Cristiane Sabadin Tomasi
A sua família é única, agradeça

Reclamar da família é a coisa mais comum do mundo. Quase todo mundo gostaria que a mãe fosse menos chata, que o pai fosse mais legal, que o irmão fosse menos mala e que a conta bancária fosse bem mais gorda. Poucos, e se inclua nessa – porque também vou me incluir – acreditam que tudo é perfeito e que nada poderia ser diferente.

É natural do ser humano achar que a grama do vizinho é mais verde, e que todos os nossos problemas são maiores. E sim, tudo que acontece de bom e de ruim é dividido com os familiares mais próximos. Se dá certo, ótimo. A família pede uma pizza e comemora. Mas se dá errado, todas as amarguras são igualmente destiladas em quem a gente mais ama: a frustração do dia a dia sobra pra filho, marido, mãe, irmão. A vida é assim.

Mas sabe de uma coisa: não há nada melhor no mundo do que reclamar de barriga cheia. Quando você descobre que tem uma família normal, apesar de todos os dilemas do mundo, você precisa somente agradecer. E quando eu falo família normal, leia-se “família com saúde e unida”. Eu tenho essa família: que grita, chora, resmunga, abraça, briga de novo, chora mais, porém, não vive longe de jeito nenhum.

Na tarde fria desta quinta-feira, dia 1º de junho, conheci a casa de acolhimento para meninos em Pato Branco. Eles se mudaram há poucos dias, e hoje não moram mais no conhecido horto florestal. A casa é linda, um verdadeiro lar. Tem tudo que eles precisam para uma vida digna, com conforto e segurança. Os meninos estão ali porque foram afastados de suas famílias por diversas razões, e são vítimas de histórias de violência e negligência.

Eles estão amparados por uma equipe capacitada, que faz das tripas coração para minimizar o sofrimento. E pela carinha deles neste dia, posso garantir que o pessoal está conseguindo. Todos felizes, com um sorrisão de dar inveja. Uns queridos.

Mas eu confesso que voltei de lá pensando em como tudo poderia ser diferente. Eles, certamente, apesar de tudo que recebem ali, aposto, gostariam de estar com as suas famílias cheias de defeitos e problemas.

Eu sei, são casos extremos, e essa proteção é necessária, mas me entristeceu pensar que vivem longe dos irmãos, da mãe, do pai, dos parentes mais próximos. Sorte deles, e de todos que os protegem, que é possível formarem novas famílias. Não de sangue, mas de amor.

Eu só quero abraçar a minha família hoje. Do jeito que é. Sem tirar, nem pôr. É minha. Eu cuido, protejo, brigo por ela, morro se preciso for. Meus. De sangue, coração e alma.