulas, que deram origem a importantes licores como o Bénédictine, Chartreuse e Amaretto. Portanto, apreciadores da bebida devem uma vela para esses religiosos. Amém.