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As últimas horas de Gonzaguinha

Há 25 anos, um acidente de carro no Sudoeste tirava a vida de um dos grandes nomes da música brasileira

Há 25 anos, um acidente de carro no Sudoeste tirava a vida de um dos grandes nomes da música brasileira

Rudi Bodanese
Gonzaguinha, no derradeiro show do Clube Pinheiros, em Pato Branco

Aquela segunda-feira seria mais um dia de trabalho normal para o dentista Eduardo Scirea. Era 29 de abril de 1991. Pela manhã, ele saiu de carro de Francisco Beltrão - onde hoje é vice-prefeito – para fazer atendimentos em Renascença.

No trecho da PRC 280 entre Marmeleiro e Renascença ele avistou um acidente de trânsito, envolvendo um Monza bordô e uma caminhonete Ford. A polícia rodoviária atendia a ocorrência. No Monza haviam três pessoas que já estavam sendo levadas para o hospital. Scirea não viu nenhuma delas.

Com o testemunho do dentista, os policiais vasculharam uma pochete achada no carro. Encontraram 19 notas de um Cruzeiro e um documento de identidade. “Eles disseram: `esse aqui morreu na hora`”, lembra.

O documento estava em nome de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior. Possivelmente, Scirea foi o primeiro a se dar conta de quem era aquele homem. “Mas esse aqui é o Gonzaguinha”, exclamou.

Fazia sentido. Na época, o músico excursionava pela região e havia se apresentado em Francisco Beltrão dias antes, em show assistido por Scirea.

Chegando em Renascença, o dentista telefonou para um contato da Rádio Educadora, de Francisco Beltrão, para quem repassou a notícia da possível morte do cantor.

Gonzaguinha foi levado em uma Ford Pampa para o hospital Policlínica São Vicente de Paulo. Lá seu corpo foi fotografado por Jacir Walter, que trabalhava para o Jornal de Beltrão. Ele estava coberto, em uma maca. Segundo Walter, no registro é possível ver um corte na sobrancelha do cantor.

Suas imagens foram publicadas em vários jornais do Brasil. Os negativos originais, porém, se perderam. Walter também fotografou o acidente, sem saber que Gonzaguinha estava envolvido. “Eu estava indo a Pato Branco, na época vendia assinaturas e comerciais. Quando entrei em contato com a redação fui intimado a voltar, pois eles sabiam que eu tinha feito uma foto”, recorda.

Os outros ocupantes do carro eram o empresário Renato Manoel Duarte e Aristides Pereira da Silva. Duarte foi o único sobrevivente. Na época, a Gazeta do Sudoeste, hoje Diário do Sudoeste, noticiou que o acidente havia acontecido por volta das 7h20.

Os veículos teriam se chocado de frente, quando a caminhonete, que vinha no sentido Marmeleiro-Renascença, dobrava à esquerda para acessar uma estrada secundária. O músico tinha 45 anos.

O último show

Gonzaguinha subiu ao palco pela última vez por volta das 20h30 do dia 28 de abril de 1991, um domingo, no Clube Pinheiros, em Pato Branco. O salão estava praticamente lotado, como lembra Erlindo Rosa, que assistiu ao show.

Naquela turnê o cantor se apresentava acompanhado apenas de um violão. Erlindo lembra que o público fez coro em várias canções. “Foi um show muito bom. Ele estava animado, com toda a adrenalina, conversou bastante e foi simpático com as pessoas”, conta.

A apresentação, que durou cerca de uma hora e meia, foi promovida pela Casa da Cultura, entidade sem fins lucrativos fundada por entusiastas da arte, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura.

Reprodução
Reprodução dos possíveis últimos autógrafos do artista

Erlindo conta que soube da morte do cantor pelo rádio, por volta das 9h do dia seguinte. O fato gerou muita comoção e colocou a região no noticiário nacional.

Gonzaguinha e sua equipe se hospedaram no Hotel Província. O diretor do hotel, Valmir Rodrigues Junior, foi testemunha de alguns dos últimos momentos da vida do cantor.

De acordo com Valmir, Gonzaguinha chegou ao hotel poucas horas antes do show, e antes de ir para o quarto conversou com funcionários, promotores do evento e outras pessoas que o aguardavam.

Valmir não soube precisar o horário em que Gonzaguinha voltou ao hotel após o show. Na manhã seguinte o cantor acordou cedo, pois pegaria a estrada rumo a Foz do Iguaçu. “Ele foi sempre muito simpático, e me disse que estava com saudades da família”, contou Valmir.

Antes de partir, Gonzaguinha tirou fotos com funcionários e distribuiu autógrafos, um deles para o próprio Valmir, que o guarda até hoje em um pequeno quadro.

A despedida

No quarto de hotel, Gonzaguinha esqueceu alguns pertences. Eram cartas, bilhetes e cartões postais das cidades por onde passou, todos dedicados à sua família.

A equipe do Província já pensava nos trâmites de devolução quando a notícia do falecimento chegou. Foi Valmir quem entrou em contato com a esposa do cantor, e acabou lhe dando a notícia. Segundo ele, os profissionais de hotelaria são treinados para lidar com situações como falecimento, doença ou acidentes com hóspedes.

“Muita gente ficou em frente ao hotel, buscando notícias. A imprensa nacional também buscava informações”, conta. Familiares do cantor vieram a Pato Branco para acompanhar o translado do corpo, que seria feito de avião até Belo Horizonte.

Arquivo/Diário do Sudoeste
Gazeta do Sudoeste, hoje Diário do Sudoeste, noticia a morte do cantor

Segundo Erlindo Rosa, muitas pessoas foram ao aeroporto prestar homenagens e se despedir do artista. Valmir entregou pessoalmente os pertences de Gonzaguinha a sua esposa. “Ele praticamente se despediu de todos por aquelas mensagens”, conta.

Para Erlindo, um dos momentos mais comoventes foi quando todos cantaram Asa Branca, o maior sucesso de seu pai, Luiz Gonzaga, o rei do baião. Por volta das 17h, o avião decolou sob aplausos.