Nelson da Luz Junior
O disco obscuro de Mauro Koth

Há oito anos, um dos fundadores da Jardim Elétrico lançava “Corações Analógicos”, um dos álbuns mais ambiciosos e desconhecidos do rock sudoestino


Capa de Corações Analógicos (Crédito: Reprodução)

 

Embalado em papel reciclado, “Corações Analógicos” mais parecia um EP de divulgação na pilha de CDs lançados por bandas locais que eu investigava por curiosidade. Na capa, apenas o nome do disco sobre a foto de um toca fitas de rolo Tascam.

O projeto era novidade para mim, mas as vozes registradas eram bem conhecidas. Se travava de Márcio e Mauro Koth, duas das mentes por trás da banda pato-branquense Jardim Elétrico.

Mas o som era diferente. A crueza e a simplicidade de canções como “Heil Hippie” e “Benedicto” deram lugar a um experimentalismo que mistura brasilidade com algumas das principais influências da banda, como o rock progressivo e os Beatles.

Faz sentido, pois o álbum não é bem um trabalho da Jardim Elétrico. Lançado em 2009, “Corações Analógicos” foi gestado em Curitiba como um projeto de Mauro, que entrou em estúdio por estímulo e suporte de dois músicos amigos, Magno Verges e Andre Carrano, que também acabaram participando das gravações.

O CD tem 10 faixas, a maioria composta por ele, que também assina as letras de Janelas Portas, primeiro e único trabalho de estúdio da Jardim Elétrico. “A maioria fiz na época. Eu sempre fiz as músicas do Jardim já pensando e contando com a musicalidade dos manos, mas esse é um trabalho mais meu, com a ajuda deles”, explica.

Mauro Koth, da Jardim Elétrico. Banda com os irmãos Márcio e Julio

(Crédito: Reprodução/Facebook)

Inquieto, Mauro também pretendia ousar. No álbum há uma gama variada de efeitos, instrumentações e temas. “Amazônia”, por exemplo, fala sobre um índio nostálgico, e conta com um psicodélico solo de sintetizador. Já “O Toque do Cajado” é uma faixa rica em ritmos brasileiros, cujo andamento lembra as composições dos mineiros do clube da esquina. “Nesse CD eu tentei misturar a malandragem a ginga do samba, forró, ciranda com o rock. Muita gente do rock achou MPB e o da MPB achou Rock”, diverte-se o músico.

Obscuro

Para os padrões locais, Corações Analógicos é um disco tão original quanto obscuro, se levarmos em conta que algumas das composições da Jardim Elétrico são cantadas até hoje pelos bares da cidade, mesmo tendo sido lançadas em 2001.

A explicação foram os obstáculos para o trabalho sair do forno. Mauro conta que as gravações começaram em um importante estúdio curitibano. Alguns desentendimentos, porém, encerraram a parceria e o músico quase desistiu do projeto.

O que já havia sido feito foi levado para outro estúdio e passado para uma mesa analógica. A partir de então, a parte técnica passou para as mãos do engenheiro de som Daniel Pessanha. Em uma semana, tudo estava pronto.

No disco, a maioria das faixas foi tocada por Mauro, André Carrano, Magno e Bruno Vergés.  Julio Koth tocou teclados e participou dos arranjos; Márcio Koth contribuiu na voz, baixo, guitarra e teclado. O trabalho também conta com participações de Alessandra Wagner, de Karl e Raulen.

Foram feitas 500 cópias de Corações Analógicos, viabilizadas pelo mecenato de parceiros e empresas, e apenas um show de divulgação do trabalho foi realizado, o que contribuiu para sua obscuridade.

A apresentação aconteceu no anfiteatro da Fadep, e também teve seus percalços. Mauro conta que o motorista que trouxe os músicos para Pato Branco sumiu com o carro e a bateria, um dia antes da apresentação. A história tem mais detalhes, e envolveu até busca policial. Tudo foi encontrado mais tarde. O show aconteceu com uma bateria emprestada.

Banda no show de lançamento do álbum
(Crédito: Acervo de Rudi Bodanese/Patonauta)

Na formação estavam Mauro, Márcio, Julio, André Carrano e Beto de Bortoli. “O desgaste da gravação foi tal que esse CD quase não teve divulgação. É um disco maldito, tem músicos que o adoram, mas foi um fracasso”, resume.

A tímida repercussão, porém, aconteceu nos lugares certos, e Mauro adianta que a interessados em relançar o álbum. Não está descartada a possibilidade de um vinil, faixas extras e remasterização.

Mauro conta que o projeto deve sair do papel o quanto antes, assim como outro projeto, focado na música instrumental. “Tenho as músicas prontas, e 2017 é o ano”, adianta.