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Sofrência à moda (mais ou menos) antiga

Mariana Salles

17/12/2016 às 00:00 - Atualizado em 17/12/2016 às 00:00

Divulgação

 

 

A expressão para designar a música sertaneja com letras de amores que deram errado muda de tempos em tempos. “Hino de corno”, “dor de cotovelo” e, mais atualmente, “sofrência” é um gênero ouvido Brasil afora, e desde sempre. Os mais jovens, no entanto, tratam com muito mais desdém, e até um certo sarcasmo, quando a relação não está lá essas coisas. Ao menos é o que dizem as letras atuais, onde o “rejeitado” sempre acaba ficando com a(o) amiga(o) de quem o rejeitou, aproveitando a vida no camarote da balada, tomando vodka e sendo, no fim das contas, mais feliz do que seria se estivesse com aquela pessoa que o descartou. Até aí, ok, ponto para a autoestima, merecemos mesmo a felicidade.

Mas onde foi parar o romantismo que cantou Chitãozinho e Xororó em Evidências? Ou a dor que sentiu Almir Rogério ao dizer que “Me disseram que ela foi vista com outro num fuscão preto pela cidade a rodar. Bem vestida igual à dama da noite, cheirando a álcool e fumando sem parar. Meu Deus do céu, diga que isso é mentira, e se for verdade esclareça por favor.”

No fim das contas, na madrugada fria, escura e solitária, a gente sente mesmo é essa frustração de querer alguém que não nos quer. “E uma saudade bate forte, dói no fundo. Vontade louca de te amar mais uma vez”, já cantou Gian e Giovani.

O jornalista Eduardo Guimarães trabalhou, no início dos anos 2000, em um bar no qual a setlist era predominantemente sertaneja. “Vi vários ‘clássicos’ surgindo, como Dormi na Praça, de Bruno e Marrone, e São Paulo à Belém, de Rio Negro e Solimões. Mas nada se compara a Gian e Giovani com Convite de Casamento”, acredita. A música que conta a história de um amor platônico, finalizado com o casamento do ser amado e um convite chegando com letras douradas em uma papel bonito rabiscado no verso “meu amor, eu confesso que estou casando mas o grande amor da minha vida é você” é capaz de encher de lágrimas os olhos até dos mais céticos.

Eduardo ainda lembra um dos maiores clássicos da categoria: Boate Azul. “Além da mulher ter largado o cara, ele se apaixona por uma prostituta, mas ele nem sabe em qual inferninho ela trabalha. É muita dor! Sei que Boate Azul é mais antiga, mas nada demonstra melhor a sofrência da música sertaneja brasileira”, acredita.

 

Mais novo e mais velho

O músico Diego Guerro diz que adora a música sertaneja de raiz, composta e interpretada por artistas como Tião Carreiro e Pardinho, Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Almir Sater e tantos outros. “Tem grande valor para cultura brasileira, pois retrata com maestria e sinceridade a cultura do verdadeiro sertanejo”, diz. Já para o sertanejo romântico dos anos 80, 90 e 2000, ele torce o nariz. “São canções que trazem uma estética baseada em padrões americanos, com letras vulgares e melodias pobres, se enquadra como entretenimento e passa longe da cultura nacional em minha opinião”, diz.

Mesmo que ele tenha uma inegável razão, o produtor de eventos Luiz Carlos Menon diz que “as melodias dos anos 80, 90 são realmente pobres, mas ainda assim são muito, mas muito superior ao que vemos hoje”.

O publicitário e músico Paulo Argollo diz que gosto de bastante coisa dos sertanejos 80's e 90's. “Não sou profundo conhecedor, mas do que eu conheço, acho muito bom, apesar de não ouvir com frequência”, comenta. Suas duplas preferidas são Chitãozinho & Xororó, Milionário & José Rico e João Mineiro & Marciano.

Já o sertanejo dos anos 2000, pouquíssimos são os que o agradam. “Acho tudo muito igual, tanto melodicamente quanto em temática de letras. Destaco apenas Vitor & Léo, por serem ótimos compositores, e Michel Teló, por ser um músico muito completo e carismático. O resto acho farinha do mesmo saco”, diz.

Sobre o que é bom e o que é ruim, Guerro acredita que a arte é sempre um reflexo da sociedade, ou de uma parte dela. “Sempre teve música ruim e sempre teve público para isso, mas agora está demais, tem muita música ruim e um público cada vez maior para isso. Em contrapartida, tem muita gente fazendo música boa, com responsabilidade e compromisso com a arte, e encontrando o público que merece graças à internet.”

 

 

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